Carnaval,
O Brasil que se vê na avenida
Virada no enredo de escolas de samba instaura debate público sobre o país e suas contradições
01fev2026 • Atualizado em: 04fev2026 | Edição #102O enredo como uma forma de pensar o Brasil. Assim podemos definir a maneira como Luiz Antonio Simas e Fábio Fabato enxergam a temática central do prazeroso Pra tudo começar na quinta-feira: o enredo dos enredos, que foi lançado em 2015 e ganha uma edição especial de dez anos, revista e ampliada, no pré-Carnaval de 2026, também da editora Mórula.
O livro versa sobre a importância do enredo das escolas de samba para a compreensão da festa. Dividido em duas partes, apresenta inicialmente um apanhado histórico acerca das tendências temáticas das escolas de samba em paralelo ao contexto sociopolítico vivido no Brasil. E, se há uma característica das escolas de samba e, por conseguinte, dos enredos, é exatamente a capacidade de adaptação aos rumos históricos. Em um segundo momento, a narrativa traz nomes, causos e episódios, destacando personagens que “enredaram” a folia.
Simas e Fabato são nomes conhecidos na literatura carnavalesca. As distintas áreas de formação e atuação dos autores — um, historiador; o outro, jornalista — tornam-se perceptíveis, contribuindo para uma saudável diferença de abordagens e estilos de escrita. Uma das características mais marcantes é justamente o tom memorialístico que atravessa o texto, reunindo dados, histórias e personagens fundamentais para a construção dos enredos. Nesse sentido, a obra se consolida como uma importante fonte de consulta para os carnavais vindouros, ao oferecer, a partir de um recorte e um olhar particulares, que são políticos, o registro do próprio tempo de sua produção, contribuindo para a bibliografia sobre as escolas de samba.
A escrita é fluida e assume, desde as primeiras páginas, o propósito de oferecer uma leitura acessível e envolvente, sem comprometimento com o rigor acadêmico mais estrito, como o uso sistemático de citações ou análises aprofundadas de aspectos específicos do tema. Ciente dessa proposta, o leitor pode se deleitar não apenas com o recorte temático dos enredos, mas com a narrativa sobre os profissionais e o contexto em que desenvolveram os desfiles.
Representação
A nova edição identifica uma verdadeira “virada” no conteúdo e na forma de produção do enredo das escolas de samba. Ao atualizar o estudo, os autores incorporam reflexões sobre um cenário recente, marcado pela centralidade que os enredos passaram a ter na disputa pelo campeonato. Na orelha da publicação, João Gustavo Melo, enredista da Unidos do Viradouro, destaca as transformações vividas pelas escolas nos últimos anos, em grande medida impulsionadas pela entrada de novos atores nesse campo.
Entre esses agentes, ganham relevo os enredistas, pesquisadores e pesquisadoras — muitos deles negros e periféricos, em contraste com um modelo intelectual ainda hegemônico nas escolas de samba, que bebe no pacto narcísico da branquitude, segundo a formulação de Cida Bento.
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Esses novos profissionais passam a atuar de forma decisiva na construção dos enredos, conferindo-lhes maior caráter questionador, densidade histórica e política. Temas como a escravidão negra e indígena, assim como questões relativas à identidade e às especificidades de sujeitos e coletividades, vêm sendo abordados de maneira mais cuidadosa, crítica e comprometida com disputas contemporâneas de memória e representação.
Ganham relevo novos atores, muitos deles negros e periféricos, na construção narrativa dos enredos
Atualmente, apontam os autores, a concepção de um enredo envolve atenção crescente à participação de diferentes grupos políticos em todas as etapas do processo: desde a escrita da sinopse até a criação visual, considerando também o alcance e a reverberação dos temas na grande mídia. Ao apontar a permanência dos enredos como elemento que espelha a realidade brasileira, Simas e Fabato chamam atenção, sobretudo, para uma característica central: a capacidade de instaurar, de modo permanente, um debate público sobre o país e suas contradições.
Ainda que o processo de confecção de um enredo seja fruto de disputas e recheado de tensões, as escolas de samba desfilam, anualmente, não só no Rio de Janeiro mas em todo o Brasil, temáticas relativas a problemas sociais, afirmação de identidades coletivas, louvam sua própria história e trazem à tona camadas de memória empoeiradas pelo tempo.
Como sambista e pesquisador atuante nos meandros desse processo, fico feliz que o tema seja tratado com a devida importância. Afinal, nunca é demais dizer que as escolas de samba são fruto de uma modernidade negra, fundadas, na primeira metade do século 20, por filhos e netos de escravizados. Seus enredos, portanto, debatem, a partir de um olhar aguçado, problemáticas pertinentes a um Brasil plural e que deseja ser visto, lembrado e rememorado. Que venham mais enredos e livros nessa trilha!
Matéria publicada na edição impressa #102 em fevereiro de 2026. Com o título “O Brasil que se vê na avenida”