Literatura,
Magia subterrânea
Contos de Patrick Chamoiseau resgatam imaginários que moldam vivências dentro e fora do universo caribenho
01nov2025 • Atualizado em: 31out2025 | Edição #99Patrick Chamoiseau é, sem sombra de dúvida, uma das vozes mais marcantes do universo literário em língua francesa e, também sem sombra de dúvida, um intelectual de destaque daquilo que em âmbitos mais especializados vem sendo definido como estudos caribenhos.
Nascido em Fort-de-France, Martinica, em 1953, Chamoiseau é autor de uma obra literária fundamental e incontornável, bem como de uma reflexão intelectual que vem marcando o debate sobre identidade, diáspora, memória cultural, migração e cidadania.
Entre seus trabalhos mais significativos é importante destacar o romance Texaco (1992), publicado no Brasil em 1993 pela Companhia das Letras, galardoado com o prêmio Goncourt. O livro consagrou o autor entre as vozes mais proeminentes da literatura contemporânea.
Aliás, Chamoiseau está ligado a alguns dos mais importantes intelectuais da atualidade, entre os quais o escritor e filósofo martinicano Édouard Glissant, morto em 2011 e com quem Chamoiseau travou longa amizade e parceria intelectual, cujo mais recente testemunho pode ser encontrado no livro Manifestes [Manifestos, sem tradução], lançado em 2021 por ocasião dos dez anos da morte de Glissant. No volume estão reunidos os textos publicados em coautoria pelos dois intelectuais martinicanos.
O nome de Chamoiseau se liga também a duas outras importantíssimas figuras do meio intelectual e literário antilhano: os escritores e pensadores Jean Bernabé, morto em 2017, e Raphaël Confiant, com quem Chamaoiseu assinou em 1989 um dos mais importantes manifestos da contemporaneidade, Éloge de la créolité [Elogio da crioulidade, sem tradução]. Esse viria a se tornar um ensaio canônico no campo dos estudos francófonos e uma leitura obrigatória no âmbito da crítica cultural e literária.
Crioulidade
Éloge de la créolité constitui uma das mais instigantes e originais reflexões sobre identidade, diáspora, cultura, imaginação e literatura, definindo de forma arrojada um dos mais impactantes conceitos daquilo que nestes mesmos anos se afirmará como crítica pós-colonial — a crioulidade:
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Nem europeus, nem africanos, nem asiáticos, nós nos proclamamos crioulos. […] Declaramos que a crioulidade é o cimento de nossa cultura e que ela deve reger as fundações de nossa antilhanidade. A crioulidade é o agregado interacional ou transacional dos elementos culturais caribenhos, europeus, africanos, asiáticos e levantinos, que o jugo da história reuniu sobre o mesmo solo.
Com efeito, o manifesto é publicado no começo da década de 90, período em que identidade, cultura da diáspora e discurso colonial se destacam como os principais eixos da reflexão crítica, literária e filosófica em escala global, e conceitos como hibridismo, transculturação e diferença ganham especial importância no campo acadêmico e cultural.
É também no início desses mesmos anos 90 que Édouard Glissant, após a publicação em 1980 de O discurso antilhano (Bazar do Tempo, 2025), publica uma das suas mais significativas obras filosóficas, Poética da relação (Bazar do Tempo, 2021), livro essencial do pensamento caribenho e onde se encontram reunidos alguns de seus textos mais originais e impactantes, como por exemplo “Para a opacidade”.
A crioulidade é particularmente importante para apresentar Contos dos sábios crioulos, que finalmente chega ao público brasileiro pela Editora 34 em tradução de Raquel Camargo.
Opacidade
Em suas produções literárias e ensaísticas, Patrick Chamoiseau reitera e aprofunda os conceitos de crioulidade e crioulização, remarcando sua importância para entender não apenas o universo antilhano e caribenho, mas para desenhar percursos (históricos) e discursos (culturais e políticos) capazes de compreender a história humana, o ser e o mundo, a partir daquilo que Glissant define como o universo da plantação [plantation].
Especialmente emblemática, nesse sentido, é sua proposta sobre a língua no mundo crioulo através dos conceitos glissantianos de opacidade e relação. Eis uma das mais interessantes características da obra literária de Chamoiseau, incluindo Contos dos sábios crioulos: o uso de um francês que ao se posicionar em relação ao universo antilhano se torna capaz de acolher os elementos e os traços distintivos da língua crioula, sem perder sua inteligibilidade e remarcando com insistência sua intrínseca e distintiva opacidade.
Ao contrário do que poderia parecer, opacidade e relação não são conceitos em antítese, são na verdade dispositivos estéticos — e estratégias metodológicas — profundamente entrelaçados e indispensáveis para resgatar enredos, imaginários, saberes, línguas e identidades inscritas num mundo dinâmico, mutável e misturado que molda as experiências do ser e da humanidade, dentro e fora do universo caribenho.
Tal como se lê no texto que abre o livro — “Prefácio, os contos da sobrevivência” — ao se referir à questão da língua, Chamoiseau afirma: “não quis esclarecer demais os contos que vocês irão ler, e pedi para que evitassem o glossário. Deixem-se levar pelas palavras estranhas, pela magia subterrânea e, principalmente, só leiam estas histórias à noite”.
O ritmo da história e a sonoridade das palavras desenham imagética e sonoramente um mundo
É necessário insistir na qualidade da tradução de Contos dos sábios crioulos. Raquel Camargo, com sua grande habilidade e sensibilidade linguística, faz o texto em português nunca apagar a opacidade, tão cara a Chamoiseau, e assim presta uma significativa homenagem não apenas ao autor, mas sobretudo à maestria e à sabedoria dos contadores crioulos.
Aliás, em nenhum momento, lendo os dez contos que compõem o livro, é necessário pausar a leitura em busca do significado de palavras e expressões. Bem pelo contrário: ao ler cada conto, de preferência em voz alta, “numa cadeira de balanço com seu rangido reconfortante”, como aconselha Chamoiseau no prefácio, o ritmo da história e a sonoridade das palavras e refrãos em língua crioula se tornam cada vez mais próximos e familiares. Desenham imagética e sonoramente um mundo distante, mas não integralmente desconhecido, feito de seres — humanos, não humanos e sobrenaturais — que incorporam acontecimentos, sentimentos e conflitos do passado colonial e escravagista, bem como as múltiplas formas de existência e resistência que moldaram o mundo caribenho, dos quais o contador de cada conto se faz porta-voz.
Nesse sentido, tal como afirma Edimilson de Almeida Pereira, em seu esclarecedor posfácio, “Um mar de ideias à margem do texto”:
Em ‘Contos dos sábios crioulos’, Chamoiseau evidencia que a narrativa enunciada em tempo e lugar propícios, semelhante a um grito estendido, constitui-se como uma teia informacional. Tecida pelo diálogo entre formas e conteúdos variados, os contos realçam a importância política e social do sujeito que os articula e compartilha com a comunidade.
Será porventura esse um dos aspectos mais significativos deste livro de Patrick Chamoiseau: criar um tempo e um lugar propícios para que a palavra — lúdica, educativa, hipnótica, misteriosa — proferida pelo contador, “porta-voz do povo acorrentado, esfomeado que convive com o medo e com estratégias de sobrevivência”, possa ser finalmente ouvida e compreendida pela comunidade que dessa leitura-escuta poderá aprender e ressignificar a obstinada necessidade de contar para existir, resistir e libertar.
Especial Atlântico Negro Francófono
Especial sobre livros de autores do Atlântico Negro Francófono lançados no Brasil em 2025 realizado com o apoio da Embaixada da França.
Matéria publicada na edição impressa #99 em novembro de 2025. Com o título “Magia subterrânea”