A escritora britânica Bernardine Evaristo (Suki Dhanda/Divulgação)

Literatura,

Subverter para libertar

Romance de Bernardine Evaristo se passa em mundo ficcional onde posições e práticas de colonizadores e colonizados são remanejadas

24nov2025 • Atualizado em: 30jan2026 | Edição #102

A inversão da ordem social e política vigente constitui um tropo literário bastante consolidado e também bastante traiçoeiro. De imediato, consigo me lembrar do célebre romance publicado pelo escritor franco-djibutiano A.A. Waberi em 2006, Aux États-Unis d’Afrique (Os Estados Unidos de África, sem tradução no Brasil), ou ainda da mais conhecida série de histórias em quadrinhos Pantera Negra.

São muitas as obras literárias de tradições diversas e a partir de diferentes contextos históricos e sociais que se desdobram em torno de enredos que apresentam “o mundo ao contrário”, sob o risco, às vezes, de cair em paródias nem sempre tão bem resolvidas — como se sabe, inversão não é sinônimo de mudança, tampouco de libertação. Frantz Fanon nos lembra disso em sua lúcida leitura da sociedade pós-colonial quando, no fundamental Os condenados da terra (Zahar, 2022, vários tradutores), reflete sobre as “desventuras da consciência nacional”. Ele analisa como nos países africanos recém-independentes as estratégias da burguesia ocidental (colonial) vêm sendo reproduzidas por uma burguesia nacional nativa, que, em sua ascensão política, ocupa o lugar que havia sido ocupado pelos colonos e se torna um obstáculo para a construção de uma nova ordem social.

É tendo em mente esse diagnóstico fanoniano que escolho a palavra subversão, em vez de inversão, como primeira e mais emblemática caraterística — e estratégia estética — de Raízes loiras, de Bernardine Evaristo. Publicado originalmente em 2008, o romance chega ao Brasil pela Companhia das Letras na bela tradução de Camila Von Holdefer. Com enorme habilidade, ela traduziu ao português brasileiro os complexos virtuosismos linguísticos que caracterizam a escrita em língua inglesa de Evaristo.

Mas subversão não serve apenas para ler e pensar este romance. Aliás, quem acompanha a trajetória literária e biográfica de Evaristo sabe que não se trata de uma autora que escreve e pensa para confirmar horizontes de expectativas, sejam estes editoriais, acadêmicos ou de público. Exemplo disso são os enredos e as personagens das obras de ficção — ou melhor de “ficção fusão” (fusion fiction), como Evaristo gosta de dizer — bem como os temas de seus trabalhos de pendor mais ensaístico e de suas intervenções pública.

Outras

Entre as obras disponíveis em tradução no Brasil vale certamente a pena mencionar Garota, mulher, outras (Companhia das Letras, 2020, trad. Camila Von Holdefer), livro que consagrou Evaristo como a primeira mulher negra a ganhar o prêmio Booker.

Sobre esta questão, cabe um breve parêntese: só após meio século de premiações, em 2019, uma mulher negra é finalmente premiada com a mais prestigiosa honraria literária do mundo de língua inglesa, mas de forma um tanto inesperada o prêmio daquele ano é atribuído também a Margaret Atwood, causando não poucas polêmicas sobre as razões que levariam o júri a optar por um prêmio partilhado entre duas autoras já consagradas como Atwood e Evaristo.

Garota, mulher, outras cabe com algum desajuste nas definições mais canônicas de romance, sobretudo pela agilidade formal que carateriza o texto, habitualmente definido como prosa poética. No entanto, essa definição não faz integralmente jus à fisionomia de um texto que se destaca por enredos, personagens e estratégias formais que parecem habilmente pensados para desviar de ideias preconcebidas e sobretudo para desatender expectativas moldadas em torno de lugares comuns e clichês literários há muito batidos.

‘Raízes loiras’ nos obriga a refletir sobre as coisas a partir de uma outra perspectiva

A palavra-chave aqui é certamente “outras”— other em inglês, sem marcação de gênero — a seguir as palavras mulher e garota, no singular. Trata-se de um possível aceno para aquilo que o crítico cultural Stuart Hall (lido e apreciado por Evaristo) define como “diferença e devir” do sujeito da diáspora cuja identidade, “moldada pelo poder e por relações de violência simbólica e material, é sempre inevitavelmente híbrida e sincretizada, e é isso que a torna criticamente tão relevante para os nossos tempos globais”.

Algo semelhante caracteriza Raízes loiras, mas por uma estratégia narrativa bastante distinta. Desta vez, se aproxima de forma mais direta ao gênero do romance propriamente dito, embora salvaguardando a fisionomia de uma prosa híbrida onde se encontram engenhosamente misturados gêneros textuais e narrativos distintos: mapas, relatos, cartas, panfletos, prosa, versos. Assim o livro reafirma que é exatamente na “ficção fusão” que se encontra uma das marcas da escrita literária de Evaristo.

Áfrika e Oropa

Nas primeiras páginas se encontram três indícios fundamentais para adentrar a narração: uma dedicatória (“Em memória dos 10 a 12 milhões de africanos que foram escravizados e levados para a Europa e para as Américas… e dos descendentes deles”); uma epígrafe (“Todas as coisas estão sujeitas a interpretação: a interpretação que prevalece em dado momento, seja qual for, é consequência do poder e não da verdade. Nietzsche.”); e um mapa ficcional, onde Áfrika e Oropa, o Continente Cinzento, ocupam posições invertidas, e onde a linha que marca a passagem do meio cruza o oceano Atlântico, entre a Costa do Repolho, na Inglaterra, situada onde se encontra a região da Áfrika ocidental, em direção a Amérika, numa fictícia região designada como Ilhas Japonesas Ocidentais.

Lá no fundo, eu sabia que os traficantes de escravizados nunca iam desistir da galinha dos ovos de ouro. Era, afinal, um dos negócios internacionais mais lucrativos de todos os tempos, envolvendo o transporte em grande escala de branquelos enviados aos milhares do continente da Oropa para as Ilhas Japonesas Ocidentais, assim chamadas porque, quando o “grande” explorador e aventureiro Chinua Chikwuemeka tentava encontrar uma nova rota para a Ásia, ele confundiu essas ilhas com as lendárias ilhas do Japão, e o nome pegou.

Então aqui estou eu, no Reino Unido da Grande Ambossa (RU ou GA, para encurtar), que faz parte do continente da Áfrika.[…]

A Grande Ambossa é na verdade uma ilha muito pequena com uma população crescente que precisa se alimentar, e por ­isso estende seus tentáculos gananciosos por todo o mundo, roubando países e roubando pessoas.

Eu inclusa. Sou uma das Pessoas Roubadas.

É por isso que estou aqui.

Adentramos nesse (mapa) mundo subvertido — já que não se trata apenas de uma cartografia ao contrário — através da voz de Doris, uma “branquela pálida”, com cabelo “cor de palha”, narinas estreitas e “lábios finos” capturada na Oropa e levada como escravizada para Áfrika, onde ninguém será capaz de pronunciar corretamente seu nome e passará a ser chamada de Omorenomwara.

Lógica grotesca

Na segunda parte do romance, o “Livro II”, a voz de Doris se encontra estrategicamente substituída pela voz do Bwana — palavra que em suaíli significa chefe ou senhor. O patrão dela, por meio de um conjunto de cartas endereçadas aos leitores de seu “infame panfleto antiabolicionista pró-escravidão, A Chama”, tece delirantes reflexões de pendor científico, histórico, político e pessoal em prol do negócio de escravizar os “Caucasoides, nativos do buraco do inferno conhecido como Oropa”.

É aqui que a paródia dos saberes e dos sentimentos que serviram de alicerce à colonização e ao tráfico de pessoas escravizadas do continente africano para a Europa e as Américas se torna especialmente afiada, mostrando com grande habilidade e sarcasmo a lógica grotesca do mundo escravocrata que em sua (in)versão ficcional não parece ser tão diferente daquilo que muitos e significativos estudos sobre o colonialismo e o tráfico transatlântico demostram e documentam.

E é na parte final do romance, no “Livro III”, que Doris retoma a narração de sua vida, agora na plantação açucareira que, como se lê no pós-escrito, no século 21 ainda existe e onde “os trabalhadores, muitos dos quais são descendentes dos escravos originais, são pagos”.

Raízes loiras não é apenas uma paródia da ordem social vigente, nem uma simples inversão da história do tráfico transatlântico de pessoas escravizadas e do colonialismo; é um romance que nos obriga a refletir sobre o mundo a partir de uma outra perspectiva, indispensável, como se lê na epígrafe, para subverter o poder e libertar a verdade.

Quem escreveu esse texto

Elena Brugioni

Professora da Unicamp, é autora de Literaturas africanas comparadas (Editora Unicamp).

Matéria publicada na edição impressa #102 em fevereiro de 2026.

Para ler este texto, é preciso assinar a Quatro Cinco Um

Chegou a hora de
fazer a sua assinatura

Escolha como você quer ler a Quatro Cinco Um.

Ecobag Exclusiva

Há nove anos nutrindo leitores onívoros!

Assine a revista dos livros e ajude a fomentar a cultura do livro no Brasil

Peraí. Esquecemos de perguntar o seu nome.

Crie a sua conta gratuita na Quatro Cinco Um ou faça log-in para continuar a ler este e outros textos.

Ou então assine, ganhe acesso integral ao site e ao Clube de Benefícios 451 e contribua com o jornalismo de livros independente e sem fins lucrativos.