Deslembramentos,
através da ternura
o mundo seria mais jardim e menos labirinto se as ternuras pudessem permanecer disponíveis por toda parte, até mesmo aos fazedores de guerra
28out2025 | Edição #99*
a solidão é um lugar parecido com uma fogueira. não tem labaredas — mas queima. não sendo fogo, produz cinzas. aparentemente não nasce do veneno, mas pode arder.
a solidão é um labirinto que engoliu o minotauro, deixando-o no escuro. o escuro não se move um milímetro em direcção à luz — e assim o minotauro crê que ficou cego.
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o minotauro cego pode achar-se mais embrutecido. prepara mais força contra quem lhe vem apenas tactear. não sabe ao que vem esse toque. como todos nós, quando não escolhemos o tipo de tocar ou o momento de sermos tocados: somos invadidos por um mar de desconfiança ou insegurança.
um mar é coisa muita para tão pouco espaço numa pessoa só. ou num minotauro. um mar é uma lágrima infinita, diria uma criança. o infinito dura demasiado tempo, poderia ter dito j. l. borges.
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uma dor permite atravessar o infinito e desgastar a sua duração. dor é travessia e aleijamento. e não são sempre equidistantes as margens da dor. por exemplo: dor de mãe dói muito e dói fundo. se repetida, a dor de mãe passa a confundir-se com a mãe em dor. a guerra, por (mau) exemplo, é uma repetidora de dores. e isto leva-nos a uma indagação: como definir (descrever?), então, os fazedores de guerras?
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tenho tendência para pensar numa criança como um fazedor de ternura. o mundo seria mais jardim e menos labirinto se as ternuras (uma vez que são tantas e não ocupam espaço físico) pudessem permanecer disponíveis por toda parte. era só necessitar e colher um pouco de ternura. até um minotauro cego, uma vez que experimentasse os efeitos da ternura, poderia, quem sabe, atenuar a sua brutalidade. até mesmo a bestialidade dos fazedores de guerras. desde que, obviamente, as guerras poupassem as crianças. e as mães. coisa que ainda não fomos capazes de sustentar.
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há quem saiba (se dedique a?) iniciar fogueiras. depois disso, a própria fogueira consegue alimentar-se. por vezes há sopro ou vento e isso ajuda. quanto mais combustível e combustão, mais acesa a fogueira. mais o fogo queima, digamos. mais complicado é descontinuar. por exemplo: uma vez acesa, como abater a fogueira da vaidade?
quanto mais acesa a fogueira, mais complicado é descontinuar. como abater a fogueira da vaidade?
às vezes, de tanto estarmos perto do fogo, aparece a sede. beber é humano, diria um homem cheio de sede. são muitos os que bebem água mas eu prefiro cerveja, diria o meu tio chico.
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perto da sede de beber cerveja ou outro tipo de álcool, a sede de poder é bastante mais perigosa. o perigo não está na sede mas no uso do poder, diria um filósofo. eu entendo a premissa, mas creio que o problema está na índole da tal raça humana. oh, cambada de minotauros!, diria o escrevedor de fábulas (correndo o risco de ofender o minotauro).
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há muitas coisas belas associadas ao mundo das crianças. depois de alimentadas, são elas que alimentam as mães. não raro, num gesto breve, conseguem potenciar a ternura ao ponto do encantamento e da ilusão. como se pudessem inaugurar, num buraco negro, um sopro de serenidade. como se soubessem, num sorriso simples, desencantar os nós das dores dos homens e da dor de mãe.
(mas) não é preciso hiperbolizar. as crianças não são anjos, bem sei. são apenas crianças.
mas se as deixarmos entregues à infância talvez possam, desocupadamente livres, exercer a ténue e imprevisível manobra de deslocar o escuro um milímetro em direcção à luz.
Matéria publicada na edição impressa #99 em novembro de 2025. Com o título “através da ternura”
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