Literatura,
A crueza das crianças
Em seu único romance publicado em vida, Françoise Ega contesta a ideia da ingenuidade infantil ao refletir sobre traumas coloniais
29out2025 | Edição #99Digno de clássicos da literatura, o começo do romance memorialístico de Françoise Ega é fortuito e avassalador. Adentramos o reino da infância, a primavera da vida, “um tempo mais ou menos ensolarado ou povoado de maravilhoso”. Contudo, o encantamento precede um alerta: “O erro é imaginar que as crianças são incapazes de ter sentimentos tumultuosos e dizer, a propósito de tudo e de nada, que elas não entendem”.
Em O tempo da infância, somos apresentados à vida modesta de uma família camponesa em Morne-Rouge, cidade no norte da Martinica. Estamos na década de 1920, quando os madras, tecidos com cores fortes em padrão xadrez, compunham adereço indispensável à vestimenta da mulher antilhana. A passagem das estações ainda era marcada pelo tempo das colheitas: laranja, ervilha, jambo, abacate, fruta-do-conde, fruta-pão, mamoncillo, manga, inhame. Um colorido vibrante que distrai momentaneamente das chagas coloniais. Mas nada escapa ao olhar curioso das crianças. De forma gradual, a protagonista compreende que, quanto menos pensamos sobre a opressão, mais nos tornamos tolerantes a ela.
Sua avó trabalhava na plantação de cana-de-açúcar e, à noite, cuidava da sinhá, que tinha medo do escuro — a esta era permitido ter medo. A avó deitava-se no chão, em frente ao quarto da patroa, como um cão de guarda. Quando estava grávida, a negra não podia se ausentar sequer para ir ao banheiro. Uma noite, sem conseguir aguentar até o fim do turno, aliviou-se em frente à porta. Louca de raiva, a béké (como os martinicanos chamavam os brancos à época) prendeu a serviçal “nos ferros”, pelo pescoço. “Mamãe Titine nasceu naquela noite e a mãe dela morreu das consequências do parto”, narra a criança.
História escravista
Ao longo do século 17, os franceses ocuparam e transformaram suas colônias no Caribe em grandes propriedades de terra voltadas à monocultura, principalmente a cana-de-açúcar. Era um negócio extremamente lucrativo, sustentado pelo tráfico e pelo trabalho escravo, nos moldes do que aconteceu no Brasil.
Enquanto nosso país foi o que mais recebeu escravizados africanos — cerca de 4,5 milhões de pessoas segundo algumas estimativas —, nas Antilhas francesas aportaram mais ou menos 1,6 milhão de africanos. Para entendermos a dimensão da escravização no território, em 1788, das 98,8 mil pessoas que compunham a população martinicana, 83,4 mil eram africanos escravizados.
A abolição da escravidão só seria decretada na França e nas suas colônias em 1848 — mais de meio século depois da Revolução Francesa, que defendia liberdade, igualdade e fraternidade a todos os cidadãos, exceto aos negros e indígenas, que, para os békés, não eram sequer humanos. No entanto, em uma das colônias francesas, o Haiti, os escravizados tomaram o lema da revolução ao pé da letra e se insurgiram contra o regime em 1791, até expulsar os colonizadores e decretar independência no alvorecer do século 19, em 1804 — um feito que abalou todo o mundo colonial, inclusive o português, do qual fazíamos parte.
Provocações
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Na leitura de O tempo da infância, somos provocados a encarar não só as feridas do povo antilhano e da família da narradora, mas também as nossas. Ainda podemos sentir o cheiro pútrido dos corpos descartados no Cais do Valongo, nas chacinas e massacres de Curió, Vigário Geral, Carandiru, Haximu, São Bonifácio, Caarapó e do povo Juma. Ou dos atingidos por balas perdidas que sempre acham carne negra. Só não se comove com o genocídio (nem se responsabiliza por ele) quem está entregue à banalidade do mal.
Vemos no romance o ensino ser utilizado como forma de dominação dos povos antilhanos. O acesso à educação pública tinha como preço a (falsa) integração à cultura francesa, o que exigia a renúncia à língua materna, o crioulo antilhano. Ainda que a conclusão do ensino primário seja estimada pelas famílias da ilha, é por meio dela que aprendem a renegar suas origens. É algo que assusta a menina, não só pelo distanciamento físico do núcleo familiar, mas também por ver como o irmão mais velho volta para casa: ele havia “refinado” seus modos e não falava mais o patoá. “Adormeci pensando que, quanto mais tarde eu conseguisse esse diploma do primário, melhor seria.”
Ega nos provoca a encarar não só as feridas do povo antilhano, mas também as nossas
O pai, visto pela esposa como um “escritor público”, dedicava-se a pôr no papel as palavras dos aldeãos, escrevendo e enviando cartas por quem não o sabia fazer. Entre as mudanças de localidade que a família precisa enfrentar, ele tem uma epifania ao retornar para casa depois de uma temporada internado num hospital: “Naquela noite, ele explodia, preenchia a casa, ultrapassava o telhado de zinco e contava às mangueiras, ao [rio] Roxelane fluindo na frente da porta, às ruínas e às sombras da noite, a alegria de ter reencontrado os seus”.
Acostumada a entender os “outros países” como lugares para onde os martinicanos fogem, a protagonista descobre lugares para onde retornar. A menina percebe, pelas frestas do sistema, a riqueza de uma cultura crioula antilhana resultante do encontro entre povos, que valoriza a natureza, o trabalho com a terra, a liberdade de cada ser da Martinica perdida, a Martinica mítica reedificada na literatura, na arte e nos cânticos populares.
Os seres da diáspora tornam-se inteiros quando se reconhecem em seus semelhantes
Ao ouvir histórias de origem africana ou indígena, a narradora alarga suas referências e se dá conta de que o mundo vai além da capital Fort-de-France ou da Europa, incluindo espaços e pessoas com as quais ela pode se identificar. Uma delas é Tia Acé, em quem vemos a figura de uma griotte — guardiã de histórias e cânticos populares que permanece fiel à sua terra e ao seu povo. Ela conhece canções de todos os tipos e “algumas tão alegres que, para dar ritmo a elas com a palma das mãos, largava o que estivesse segurando”. Apesar das “acontecências” do banzo, Tia Acé fazia kizomba.
Quando um episódio modifica para sempre a estrutura da família, a menina é confrontada com novas responsabilidades. Se o pai a mimava e proibia de encostar em vassouras ou tirar o pó dos móveis, a mãe já a considera capaz de lavar a louça. Que absurdo, diz a si mesma a criança, que resolve a questão jogando as dezenas de pratos de barro no chão. A mãe cai aos prantos diante dos estilhaços como se eles a tivessem perfurado. “O que suas palavras não conseguiram, aquelas lágrimas — as lágrimas de minha mãe — me tornaram então consciente das tarefas mais humildes.” Pelos olhos da mãe, que a refletem como um espelho, a menina cresce.
Estilhaços
Em 1962, após ler sobre a escritora mineira Carolina Maria de Jesus e seu Quarto de despejo na revista Paris Match, Françoise Ega decidiu endereçar-lhe dezenas de cartas (nunca enviadas) relatando sua realidade como trabalhadora doméstica. Cartas a uma negra foi publicado postumamente e chegou ao Brasil pela Todavia em 2021, em tradução de Vinícius Carneiro e Mathilde Moaty.
É possível reconhecer a influência de Carolina também no romance da martinicana, como aponta a pesquisadora e tradutora, Maria Clara Machado, no posfácio da edição brasileira. Ocorre que, no início dos anos 60, Françoise Ega já tinha começado a escrever O tempo da infância, mas pensava em deixar suas memórias guardadas, como legado aos filhos que viviam em Marselha. Foi a leitura da narrativa de outra mãe negra, herdeira da diáspora africana, que “a provocou a buscar um diálogo ampliado, para além das gavetas de família, permitido pela literatura”, defende Machado. Os seres da diáspora tornam-se inteiros quando se reconhecem nos fragmentos estilhaçados dos seus semelhantes.
Não é trivial que muitas religiões afro-brasileiras também se voltem para as infâncias, especialmente em setembro. É quando celebramos Cosme, Damião e Doum no catolicismo negro; os Erês, que em iorubá estão associados ao brincar e à energia infantil; e os Ibejis, orixás mirins gêmeos. Conta um itã (relato mítico) que os Ibejis foram os únicos capazes de derrotar as armadilhas de Iku, a morte, feito que nenhuma deidade adulta fora capaz de realizar. Ibejis guerreiam brincando, lutam dançando e combatem gargalhando. Por isso, reitero a afirmação do início do romance de Françoise Ega: o erro é dizer que as crianças não entendem.
Especial Atlântico Negro Francófono
Especial sobre livros de autores do Atlântico Negro Francófono lançados no Brasil em 2025 realizado com o apoio da Embaixada da França.
Matéria publicada na edição impressa #99 em novembro de 2025. Com o título “A crueza das crianças”
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