Crítica Literária,
A poética de nossa afro-brasilidade
Trinta anos depois, dissertação de Conceição Evaristo é publicada em livro e mostra a coerência da obra da escritora mineira
18mar2026 • Atualizado em: 19mar2026 | Edição #104A errância é inerente à vida. Na brilhante trajetória de Conceição Evaristo, no entanto, ela assume contornos ainda mais reais, humanos. O percurso educacional, desde a infância, é permeado por intercorrências. Não era sinal de descaso com a escola, mas de compromisso com a vida. Quantos de nós, negros, não colocamos os estudos em segundo plano e até os interrompemos para nos dedicar a tudo que nos ocorre? Conceição é alguém que coleciona muitas batalhas perdidas, como todos nós, mas jamais se entregou. Após uma tentativa frustrada de ingressar no mestrado em literatura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), foi selecionada, no ano seguinte, para o curso da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).
Em uma turma com cerca de vinte estudantes, Conceição não só era a única aluna negra como a mais velha: completaria 46 naquele ano. Logo na primeira aula, uma professora indagou se a pesquisadora nem-tão–jovem-assim tinha um projeto de pesquisa — como se a avaliação de um pré-projeto não fizesse parte do processo seletivo pelo qual todos os candidatos haviam passado. Conceição respondeu, para choque da turma e da mestra: sim — literatura negra. Os olhos inquisidores pareciam enxergar na temática um solo árido ou, quem sabe, um pântano — um lugar de água parada, imerso na penumbra, onde nada ou pouco ocorre. Pobre de quem subestima os domínios de Nanã.
Quantos de nós, negros, interrompemos os estudos para nos dedicar às coisas que nos ocorrem?
A história da pesquisa, entretanto, não começava ali. Conceição conhecia o termo das reuniões e atividades do movimento negro carioca, que frequentava desde os anos 70: denominava o pouco, mas valioso, material de seus integrantes. A lacuna acadêmica acerca do tema só seria por ela dimensionada em 1990, em uma especialização em literatura brasileira na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Não havia, no curso, nenhuma referência à criação poética de autoria negra. Veja, Conceição não queria pesquisar romances afro-brasileiros — objeto de destacadas e recentes pesquisas como a de Fernanda Miranda —, mas a poesia, o gênero literário então mais popular entre escritores negros do país.
Hoje é possível varrer diversos repositórios pelo computador, o que era inviável nos anos 90. Era preciso ler os periódicos impressos, ir a congressos e seminários, interagir nos grupos de pesquisa. Conceição fez tudo isso, mas não encontrou nenhum material crítico sobre poesia negro–brasileira. Muito do material que existia era fruto de entrevistas com autores negros, o que foi útil, mas insuficiente para explicitar a profundidade de uma temática tão complexa como a da literatura negra e de seus autores. Por isso, é muito provável que sua dissertação, defendida em 1996, tenha iniciado uma linha de pesquisa acadêmica a nível de mestrado.
Cumplicidade
Literatura negra: uma poética de nossa afro-brasilidade, publicado neste ano pela editora Pallas, mantém o texto em seu estado original. Conceição expõe no prefácio que a intenção é permitir uma pesquisa arqueológica dos estudos críticos sobre a literatura negra. Consigo vislumbrar, no destaque dado à afro-brasilidade no subtítulo, a ideia de salientar a nossa nacionalidade hifenizada, conjugada erraticamente à herança africana de que fomos destituídos. Esse hífen guarda silêncios, elos irreparáveis, estilhaços ancestrais.
A literatura negra à qual Conceição se refere não diz respeito apenas à negritude dos escritores. Mais importante do que a raça é a forma como os autores lidam com o dado racial. A pesquisadora volta-se a criadores que buscam, consciente e politicamente, a construção de um sujeito que se apresenta em sua escrita. “A voz do poeta [negro/a] não é uma fala única, solitária, mas a ressonância de vozes plurais. Eu/Nós”, escreve. Dessa forma, o sujeito da literatura negra teria a sua experiência marcada pela cumplicidade com os seus iguais: ele fala de si, fala dos outros e, ao falar dos outros, fala de si. É a gênese da escrevivência.
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O conceito era ainda uma ideia — e assume, inclusive, múltiplas grafias, como “escrever inscre-vi-vendo-se pela memória da pele”, que dá título ao terceiro capítulo. Num olhar retrospectivo, a ideia está profundamente alinhada ao que o conceito se tornaria, chegando a mencionar o mito fundante com o qual a escrevivência busca romper: o estereótipo da Mãe Preta, cuja fala era escravizada ao ninar os filhos dos sinhôs e sinhás.
É pela rasura dessa memória escravizante que Conceição conceberia posteriormente a frase-síntese do conceito: “a nossa escrevivência não é para adormecer os da casa-grande, e sim para acordá-los de seus sonos injustos”. É uma escrita comprometida e cumpliciada com a população negra nos mais amplos aspectos, de forma que hoje é possível compreender a escrevivência como um conceito contrário a toda e qualquer estrutura racista e cis-hétero-patriarcal. Escrevivência extrapola, portanto, as ideias de escrita de si e autoficção.
Há quem insista em nos acusar, nós escritores negros, de narcisismo por assumir a escrevivência como prática e método. A quem diz isso peço apenas que faça o dever de casa: releia o mito de Narciso, mas não se esqueça de se debruçar sobre os mitos de Oxum. Procure, primeiro, entender o contexto e o cenário de que parte a ideia dos autores e o que você está nos imputando. Narciso e Oxum carregam espelhos diametralmente opostos.
Diálogo
Feita a devida contextualização acerca da literatura negra de autores fundacionais como Machado de Assis, Lima Barreto e Castro Alves, Conceição parte para a análise da poética contemporânea. Toda a dissertação é permeada, de forma intencional, por versos. E assim brota, em meio ao texto acadêmico, uma profusão de versos de Nei Lopes, Jamu Minka, Celinha, Edimilson de Almeida Pereira, Arnaldo Xavier, Leda Maria Martins, Cuti, Abelardo Rodrigues, Miriam Alves, Solano Trindade, Oliveira Silveira, Sônia Fátima da Conceição, Márcio Barbosa, Waldemar Pereira, Geni Guimarães, Éle Semog, Adão Ventura, Esmeralda Ribeiro, Carlos de Assumpção, Paulo Colina, Abilio Ferreira, entre outros.
Sua argumentação é construída de forma a dialogar com os seus, como se estivessem todos alinhados: ora assume papel introdutório aos versos que se seguirão, ora analisa os elementos literários, ora recorre à poesia dos colegas para demonstrar o que a escrita acadêmica não dá conta de expressar.
É interessante notar também a forma como Conceição se contrapõe à escassez acadêmica acerca da literatura negra. Ela poderia se ater a alguns poetas, mas aposta numa multiplicidade de vozes, como quem diz: vocês andam muito mal informados.
A poética afro-brasileira usa a paródia para subverter o discurso exotificante
Noto como a análise da jovem pesquisadora ecoará futuramente na sua produção literária. As águas de Oxum surgem ainda timidamente, mas está ali a constante intertextualidade. Ao confrontar um cânone que aposta na representação do negro, a poética autorrepresentada afro-brasileira vale-se da paródia como maneira de subverter o discurso exotificante. Se, na história oficiosa, a Princesa Isabel surge como redentora, Éle Semog é taxativo: “Se ela faz eu desfaço”. Márcio Barbosa, em “O que não dizia o poeminha do Manuel”, apresenta uma Irene diferente daquela imaginada por Bandeira: no lugar da subserviência, a de Barbosa aponta o racismo disfarçado de paternalismo. Se Drummond paralisa diante da pedra no meio do caminho, Conceição segue a caminhada pelas deslizantes águas do povo negro.
(Re)ler Literatura negra em 2026 é dar-se conta da inegável coerência da obra evaristiana. Conceição antevê e proclama a escritora que está se tornando. Afirma que as narrativas negras — romances, contos, textos teatrais — pedem passagem e deseja que sejam muitos os poemas negros. Aposta na teimosia daqueles “que tecem sonhos na noite e perseguem os planos de dia, bancando individual ou coletivamente as publicações de seus textos”, escreve. “Acreditamos, porém, que existam trabalhos aguardando a hora e a vez em gavetas-esperança.”
À época, o manuscrito de Becos da memória, escrito nos anos 80, ainda descansava na gaveta-esperança de Conceição — um dos mais importantes romances memorialísticos da literatura brasileira só seria publicado pela primeira vez em 2006, três anos após a sua estreia literária, Ponciá Vicêncio. O ineditismo fora rompido, entretanto, em 1990, com seus poemas no volume 13 dos Cadernos Negros, série anual do coletivo Quilombhoje que existe desde 1978.
Festejos
Em 2026, a efeméride é dupla: a dissertação completa trinta anos e, em novembro, a autora chegará à marca dos oitenta anos. E os festejos estão só começando. O Império Serrano fez um desfile em louvação a seu universo literário. Sob o enredo “Ponciá Evaristo: flor do mulungu”, a escola foi vice-campeã da Série Ouro do Carnaval carioca. Também em fevereiro, Se eu fosse vivo… vivia, de André Novais Oliveira, estreou no Festival Internacional de Cinema de Berlim. O protagonismo do longa, ao lado de Norberto Novais Oliveira, foi seu primeiro trabalho como atriz. Para novembro, prepara ainda a estreia de uma ópera sobre a sua vida, na qual vem trabalhando ao lado de duas musicistas do Theatro São Pedro, na capital paulista. Ave Maria da Conceição!

No entanto, ouso dizer que não há presente melhor para nós, pesquisadores e pesquisadoras da literatura afrodiaspórica, do que a publicação desta dissertação. Sabemos que não são poucos os ensaios, artigos e análises sobre a obra e a vida de Conceição — como os trabalhos escritos e/ou organizados por Constância Lima Duarte, Isabella Rosado Nunes, Cristiane Côrtes, Maria do Rosário Alves Pereira, Henrique Marques Samyn e tantos outros. Mas é preciso reconhecer que esta é a primeira vez que a escritora mineira publica um livro de não ficção.
É inédito que a complexidade do pensamento teórico da autora, que tanto reivindica a inscrição do eu/nós na literatura afro-brasileira, esteja disponível nas livrarias do país. Tínhamos acesso a algumas xerox e PDFs da dissertação, mas esta materialização é de especial valia para todos nós. Oxalá a tese de doutorado, Poemas malungos: cânticos irmãos, também venha a nosso encontro.
Literatura negra entra, portanto, na gira de teóricos negros cuja reflexão venceu o cinismo do mercado editorial brasileiro e, agora, não cessa de encantar novas gerações de pesquisadores nas variadas áreas do conhecimento: Leda Maria Martins, Eduardo de Oliveira e Oliveira, Cida Bento, Guerreiro Ramos, Beatriz Nascimento, Clóvis Moura, Neusa Santos Souza, Abdias do Nascimento, Lélia Gonzalez. De forma generosa, Conceição nos oferta este texto inaugural, acrescido de um prefácio com histórias por trás da dissertação e uma bela apresentação de Denise Carrascosa. A professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA) exalta a face griotte, ngânga ou sîmbi kia nsi da escritora mineira. Elo entre o passado e o presente, Conceição garante o futuro da memória que ela alimenta e resguarda. Planta e rega a memória da comunidade.
Anciã
Cada ancião é uma voz silenciosa da memória. “Contemplar um velho, perceber nele as marcas do tempo, é uma viagem que pode nos levar a adivinhar um passado”, escreveu Conceição perto de completar cinquenta anos. “E se um velho, como um griot, nos felicita com as suas histórias, com as suas memórias, elas são parte de um mundo que ele entrega em nossas mãos.” Que saibamos temperar corretamente a imensidão aquática que Conceição Evaristo nos oferta.
Matéria publicada na edição impressa #104 em abril de 2026.
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