A escritora austríaca Ingeborg Bachmann (Arquivos austríacos-Brandstaetter imagesDivulgação)

Literatura,

Literatura de frestas

Ingeborg Bachmann usa narradora entre dois homens para refletir sobre violência, fascismo e tensionar os limites do romance

15set2025 • Atualizado em: 12set2025

Ingeborg Bachmann, celebrada poeta de origem austríaca, também exerceu com maestria o ofício da narrativa romanesca, como atesta Malina, que acaba de ser traduzido no Brasil. Uma rápida análise da biografia da autora revela que ela era muito ativa e versátil: em paralelo à poesia e ao romance, publicou contos e escreveu para o rádio, atuou como jornalista e tradutora, escreveu libretos de ópera, além de ter construído uma extensa e competente trajetória acadêmica (fez uma tese de doutorado sobre a recepção crítica da filosofia existencialista de Martin Heidegger).

Essa proliferação de atividades mostra como a autora se ocupava intelectualmente de sua época — atenta às mudanças nos gostos e nos discursos, inquieta diante das transformações políticas e sociais, sobretudo no que dizia respeito à situação das mulheres. Ainda jovem, Bachmann teve seu talento reconhecido e passou a fazer parte do importante Grupo 47, movimento de vanguarda que incluía nomes como Paul Celan, Heinrich Böll e Günter Grass. Os prêmios que recebeu contam parte da história, mostrando a consistência de seu percurso criativo e de sua inserção na comunidade letrada: venceu o prêmio do Grupo 47 em 1953, o Georg Büchner em 1964 e, em 1971, dois anos antes de sua morte, recebeu o Anton Wildgans.

Lançado naquele ano, Malina faz parte da seção final da produção de Bachmann, que morreu prematuramente, aos 47 anos, em decorrência de um incêndio em seu apartamento em Roma, causado por um cigarro. O romance é narrado por uma mulher, identificada desde o início como “Eu”, possuidora de um “passaporte austríaco”, com “comprovante de nacionalidade autenticado”, “olhos castanhos, cabelos louros, nascida em Klagenfurt” (dados que, de resto, são da própria autora). A narrativa tenta dar conta, aos saltos e de forma heterogênea, da relação da narradora com dois homens, Ivan e Malina, de temperamentos opostos: o primeiro tem de alegre e disponível o que o segundo tem de introvertido e enigmático.

No andamento cuidadoso da narrativa, a protagonista reconstrói uma espécie de presente contínuo, feito de sua relação com a cidade ao redor e, sobretudo, com Ivan e Malina, e, em paralelo, resgata cenas do passado (a família, a crise econômica, o fascismo) que dão densidade e complexidade temporal à narrativa. A dificuldade de Ivan de “encontrar as palavras”, contudo, permanece como uma imagem de fundo, relembrando o fardo mais amplo que diz respeito às relações humanas de forma geral e, mais especificamente, às amorosas entre homens e mulheres. O tema retorna adiante, no contato da narradora com Malina: “Como Malina não entendeu nem uma palavra, começo a contar, embalando-me na cadeira de balanço enquanto ele se senta confortavelmente depois de pegar uma bebida para nós”.

A protagonista reconstrói um presente contínuo, feito de sua relação com a cidade e com Ivan e Malina

As cenas oferecem tanto a vida cotidiana nas ruas de Viena quanto a vida interna da narradora, que se ocupa de forma permanente — e, por vezes, maníaca — das repercussões possíveis de seu contato com os dois homens. Esse tema-chave do romance aparece também nas conversas entre os personagens: “A Ivan pergunto se já refletiu alguma vez sobre o amor e o que pensava antigamente e o que pensa hoje”, escreve, e continua: “Ivan fuma, deixa as cinzas caírem no chão, procura pelos seus sapatos em silêncio, encontra ambos e se vira para mim, é visivelmente difícil para ele encontrar as palavras”.

Voos metafísicos

É fundamental não se deixar enganar pela aparente progressão da narrativa — uma escritora conta sua vida em Viena e seu relacionamento com dois homens de características opostas. O diferencial de Bachmann está no modo como ela força os limites dessa progressão, forçando, consequentemente, os limites do que é possível no gênero romanesco. O estilo da autora é deliberadamente heterogêneo: passa da narrativa simples e direta para voos metafísicos, sequências de sonho e delírio, mudando a forma do relato ao utilizar elementos do teatro e da ópera. Por isso é importante ter em mente, durante a leitura de Malina, a proliferação de posições que Bachmann ocupou no sistema literário, algo que repercute tanto na escolha que faz das palavras como no posicionamento delas em seu livro.

A figura opressiva e caprichosa do pai, que vem do passado, é decisiva para o arremate do romance, no terceiro capítulo, quando a formação da consciência da narradora alcança um clímax. Ela percebe que a vida é impossível em um mundo dominado e organizado pela violência masculina — que estava no pai e que se perpetua em Malina e Ivan. “Os jornais estão sempre repletos dessas notícias horríveis”, escreve.

Em Pötzleinsdorf, nas várzeas do Prater, no Wienerwald, em uma periferia qualquer, uma mulher foi assassinada, estrangulada — comigo também quase aconteceu, mas não na periferia —, esganada por um indivíduo brutal, aí penso: poderia ser você, será você. Mulher desconhecida assassinada, assassino desconhecido.

A ameaça permanente de violência culmina em uma reflexão forçada sobre a desaparição, as impossibilidades da comunicação. O corpo ameaçado da narradora se transforma, no fim do romance, em um catalisador das reflexões anteriores sobre o limite da linguagem (os momentos nos quais os personagens não conseguiam encontrar as palavras). Na junção dos dois temas, que são os extremos formais da narrativa, Bachmann insere sua perspectiva da tarefa da literatura: encontrar frestas de possibilidade em um mundo hostil, margens de manobra em uma realidade que se apresenta como obstáculo.

Quem escreveu esse texto

Kelvin Falcão Klein

Professor da Unirio, é autor de Cartografias da disputa: entre literatura e filosofia (Editora UFPR).