Literatura brasileira,
Guia para se perder melhor
Italo Moriconi utiliza diferentes abordagens para ajudar na leitura de um dos maiores romances brasileiros de todos os tempos
01ago2026 | Edição #108Setenta anos depois de publicado, Grande sertão: veredas segue célebre por dois motivos principais: por ser uma obra-prima — romance único, universal, grandioso, inovador — e pela propalada dificuldade de leitura que oferece.
O romance logo causou pasmo no meio literário brasileiro. Em carta a Fernando Sabino, assim que o livro foi publicado, Clarice Lispector exclamava: “Nunca vi coisa assim! É a coisa mais linda dos últimos tempos!”. E confessava: “Estou até tola […]. Fico até aflita de tanto gostar”. Poucos dias depois, em outra carta, a Rubem Braga, a escritora voltava ao tema: “Estou lendo o livro de Guimarães Rosa, e estou fascinada, é tão bom que nem tenho adjetivo”. Mas Clarice não estava sendo original, afinal esse foi o tipo de reação mais comum entre os leitores de Grande sertão ao longo daquele ano.
Na crítica literária não foi diferente. Em um dos primeiros comentários sobre o livro, Antonio Candido, que nem sempre era elogioso nas suas resenhas, imediatamente reconheceu, na primeira linha do seu texto, que “o romance é uma das obras mais importantes da literatura brasileira”. Para o crítico, o livro transformava a realidade brasileira particular em substância universal, como acontece com os clássicos. Ao aliar refinamento técnico e força criadora, Rosa concebeu uma história que “não segue modelos, não tem precedentes”.
Junto a declarações como essas, surgiram alegações, cada vez mais e frequentes, mesmo na crítica, sobre o desafio de enfrentar a leitura do calhamaço. No ano da publicação, o crítico Múcio Leão escreveu que a linguagem do romance é “dificílima”, por se tratar de uma “língua nova, inacessível à maioria dos leitores, senão a todos eles”. Confessou que ele próprio, leitor experiente, mesmo tendo achado o livro “pura delícia”, encontrou muitas dificuldades: “Iniciei-lhe a leitura várias vezes, e desanimava logo às primeiras páginas”.
Para o crítico, a dificuldade nascia não da temática nem da extensão da narrativa, mas da linguagem totalmente inventiva do autor. Passou a apreciar mais a leitura ao compreender que devia ler o livro como se fosse escrito em uma espécie de língua estrangeira.
Esse duplo estatuto da recepção do romance, em diferentes perspectivas, acompanhou as leituras e os comentários sobre o livro, cujo aniversário é comemorado com novas edições, traduções e uma série de textos críticos, entre os quais um pequeno volume que busca servir justamente como “resumo guia” da intrincada história de Riobaldo.
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Trata-se de Para ler Grande sertão: veredas, do crítico literário carioca Italo Moriconi. A classificação dada pelo próprio autor — “Um diário pessoal, um resumo guia” — designa bem a que se propõe: oferecer um roteiro de leitura principalmente para os leitores mais desavisados. E, antes disso, é um diário de leitura no qual o crítico compartilha anotações fragmentadas que fazia ao ler o “romanção” de cabo a rabo.
Na explicação inicial do volume, Moriconi esclarece que o seu livro é uma espécie de “díptico”, composto de duas partes independentes, mas relacionadas entre si. Diz que o diário, que vem primeiro, narra sua “primeira experiência de leitura completa do romance […], já em plena idade madura”, aos setenta anos, enquanto a segunda parte “pretende-se mais objetiva, apresentando um resumo comentado do romance, destinado a servir de guia auxiliar de leitura para quem também se aventura a ler pela primeira vez a grande obra de João Guimarães Rosa”.
O leitor pode explorar uma ou outra parte, ou as duas, indiferente à ordem. Cada uma delas conta com mais ou menos cinquenta páginas, o que confere ao livro uma leveza que destoa dos volumes tradicionais de crítica, mas também alguma superficialidade.
Métodos
Moriconi elucida que quis escrever um livro útil e simples. Procurou ler o romance de Rosa não como um especialista, chegando a confessar que nunca o havia lido antes, mas segundo um “método selvagem”, de acordo com a sua própria expressão, ou simplesmente um método “impressionista”, “entre a hora da lição e a hora do recreio”. O autor pouco dialoga, por exemplo, com a imensa e variadíssima fortuna crítica do livro, embora chegue a citá-la aqui e ali, sendo o seu diário repleto de comentários como este: “Não tive ânimo de tirar da estante-fetiche e abrir uma das obras magnas da fortuna crítica de Grande sertão”.
Para ler Grande sertão: veredas destoa do vocabulário crítico tradicional e, em diversos momentos do diário, o autor se permite usar expressões como “broderagem”, para se referir à relação entre Diadorim e Riobaldo, que sente vontade de “pegar” o amigo jagunço. Passa algumas páginas justificando que, no “corre do dia a dia”, não é fácil enfrentar as mais de seiscentas páginas da edição. Comenta “posts que leu não sei de quem”. O estilo pode ter certa graça — chega a soar provocativo — e a ideia parece ser a de escrutinar o “classicão” de Rosa com a rubrica do professor, assim como encenar uma prática amadora e supostamente mais livre de leitura.
Há vantagens e desvantagens no método. Por um lado, conforme reconhece o próprio crítico, não há a promessa de “nada especial” em seu livro. Por outro, a abordagem garante a Moriconi algumas liberdades que certamente não teria caso seguisse os protocolos acadêmicos de leitura.
A narrativa tem leveza, que destoa da crítica tradicional, mas também alguma superficialidade
Um exemplo é que a forma do diário lhe permite voltar atrás em interpretações e mesmo em preconceitos nutridos por ele sobre o romance — como é o caso da “gastura” que lhe dava, nas tentativas de leitura anteriores, o “discurso carola de Riobaldo”, seu tom “excessivamente beato”. Ele se dá conta, ao avançar na leitura de Grande sertão, que não é exatamente disso que se trata.
O estilo diarístico também permite ao autor tocar em temas sensíveis da obra sem maiores prestações de contas com a crítica. Por exemplo, ao se perguntar sobre um tema de que grande parte das interpretações do romance passou ao largo: “Qual valor ou interesse intelectual pode ter para os leitores do nosso século um romance de amor gay enrustido, escrito para reafirmar a moral heteronormativa?”. Nessa perspectiva, Moriconi faz comentários sob a clave da androginia, do travestismo, “cuir ou queer, não binárie”. Seja como for, não chega a elaborar com profundidade nenhuma dessas questões.
Na segunda parte, autointitulada “resumo guia”, o crítico divide o texto em sete subpartes, que são organizadas sob a forma da paráfrase da trama, que, como se sabe, é farta de personagens e subtramas. Nessa parte, repleta de spoilers, naturalmente, o estilo do autor fica mais comportado, mas não chega a alcançar grande densidade crítica — acrescentando pouco aos leitores mais habituais do romance.
Para quem nunca leu Grande sertão, sem dúvida o guia proposto por Moriconi pode orientar a leitura e ser esclarecedor, tendo em vista que a narrativa de Riobaldo, como o próprio crítico observa, não é nada linear — a história se inicia pela metade dos acontecimentos, in media res, ou melhor, “no meio do redemunho”, e só depois de umas duzentas páginas o narrador passa a relatar a sua infância e a vida antes da jagunçagem, o que costuma confundir muitos leitores de primeira viagem.
Moriconi também relembra e comenta alguns dos episódios e das situações mais marcantes do romance: a paixão entre Riobaldo e Diadorim, o célebre julgamento de Zé Bebelo, as principais batalhas no sertão, o improvável encontro do protagonista com o Diabo, entre outros. E traça um perfil dos principais personagens, que é útil. Ele trata pouco, no entanto, da linguagem intrincada e inventiva de Rosa, que mereceria algum tipo de atenção em um livro dessa natureza.
Seja como for, o guia de Moriconi chega para suprir uma lacuna importante nas leituras do romance. E também para lembrar que nunca é tarde para enfrentar um dos maiores monumentos da literatura brasileira.
Matéria publicada na edição impressa #108 em agosto de 2026. Com o título “Guia para se perder melhor”
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