O humorista português Ricardo Araújo Pereira (Estelle Valente/Divulgação)

Humor,

Dom adquirido

O escritor português Ricardo Araújo Pereira diz que políticos como Trump e Bolsonaro dificultam o trabalho dos humoristas pois já colocam o mundo de cabeça para baixo

05ago2025 • Atualizado em: 09set2025

Enquanto os poetas têm Cartas a um jovem poeta, de Rainer Maria Rilke, e os romancistas contam com Cartas a um jovem romancista, de Mario Vargas Llosa, os humoristas estavam abandonados à própria sorte. Eis que surge Coisa que não edifica nem destrói, em que o escritor e humorista português Ricardo Araújo Pereira debate as origens, os limites e o que define o humor.

RAP, como o autor é conhecido, citou estes dois títulos célebres ao falar sobre seu novo livro nesta entrevista realizada durante a última Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), onde o português participou de uma divertida conversa com o escritor e tradutor Caetano W. Galindo. Depois de Paraty, o português seguiu para o Rio de Janeiro e, na terça (5), participa de uma conversa com Tati Bernardi, mediada por Fernando Luna, no teatro Cultura Artística, em São Paulo.

Recém-lançado pela Tinta-da-China Brasil, selo editorial da Associação Quatro Cinco Um, Coisa que não edifica nem destrói é uma adaptação da primeira temporada do podcast homônimo apresentado por RAP, veiculado entre 2023 e 2024. O livro não é bem uma história do humor, mas o leitor sai da leitura mais bem informado sobre os caminhos que esse gênero já trilhou — desde os outros sentidos que a palavra “humor” já teve até contribuições de figuras como Shakespeare, Rabelais e até mesmo Deadpool, personagem da Marvel. RAP tenta ainda desmistificar a ideia de que o humor seja algo como um dom e contesta a noção de que discorrer sobre isso “estragaria uma espécie de magia”.

Caetano W. Galindo e Ricardo Araújo Pereira na Flip 2025 (Walter Craveiro/Divulgação)

Observador afiado da política em sua coluna no jornal Folha de S. Paulo, o escritor afirma que políticos indecentes como o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o ex-presidente Jair Bolsonaro dificultam o seu trabalho. “Normalmente o trabalho do humorista é virar as coisas de pernas para o ar. É uma operação humorística muito conhecida. Ora, virar ao contrário o mundo do Bolsonaro e do Trump não tem graça, porque é virar a indecência e torná-la decente. A decência não tem graça.”

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Você pegou emprestado de Memórias póstumas de Brás Cubas o título de seu novo livro. Como você enxerga a obra de Machado de Assis?
Sou um leitor que obtém muito prazer da leitura do Machado. Tanto nos contos como nos romances, sobretudo daquela fase inaugurada pelas Memórias póstumas de Brás Cubas, que fazem uma espécie de corte radical na escrita dele. Aliás, no livro eu falo da ocasião em que Woody Allen elenca, entre os cinco livros de que gosta mais, as Memórias póstumas. A gente simpatiza muito com as razões dele — o narrador que ele [Machado] é, o modo como ele interpela o leitor —, é muito difícil de conceber que aquilo foi feito há tanto tempo. Parece uma coisa feita ontem.

‘Não há nada de místico na escrita humorística ou no humor como noutra atividade qualquer’

E o humor do Machado, você ri lendo ele?
Rio, sim. Às vezes, a gente lê um livro ou um trecho e percebe que é humorístico, mas não nos dá vontade de rir. Há outros autores em que isso acontece, e acontece muitas vezes com o Machado. Estava a tentar lembrar-me desesperadamente de um episódio nas Memórias póstumas, quando o Brás Cubas vai num cavalo, o cavalo de repente começa a correr e ele [Brás Cubas] é salvo. Quando percebe que ia morrer e que alguém acabou de lhe salvar a vida, ele pensa “eu vou lhe dar duas moedas de ouro”. Entre o momento em que ele decide isso e o momento em que finalmente vai ao bolso para dar as moedas ao homem que o salvou, ele diz “se calhar duas moedas de ouro é exagero”.

Brás Cubas faz um raciocínio muito comprido — se calhar uma [moeda] só, se calhar nenhuma — e acaba por dar-lhe uma coisa insignificante. Isso é muito divertido e o modo como está contado, de fato, nos faz soltar uma gargalhada, não apenas aquele riso interior.

No início do livro você menciona a estranheza social de um humorista discutir abertamente o seu ofício, enquanto essa reflexão é até esperada em outras áreas. Por que há essa percepção de que falar sobre humor “estraga uma espécie de magia”?
Não há no humor, assim como há na literatura, umas Cartas a um jovem poeta, do Rilke, umas Cartas a um jovem romancista, do Vargas Llosa. Parece que o humorista está a estragar uma espécie de magia, está a revelar um truque. Parece-me que isso é confundir as coisas.

A espontaneidade que a gente identifica, por exemplo, quando um humorista está no palco e a gente pensa “isto deu-me vontade de rir porque pareceu mesmo que ele se lembrou disto nesta altura”, o que acontece é que ele está a fingir que se lembrou daquilo naquela altura. Quanto mais competentemente ele fingir isso, mais engraçado é. É improvável que, se ele estivesse a lembrar daquilo naquela altura, isso fosse tão impactante como fingir que está a lembrar-se daquilo naquela altura. Portanto, não há nada de místico na escrita humorística ou no humor como noutra atividade qualquer.

Ninguém vai a um concerto de uma banda e pensa “esta banda lembrou-se desta música agora, estão a compô-la neste preciso momento”. Toda a gente admite que aquilo foi composto num estúdio, teve vários passos. Mas parte do truque do humor é fingir que as coisas nos estão a ocorrer no momento em que estamos no palco. É importante lembrar que isso é um truque — e às vezes há humoristas que se deixam enganar pelo truque e pensam: “e se eu for para o palco e falar lá [de improviso]”. É trágico porque não funciona.

Você argumenta que esta é uma habilidade “que se adquire”, através de “estudo e trabalho árduo”, e não um dom inato. Por que é importante desmistificar que o humorista “nasce ensinado”?
Acho repelente esse raciocínio. A ideia de talento, sobretudo da maneira como as pessoas o entendem, é a seguinte: assistem a alguém fazer qualquer coisa que para elas é inatingível e dizem “Uau, que talento, eu não sou capaz de dar um chute na bola desta forma, ou de tocar o violino assim”. Normalmente aquilo que as pessoas chamam de talento é um gesto que foi repetido um milhão de vezes. Elas não viram esse milhão de vezes, mas ele foi repetido um milhão de vezes e quando elas veem a milionésima primeira vez dizem “Extraordinário! Como é que ele consegue fazer isso?”. Ele consegue fazer isso porque repetiu aquele gesto um milhão de vezes.

O raciocínio humorístico costuma ser — ou é mesmo — o contrário do raciocínio que nos ensinam na escola. Na escola ensinam-nos a olhar para as coisas e ver o que elas são, não a tentar investigar o que elas poderiam ser, o que elas parecem, esses são exercícios humorísticos. São exercícios muito proveitosos para quem tem a minha profissão, nada proveitosos para quem habita o mundo real, das empresas, do trabalho, da escola. É por isso que é raro.

Ao discutir os limites do humor, você argumenta que não existe meio-termo: ou se pode rir de tudo ou não se pode rir de nada. Estamos criando muitas exceções?
Sim, acho que cada época tem os seus tabus, as suas coisas sagradas. Já houve um tempo em que esses tabus eram mais do domínio do sagrado. Entretanto, as coisas sagradas vão mudando. O que eu argumento lá nesse capítulo é que me parece que a questão não tem meio-termo. Ou acreditamos com São Basílio de Cesareia que não se deve rir de nada ou acreditamos com Jacques, o fatalista [personagem criado por Diderot], que rir de tudo tem um apelo especial.

Me parece que, sim, a gente ou concorda que não é possível rir de nada, ou concorda que é possível rir de tudo. Porque a primeira exceção abre várias outras. Se a gente disser: eu acho que se pode rir de tudo, exceto de Jesus Cristo. Bom, mas por que só Jesus Cristo? Por que não Maomé, por exemplo? E por que não, para as pessoas que não são religiosas, mas para as quais é sagrado o seu partido, o seu país, a sua família, o seu hobby até, essas coisas? Eu adoro badminton, não quero que ninguém fale mal de badminton.

A gente não tem uma balança para pesar a profundidade da convicção da minha fé em Jesus Cristo ou da minha fé em que badminton é realmente uma coisa magnífica. A partir do momento em que a gente abre uma exceção para um lado ou para o outro, a discussão está perdida.

Tivemos recentemente no Brasil um episódio bastante controverso, a condenação do humorista Léo Lins a oito anos de prisão por um vídeo com piadas consideradas preconceituosas. Você ficou preocupado com esse episódio?
Fiquei. Em Portugal, a notícia que me chegou dizia: “Humorista condenado a 8 anos de prisão por piadas”. No meu país, um mês antes ou assim, tinha havido uma pessoa condenada a oito anos de prisão por cinquenta crimes de abuso sexual de menores. O fato de merecerem a mesma pena, em dois países democráticos, cinquenta crimes de abuso sexual e piadas, claro que me deixou preocupado.
Ainda por cima li a sentença, que está disponível on-line, e encontrei vários problemas. Se nós consideramos que uma piada é um crime, a articulação da piada é praticar o crime, não é apenas descrevê-lo. Ora, na sentença a juíza reproduz as piadas criminosas do Léo Lins. O segundo ponto é que ela diz que aquilo não é uma persona. Aquele é o cidadão Léo Lins, com o seu cartão de identidade. É ele que está no palco a dizer aquilo. Coisa que eu acho muito difícil, muito improvável que seja verdade. Mas ela acrescenta: mesmo que não seja, é pior ainda.

‘O raciocínio humorístico costuma ser — ou é mesmo — o contrário do raciocínio que nos ensinam na escola’

Ou seja, na sentença diz que se aquela pessoa que a gente vê no palco não é o cidadão Léo Lins, é o humorista Léo Lins, com tudo o que isso implica — ele não está a falar a sério, ele está a fazer uma piada, a piada tem de ser interpretada porque não diz exatamente o que parece dizer —, a juíza diz: isso é pior ainda, porque é aquilo que ela chama, digamos, racismo recreativo. Ele está a ter um tipo de discurso num ambiente de recreação, o que o torna pior ainda. Isso significa que se ele fizer um comício a ser racista, isso não é tão grave como aquele espetáculo. Coisa que também é muito difícil de entender.

Os últimos anos na política brasileira foram tão cheios de reviravoltas que virou piada falar de um suposto “roteirista de Brasil”, como se vivêssemos em um seriado com temporadas cada vez mais absurdas, além do hábito de criar memes dos infortúnios do país. Como você vê essa característica do brasileiro, de temperar tudo com o humor?
Quando eu estou no meu continente e olho para a realidade brasileira, penso que isto parece Kafka bêbado. Parece uma espécie de Kafka tropical. Por exemplo, lembro-me de quando o Jair Bolsonaro era presidente. Em uma coletiva de imprensa, a propósito de umas notícias sobre gastos desmesurados de organismos governamentais em leite condensado, o presidente do Brasil disse aos jornalistas que metessem as latas de leite condensado no rabo.

Penso no trabalho dos historiadores do futuro. É difícil conceber isso, não é? Porque não é uma frase de estadista. Não é uma coisa que a gente diga. E depois o Churchill disse: mete no rabo… É impensável, não é? Mas foi possível. Foi possível no Brasil o presidente da República pronunciar-se dessa forma. Isso também é uma coisa que desarma pessoas que têm a minha profissão.

Repare, normalmente os humoristas são entendidos como quem cabula aula ou a pessoa que está lá no fundo da sala a dizer uma coisa inapropriada. Já os políticos, os mais altos representantes da nação, são os bem-comportados, que fazem tudo corretamente. Que o presidente da República diga “mete a lata no rabo”, isso é uma coisa que eu diria. É inconcebível que seja ele a dizer.

‘Virar ao contrário o mundo do Bolsonaro não tem graça, porque é virar a indecência e torná-la decente’

O Trump é uma espécie de palhaço igual a esse. De coisas que a gente não diria. “Acho que vou anexar a Groenlândia”, “acho que o Canadá devia ser o 51º estado”. E a velocidade, foi há quatro meses que ele falou na Groenlândia e hoje ninguém fala mais disso. Já avançou para outro tema. Normalmente o trabalho do humorista é virar as coisas de pernas para o ar. É uma operação humorística muito conhecida. O elmo de Mambrino que o Dom Quixote tem na cabeça é uma bacia de barbeiro virada ao contrário. Ele vira ao contrário e põe na cabeça.

Ora, virar ao contrário o mundo do Bolsonaro e do Trump não tem graça, porque é virar a indecência e torná-la decente. A decência não tem graça. Essa é uma dificuldade que se põe ao humorista hoje com este tipo de dirigente.

Quem escreveu esse texto

Guilherme Magalhães

Jornalista e mestrando em literatura brasileira na USP.