A autora alemã Carmen Stephan (Divulgação/Agência Sairas)

Literatura,

A autora do mosquito

Sucesso na Flip, Carmen Stephan conta como encarou a própria finitude para escrever Malária, romance narrado pelo transmissor da doença

31jul2026

Em um sábado de Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), não é fácil encontrar uma mesa livre para sentar e tomar um café no centro histórico da cidade no litoral sul do Rio de Janeiro. Especialmente se a Flip em questão foi a edição que aconteceu entre 22 e 26 de julho e bateu recorde de público, com estimadas 40 mil pessoas se equilibrando pelas irregulares ruas de pedra. Uma das duas Carmens celebradas nesta 24º edição da festa literária foi a alemã Carmen Stephan — a outra foi a ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, que também participou da programação principal.

Durante o périplo em busca de um café, a jornalista e escritora foi abordada por alguns leitores que vinham cumprimentá-la pela mesa do dia anterior. “Adorei sua fala”, disse uma delas. “Passou repelente hoje?”, brincou outro. Stephan dividira o palco do Auditório da Matriz com o médico e escritor Drauzio Varella, em uma conversa que percorreu temas como doenças tropicais e as experiências de quase morte pelas quais passaram.

A alemã contraiu malária depois de uma viagem à Amazônia e quase morreu devido a um diagnóstico impreciso. O relato da saga está em Malária: um romance (trad. Claudia Abeling), publicado em 2021 na Alemanha e em 2026 no país que foi palco da história, pela Tinta-da-China Brasil, selo editorial da Associação Quatro Cinco Um. O livro foi o quinto mais vendido na livraria da Flip.

Drauzio, por sua vez, contraiu febre amarela depois de voltar da Amazônia e narrou essa experiência em O médico doente (Companhia das Letras, 2007), livro que Stephan leu em 2008 e que a inspirou a escrever seu relato. “Anotei na primeira página do livro do Drauzio algumas ideias de como o meu poderia começar. E aqui em Paraty ele me fez uma dedicatória muito especial na página ao lado das minhas notas.”

No pós-Flip, Stephan participou ainda de dois eventos em São Paulo. Na quinta-feira (30), a autora conversou com a escritora Micheliny Verunschk na Livraria Megafauna Copan. Nesta sexta-feira (31), participou do xi Workshop do Programa de Pós-Graduação em Doenças Infecciosas e Saúde Global, na Faculdade de Medicina da usp, ao lado do médico infectologista Marcos Boulos.

Narradora

Em uma inversão de expectativas que engrandece o livro, Stephan escolheu como narradora a fêmea do mosquito que a picou. “O mosquito, para mim, sempre esteve ligado à questão do poder. Já o vi  maior, não como um ser minúsculo, mas como uma voz da natureza, que vem da floresta e olha para o ser humano”, explica.

A necessidade de colocar no papel a experiência veio anos depois. “Antes de escrever, tive uma lembrança de um momento que está no final do livro”, diz. No trecho em questão, ela ouve, pela primeira vez, um médico que a atende no hospital no Rio de Janeiro falar a palavra “malária”. O pensamento que lhe ocorreu foi: “Será que esse mosquito que me picou ainda está vivo?”. “Eu estava meio consciente, muito enfraquecida. Senti algo como uma conexão”, conta.

Essa estranha ligação com o trasmissor trouxe algum alento após duas semanas em que se sentia sozinha, isolada, mesmo em meio ao movimento de pessoas em um hospital. Stephan conta que sentia as forças acabarem, seu tempo se esgotando sem que ninguém pudesse salvá-la.  “De repente, eu não estava mais sozinha. Senti um ser diretamente ligado a mim. Nessa memória que recuperei depois, já havia essa perspectiva. Ele já tinha uma autoridade”, resume.

Foi uma ideia que não veio sem riscos, e a autora sabia deles. “Pode ser uma coisa ridícula, uma coisa estranha, algo que não sustenta o livro até o final. Ou que as pessoas cansem.” Um primeiro editor que avaliou o manuscrito na Alemanha — ao menos a metade que Stephan havia escrito até então — aconselhou-a a desistir desse caminho e optar pela narração em primeira pessoa.

A autora lembra que, em um momento de crise, foi visitar um amigo, o escritor suíço Christian Kracht, que vivia uma espécie de refúgio criativo no Quênia. Ele não só leu o que Stephan havia escrito, como a encorajou a seguir com o plano e não alterar o ponto de vista do mosquito. A viagem foi duplamente proveitosa, pois durante uma noite ela teve a epifania que resultaria no trecho de abertura do romance:

Aprendam a me conhecer. Todo bando precisa de um cérebro que o guie. Me chamem de ponto preto. Quando a noite cai, as pessoas encolhem e os mosquitos crescem. Notem as sombras nas paredes, as antenas, as pernas, os longos palpos. Me escutem cantar do canto mais escuro do quarto. Adormeçam. Baixem a guarda. Cheguei.

“Estava dormindo à noite, debaixo do mosquiteiro, acordei suando. Tive tanto medo que podia ser picada de novo, lá tinha malária, e chegaram essas palavras. Peguei um papel e anotei. Soube que esse seria o início do livro”, relatou Stephan em um dos debates de que participou na Flip, ao lado do diplomata e escritor Ernesto Mané.

Mal-entendido

Malária se divide em treze capítulos, um para cada dia entre a picada e o diagnóstico correto. Entremeados na história pessoal da autora estão alguns episódios de como a ciência lidou ao longo dos séculos com essa doença antiga e até hoje não erradicada.

“O nome vem do italiano e quer dizer ‘mau ar’. Já no nome está o mal-entendido”, aponta Stephan, lembrando que por muito tempo a doença esteve associada ao ar putrefato de brejos e pântanos e a bactérias. Somente nos anos finais do século 19 os cientistas identificaram o mosquito Anopheles como vetor de transmissão dos parasitas que provocam a doença nos humanos.

“Achei legal trazer a história da malária e espelhar minha experiência pessoal. Na história, não descobriram o mosquito como a causa e não descobriram a causa nessa pequena história de um ser humano”, afirma. Também foi uma forma, segundo a autora, de provocar um respiro no leitor depois da tensão dos trechos de agonia com a doença.

Stephan diz ter ficado preocupada com a reação de médicos que pudessem identificar algum problema de fundo científico no romance, mas até agora isso não aconteceu, pelo contrário. “Eles adoram o livro porque se conectam com a história. Muitos que me pedem autógrafos falam que são médicos, biólogos, infectologistas. O trabalho deles é mais intelectual, de pesquisa, mas isso dá uma outra dimensão. Queria trazer o sentimento, como uma pessoa se sente tendo malária.”

Entre os eventos de lançamento do romance, Stephan se diz especialmente animada para o debate com especialistas em doenças infecciosas na Faculdade de Medicina da usp. “As pessoas se conectam mais através de uma história com emoção, com sentimentos. Isso pode ajudar a ciência.”

Ao mergulhar na perspectiva do mosquito (na verdade, é a fêmea do Anopheles que transmite a malária), Stephan admite ter desenvolvido uma empatia pelo transmissor da doença. “A gente recebe uma ‘maldade’, uma picada, mas ele não tem escolha. Ele precisa do sangue para os filhotes sobreviverem. É tudo pela sobrevivência. E ele também é usado pelos parasitas no estômago dele, que querem sobreviver”, afirma ela, que há alguns anos mora no sul da Bahia e diz não sentir mais medo ao se deparar com um mosquito.

Assim, não vê problema algum em ouvir “a autora do mosquito”, como foi carinhosamente chamada nas ruas de Paraty. Um reconhecimento “mais caloroso”, nas palavras dela, do que aquele que recebeu na Alemanha, onde o romance, não obstante, venceu dois importantes prêmios, o Jürgen Ponto-Stiftung de Literatura e o Buddenbrookhaus para romance de estreia.

Finitude

Pouco antes desta entrevista, Stephan contou ter assistido à mesa da programação principal da Flip que reuniu o guatemalteco Eduardo Halfon e a argentina Paloma Vidal, e afirmou ter se conectado com uma fala do escritor.

“Ele disse que uma história tem que trazer a verdade de si. Ele não falou da realidade, falou da verdade. Quando o escritor não escreve os seus sentimentos, não acontece essa comunhão com o leitor. Se ele não sentir, não é verdadeiro. E, se não é verdadeiro, não vale a pena”, reflete.

Seria essa a grande força da literatura? Para Stephan, sim. “Esse livro traz a minha verdade, só que a narradora é diferente. Consegui, através do mosquito, acessar meus sentimentos.” Na visão da autora, além de ser uma narrativa sobre doença, ciência e história, Malária é também sobre a morte. “Essa experiência provocou muito a pergunta de como a gente lida com nossa finitude”, conta. “Como estive perto da morte, sinto quase como um dever me relacionar com o assunto. A morte é parte da vida.”           

A Tinta-da-China Brasil é o selo editorial da Associação Quatro Cinco Um.

Quem escreveu esse texto

Guilherme Magalhães

Jornalista e mestrando em literatura brasileira na USP.

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