Humor,

Teoria da constipação

Em resenhas psicografadas, ex-presidentes contestam os fatos históricos alternativos revelados em obra de doutrinação da juventude

23nov2018 - 09h37 | Edição #14 ago.2018

Urgente: o novo livro do Casseta e Planeta caiu como um poema de Michel Temer no meio editorial. Em Brasil do Casseta: Nossa História como você nunca riu, o grupo faz uma releitura de Brasil: Uma história, do historiador Eduardo Bueno. O formato da obra gerou polêmica: cada um dos Cassetas escreveu um capítulo. “Será que eles não se suportam mais?”, conjecturou Nelson Rubens, numa resenha literária publicada na revista Piauí. O pior estava por vir: vultos históricos citados no livro tiveram a biografia vilipendiada e resolveram se manifestar. Eis o direito de resposta em cartas autônomas, à moda dos Cassetas.

Carta de Pero Vaz de Caminha

Das singraduras literárias aqui não darei conta, porque o não saberei fazer, e os críticos devem ter autoridade para tal. Portanto, Senhor Editor, do que hei de falar começo e digo: quando eu desembarquei aqui, tudo era mato. Esses Cassetas chegaram agora e já querem sentar na janelinha. Confesso: comecei a leitura com má vontade. #prontofalei

Notei, no entanto, que a prosa coloquial de Cláudio Manoel, Beto Silva e os cartuns de Reinaldo Figueiredo emanavam bons ares, como os de Entre Doiro e Minho. Senti que meu textão sobre o descobrimento finalmente ganhava uma renovada na linguagem para chegar aos jovens. Fui ganhando confiança. Tirei foto de uma página e fiz um story elogioso no meu Insta.

Terceiro parágrafo: dali avistei o primeiro selvagem. Era pardo, sem coisa alguma que lhe cobrisse suas vergonhas. Nas mãos trazia arcos com suas setas para hostilizar o leitor. “Vai pesquisar, preguiçoso”, atirava ele. Ofereceu seguidas vezes, à guisa de troça, a alcunha de fundador da Praça é Nossa para o jesuíta Manuel da Nóbrega. Não compreendi sua linguagem. Trouxe um leque de piadas com o Vasco da Gama e trocadilhos rústicos. Falava em “lugares remotos da anatomia geográfica”. Senhor Editor, confesso que quase enviei outra carta ao Rei solicitando o envio de tropas. Mas optei pela via diplomática: apenas sugiro o escambo desse Marcelo Madureira pelo Antonio Prata. Também posso oferecer o pessoal do Sensacionalista, que é ótimo, ou o Roberto Kaz, do Piauí Herald.

Minha catequização, no entanto, foi retomada pelos jesuítas Hubert Aranha e Helio de La Peña. No decorrer do relato, os cassetas enfrentam terras áridas das capitanias hereditárias, do tenentismo, da guerra dos emboabas, da independência, da república com um tom leve e faceiro. Exemplo: Helio de La Peña duvida que Getúlio cometeria suicídio nos dias de hoje: “É provável que sua carta-testamento fosse um post no Facebook. Mas, antes de publicá-la, responderia a uns e-mails, assinaria uma petição contra a morte de baleias, outra pela preservação dos esquimós albinos, depois assistiria a uns vídeos pornôs nos seu grupo de caudilhos tarados no WhatsApp e no final esqueceria porque ligou o computador”.

E nesta maneira, Senhor Editor, dou aqui a Vossa Alteza conta do que neste livro li. E, se algum pouco me alonguei, me perdoe. Envio anexo o boleto com a cobrança de royalties pela citação de minha carta.

José Sarney

Brasileiros e brasileiras, este livro possui inúmeras denúncias sem provas e sem compromisso com a verdade. No final, comprovarei a minha inocência.

Aos fatos:

1) Não é verdade que a primeira e a segunda capitanias hereditárias do Maranhão foram doadas à minha família. Eu venci uma licitação limpa em 1532, aos 48 anos, no auge da minha mocidade, e recebi o Estado do rei d. João 3º, a quem o MDB sempre apoiou.

2) Não é verdade que liderei uma rebelião a favor da monarquia e contra a independência. O MDB sempre apoiou as decisões de d. Pedro.

3) O MDB sempre esteve ao lado do povo ao apoiar a política do Café com Leite, a revolução de 30, Dutra, Vargas novamente. O resto já é sabido. O homem cordial, descrito por Sérgio Buarque, é filiado ao MDB.

O que mais me ofendeu em todo o livro — quiçá em toda minha vida pública — foi ter o parágrafo referente ao meu governo escrito por Marcelo Madureira. Isso é golpe baixo. As forças do Maranhão se voltarão contra vocês.

Ficando Henrique Nervoso

Eu sou o pai do Plano Real, filho da reeleição e espírito santo do mercado. No entanto, se depender do Casseta e Planeta, serei lembrado só como propagador do uso de gerúndio no Brasil. [Podemos tirar, se achar melhor].

Meu legado de garbo, glosas e cannabis ficou reduzido à alcunha de Viajando Henrique Cardoso pra cá, Pavoneando Henrique Cardoso pra lá. Privatizando, Conchavando, Despencando. Assim que voltar de Paris, estarei resolvendo isso.

Dito isso, parabenizo o livro por relatar o PSDB com sobriedade e coerência. Em suas 238 páginas, não há nenhum relato de um parlamentar tucano que tenha sido preso.

Lula

Nunca antes na História desse país um presidente recebeu uma imitação tão emblemática como aquela do Bussunda. Só um nordestino que soube o que era passar fome, venceu na vida e tirou 40 milhões de pessoas da miséria merecia homenagem tão significativa.

No meu governo, todo mundo ganhou. O investidor nunca esteve tão bem. O pobre nunca esteve tão bem. E o Casseta e Planeta, que ocupava um horário nobre na TV Globo, nunca esteve tão bem.

Peguei o livro emprestado de um amigo e fiquei impressionado: o Brasil do Casseta tem 238 páginas — o mesmo número da sentença do Sergio Moro que me condenou. Coincidência? Acho que não. A elite golpista desse país nunca vai perdoar o fato de que um operário chegou à presidência.

Dilma Rousseff

Eu tô saudando a Casseta. O Planeta. E o milho. Mas faço uma ressalva: lançar esse livro em 2018 é golpe. Vejam o que diz aquele Beto Silva após descrever a renúncia de nosso primeiro presidente, o Marechal Deodoro da Fonseca: “A lei ditava que deveria haver nova eleição. Mas o vice-presidente, o marechal Floriano Peixoto, articulou, conchavou, ameaçou e acabou convencendo a todos de que ele é que tomaria posse. E assim foi. Em apenas dois anos de República, o primeiro vice já assumia o governo, um fato que já trazia uma mensagem para os brasileiros […] o vice tem importância”.

E só me avisam disso agora. A Gleisi, em solidariedade, já convocou o povo do PT, do MST e do sindicato para boicotar esse livro. Vamos até a ONU. Também aprendi nesse livro que por trás de todo humorista tem uma figura oculta, que é um cachorro. No caso do Casseta, o cachorro é aquele Marcelo Madureira. Mais chato que ele só o Mercadante.

Os presidenciáveis se manifestam

Jair Bolsonaro: “Pra que pegar em livro de História se podemos pegar em armas?”.

Ciro Gomes: “Este livro comprova que estou desde 1500 esperando o apoio do PT”.

Geraldo Alckmin: “Marcelo Madureira é o maior intelectual desse país. É o Poupatempo da nossa literatura”.

Guilherme Boulos: “Viveríamos em um terreno mais solidário se o MTST tivesse invadido as Capitanias Hereditárias”.

Marina Silva não se manifestou.

Manuela D’Ávila ia se pronunciar, mas foi interrompida por um homem branco heterossexual.

Quem escreveu esse texto

Renato Terra

É autor de Diário da Dilma (Companhia das Letras).

Matéria publicada na edição impressa #14 ago.2018 em agosto de 2018.