Obra de Lucas Finonho da série "Imagem e semelhança"(Wesley Sabino/Divulgação)

Refazenda,

Baixadas, quilombos e minas da cena hip-hop

20set2024 • Atualizado em: 18out2024

Novo colunista na área

Quando recebi o convite para editar este espaço na Quatro Cinco Um, com a missão mobilizadora de criar um radar para compartilhar ideias, nomes e principalmente histórias de lugares que geralmente ficam de fora das conversas do meio cultural no eixo Rio-São Paulo, por questões que vamos ter tempo para aprofundar, fiquei animado que só.

Obra de Lucas Finonho da série “Imagem e semelhança”(Wesley Sabino/Divulgação)

Me lembrou da lógica de um agricultor que ganha um pedaço de terra para cultivar, escolhendo as sementes, arando a terra, e sacando o que faz sentido plantar em cada momento, época, atento aos sinais do tempo. A gente vai buscar essa conversa pelo caminho da arte, que toma as ruas e terreiros das periferias, e do que está sendo e do que precisa ser visto, ouvido, sentido. 

Quando veio a questão de como batizar a coluna, me lembrei da referência que o Paulo Roberto Pires, também colunista da Quatro Cinco Um e editor da revista serrote, compartilhou — a “Geléia Geral”, do Torquato Neto; daí veio o trilho que deu na “Refazenda”, de Gilberto Gil. Para mim, é como se ele construísse um mosaico, mas respeitando o tempo e a ordem da natureza, no doce e no azedo.

Por isso, Refazenda: do que está sendo inventado, reinventado, descoberto e que alimenta a gente. Bora à colheita!

PERFIL • Joelington Rios

O que sustenta o Rio, Iansã (2018), de Joelington Rios. Processo de sustentação e a espiritualidade. Fotomontagem (Reprodução)

Joelington Rios é um artista maranhense que realiza fotomontagens, fotografias e outras práticas artísticas como instalação, escultura e videoarte. Ele busca amplificar suas imagens com o uso de carvão, cores avermelhadas que remetem ao guará, cores azuladas e, principalmente, a intuição. 

O fotógrafo nasceu no quilombo Jamary dos Pretos, em Turiaçu, no estado do Maranhão, e atualmente mora e trabalha na Zona Norte do Rio de Janeiro, onde desenvolve pesquisas no campo das artes visuais. Em suas séries, busca revelar a dignidade através de retratos de pessoas negras. No ano passado, Rios integrou a Bienal das Amazônias e, em maio último, participou do programa de residência Sertão Negro. Ainda neste ano, uma de suas obras fez parte da exposição Rio: desejo de uma cidade na Casa Roberto Marinho, no Rio de Janeiro.

PASSEIO • Imagem e Semelhança

Sebastião (2024), de Lucas Finonho. Impressão sobre tecido e bloco de brita (Wesley Sabino/Divulgação)

Uma das grandes promessas do circuito carioca de arte, o artista plástico Lucas Finonho vem da Baixada Fluminense, de onde traz reflexões sobre as constantes fragmentações e reconstruções que enfrenta sendo um jovem preto e gay de periferia. Na sua primeira exposição individual, Imagem e Semelhança, no Museu de Arte do Rio, o artista remonta sua história familiar e as experiências vivenciadas no seu cotidiano.

Com curadoria de Mélanie Mozzer e Osmar Paulino, o projeto começou a ser gestado em julho de 2023 e é composto por doze obras inéditas. Cada tela convida olhar para as relações cotidianas com sensibilidade, e a pintura não é apenas um meio de expressão visual, mas um diálogo entre a suavidade dos traços e a aspereza das texturas de brita. Segundo o texto curatorial, a inserção da pedra brita em suas obras, com sua natureza fragmentada, oferece uma metáfora visual potente para as complexidades da experiência humana e do nosso tempo. Museu de Arte do Rio até 3 de novembro

ENTREVISTA • Nic Diass, o rap do Pará

A rapper paraense Nic Diass (AUR/Divulgação)

Um dos destaques do último festival Se Rasgum em Belém, Nic Dias é uma das principais vozes na cena do rap surgida nos últimos anos. Prova disso é o reconhecimento que seu primeiro álbum, Bad Bitch, recebeu da plataforma Natura Musical em 2023 e o fato de ela estar se apresentando em grandes festivais nas cinco regiões do país, inclusive no último Rock in Rio. Nic Dias tem a mãe, Dona Roze, como sua maior referência e vem se consolidando como porta-voz da cultura da Amazônia, ao lado de Dona Onete, Gaby Amarantos e tantas outras.

O que só pode ser encontrado no rap do Pará?
Coragem para criar caminhos, abrir caminhos que só a gente consegue aqui. É ter força mesmo em meio ao caos que é viver na Amazônia, mas também ter coragem para seguir. 

Como tem sido a recepção do seu novo álbum Bad Bitch (Relikia)?
Tem sido ótimo ver como ele repercute, ainda mais sendo uma artista independente. É gratificante a forma como acontece de maneira orgânica. Ver como mulheres, pessoas da quebrada se reconhecem através desse meu primeiro álbum.

Quais são as principais referências de quem é criado em Icoaraci, bairro em que você vive, em Belém?
Tudo que eu vejo aqui, onde sou criada, é uma digna relíquia, algo raro, que não se encontra em qualquer lugar. Na música Relikia de Icoaracity a protagonista sou eu, algo raro e difícil de encontrar. 

LISTÃO: MC MARTINA

A coletânea Nunca foi sorte, sempre foi poesia conta o cotidiano da poeta slammer MC Martina no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, sua trajetória e, principalmente, o que sentiu quando se olhou e conversou consigo mesma com cuidado pela primeira vez. Nome sempre presente na cena dos campeonatos nacionais de poesia, MC Martina criou o Slam Laje, evento que acontece no Complexo do Alemão e mobiliza principalmente crianças e adolescentes com o objetivo de cultivar uma nova geração de leitores e poetas. Lançado pela Editora Slam Laje, o livro pode ser adquirido on-line ou no Instagram mcmartina_.

Trecho do poema “Carta 7”

Eu vim da base
Não passo base
Mas faço trabalho de base
Pros menó não ir pro Degase
Nem glamurizo a nossa dor pra construir a minha imagem

Pode parecer miragem
Então anota o que eu digo
Mesmo sem teu incentivo
Ainda vou lançar meu livro


Mais pra ficar ligado

CREPOM

Quem estiver por São Paulo nas próximas semanas pode visitar a exposição Crepom, de Mano Penalva, na Casa de Cultura do Parque. O artista evoca a avó que ensinava a fazer flores com o papel tão comum na sala de aula, numa instalação que questiona a estrutura do professor autoritário. “Uma educação pela pedra, ou pelas flores, pode significar uma bem-vinda contaminação cultural”, afirma a curadora Mariana Leme em texto que acompanha a mostra. Casa de Cultura do Parque até 13 de outubro

Línguas africanas que fazem o Brasil

Com curadoria do músico e filósofo Tiganá Santana, que lançou recentemente o álbum Caçada Noturna, a mostra apresenta as presenças africanas que integram a nossa língua. Seja na entonação, no vocabulário, na pronúncia ou na forma de construir o pensamento, línguas como o iorubá, eve-fom e as do grupo bantu têm uma importância decisiva na configuração do português falado no Brasil. Na exposição, há também trabalhos visuais de J. Cunha, Aline Motta e Rebeca Carapiá. Museu da Língua Portuguesa até janeiro de 2025

Fritness

Para ler com os ouvidos: recomendamos um apanhado mensal de percepções e análises aguçadas sobre culturas musicais e produções sonoras. Na newsletter sobre música e som em geral, Vivian Caccuri discorre sobre assuntos que vão desde a descolonização do techno, passando pela ideia de assombrologia dentro do contexto da arte sonora, até a estranha associação entre mulheres brancas e soundsystems. Além de artista, Caccuri é musicóloga e mestre em estudos do som musical pela UFRJ. A inscrição na newsletter é gratuita.

Editoria com apoio da Casa de Cultura do Parque

Em 2024, a Quatro Cinco Um estreia a editoria de cultura contemporânea, com com apoio da Casa da Cultura do Parque

Quem escreveu esse texto

Jefferson Barbosa

Jornalista, membro da Coalizão Negra por Direitos, é autor de A Mãe do mundo: vida e lutas de Mãe Beata de Yemanjá (Malê)