Literatura brasileira,
Uma escritora a todo vapor
Conceição Evaristo fala sobre sua escrita, projetos e como vê sua obra ocupar novos espaços, da Bienal de São Paulo à Marquês de Sapucaí
11set2025A obra de Conceição Evaristo não cabe nos limites do mercado editorial e menos ainda nos da literatura. A arte da escritora mineira de 78 anos, que parte da infância em Minas Gerais e se encontra com a vida de mulheres negras espalhadas nos recantos do Brasil e da diáspora, está em evidência em três eventos. Além de inspirar a 36ª Bienal de São Paulo, ela será homenageada na Festa Literária das Periferias (Flup) deste ano e no Carnaval carioca do ano que vem.
A Bienal começou em 6 de setembro, no parque Ibirapuera. Liderada pelo camaronês Bonaventure Soh Bejeng Ndikung, a equipe curatorial escolheu versos do poema “Da calma e do silêncio”, publicado em Poemas da recordação e outros movimentos (Malê), para nomear esta edição do principal evento das artes plásticas do país.
A Flup, que acontecerá no Rio de Janeiro em novembro — de 17 a 23 e de 27 a 30 —, celebra a trajetória da autora e sua “escrevivência”. O conceito será ainda ponto de partida do desfile de 2026 do Império Serrano, escola de samba carioca que vai levar a obra da escritora para a avenida com o enredo “Ponciá Evaristo, Flor do Mulungu”.
Dando aulas, participando de eventos quase todos os dias e se dedicando à Casa Escrevivência, que abriga seu legado em construção, o trem de Conceição está a todo vapor e vai para muito além de Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Maricá, cidades onde reside. Dona Conceição recebeu a Quatro Cinco Um para uma conversa em meio aos livros de seu acervo e a projetos que vem arquitetando na Casa Escrevivência, no centro do Rio.
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Entre visitantes que a descobrem ali, na região conhecida como Pequena África, ela contou de seus novos projetos literários e da alegria de ter seu trabalho reconhecido além do mundo dos livros. Falou também sobre como vê o uso e até as distorções do termo “escrevivência”, criado por ela em sua pesquisa acadêmica.
Como a senhora está no ano em que sua obra serve de referencial para grandes eventos brasileiros?
É um momento de celebração, em que sou grata à vida. Se afirmar no campo literário brasileiro é muito difícil, ter a visibilidade que eu tenho… E, quando se trata da escrita negra, é mais complicado ainda encontrar essa celebração. É um reconhecimento justo — quem celebra minha literatura é porque leu. Mas tenho 78 anos, não fico tranquila: toda pessoa negra que tem projeção tem que ter cuidado para sua história não cair no discurso da meritocracia. Não podemos achar suficiente o que temos, o povo brasileiro rala e pena e não consegue viver dignamente, nem digo fazer sucesso. Agradeço muito à vida por esse tempo da colheita, mas não me iludo.
Seu romance Ponciá Vicêncio foi recentemente adaptado ao teatro, e seu poema “Da calma e do silêncio” guia a curadoria da Bienal de São Paulo. Como vê essa interação com outros campos das artes?
Eu fico supermetida, né? Acho que o significado do texto literário se comprova pelas possibilidades de leitura que oferece. Se eu faço um poema ou um conto, ele é só um conto ou um poema. Quando ele se transforma em outro objeto de arte, ele se transforma em outro texto. Eu fico feliz. Isso de certa forma certifica que esse texto valeu a pena, que a minha escrita tem sentido, na medida em que ela pode ser apropriada por outras formas de conhecimento ou arte. E fico curiosa: o que vai surgir?
‘Quando o texto se transforma em outro objeto de arte, ele se transforma em outro texto’
É uma transposição difícil. Você tem que entrar no espírito do texto. Eu vi Ponciá [a peça] duas vezes e acho que traduziram muito bem, porque é uma tradução do texto escrito [em prosa] para o teatralizado. Também fico feliz porque essa apropriação está sendo feita em espaços de pessoas negras. Vi Ponciá ser encenado por três mulheres negras, e o poema “Da calma e do silêncio” com um curador negro e africano [o camaronês Bonaventure Soh Bejeng Ndikung]. Como esse homem lá de longe achou que esse texto dizia alguma coisa para ser a mola mestra para pensar a Bienal de Arte de São Paulo? É um reconhecimento da arte, da estética que esse texto carrega.
Como é a sua relação com a escrita?
Minha relação com a escrita, mesmo sendo uma relação de necessidade, [além de ser] uma relação de prazer, não é disciplinada. O meu exercício da escrita acontece quando dá tempo, porque sempre trabalhei. Eu passo às vezes períodos sem escrever. E gosto muito de escrever na madrugada. Eu preciso do silêncio. Agora, o fato de não estar passando para o papel não significa que eu não esteja escrevendo, porque o tempo todo cada história, cada acontecimento vai virando uma possibilidade de texto. Isso me dá até certa aflição, porque também muita coisa se perde, né? Quando eu vou escrever, já não me lembro mais.
Talvez, se eu soubesse dançar ou cantar, eu não escrevesse. Acho que a arte que se realiza através do corpo atinge mais rápido o espectador. Eu não sei inglês, mas ouço Nina Simone e fico toda feliz. Parece que estou até entendendo o que ela está dizendo. A comunicação é direta. Como eu não sei dançar, nem cantar, a maneira de eu me exibir, de poder apresentar alguma coisa, é a escrita. E acho que, se eu não escrevesse, eu adoeceria.
Em Becos da memória, a narradora Maria-Nova diz que ela era muito menina para guardar todas as histórias. Se eu não escrevesse isso, todas as histórias minhas — as que observo, as que invento — iriam explodir de alguma forma. Eu fico sempre achando que iria explodir em um desconcerto emocional, eu não iria dar conta.
Você já falou da necessidade de ficar em silêncio para escrever e como muitas vezes isso não é possível para uma mulher negra. Como pode ser mais viável o ato da escrita?
Pensar a escrevivência é também pensar na materialidade, como esse texto nasce, como esse texto é produzido. A minha escrevivência acontece na dinâmica da vida. Apesar de eu não ter um tempo específico para escrever — ou justamente por eu não ter —, existe uma possibilidade de me retirar do cotidiano para produzir uma escrita. Essa não foi, por exemplo, a possibilidade de Carolina Maria de Jesus. Na mesma hora em que ela está escrevendo um texto, ela anota que está devendo não sei quantos mil réis pro açougueiro. Então, essa escrita é muito colada à vida.
Noutra entrevista você mencionou a importância de reler Carolina Maria de Jesus. Pode falar mais disso?
Tenho que voltar ao momento em que li Carolina em Belo Horizonte — eu tinha no máximo dezoito anos, estava na Juventude Operária Católica. Quarto de despejo surgiu, eu levei para casa, todo mundo leu, menos uma irmã por causa da pobreza que descrevia. E nos marcava tanto porque Carolina era minha mãe, era a gente no meio da rua correndo para passar na frente do gari antes que ele pegasse o lixo. A gente era personagem de Carolina.
Depois venho para o Rio, ouço falar dela no movimento negro e ela me volta em termos de pesquisa, até eu conhecer a filha de Carolina [Vera Eunice] — e a gente foi trabalhar na Companhia das Letras. E Carolina se afirma como paradigma — ela não tinha nenhuma inibição de dizer “eu sou poeta” — e marca a literatura brasileira. É impressionante como, para uma geração que nem conhece ela direito, ou só o Quarto de despejo, ela se torna um símbolo do poder dizer. Ela forçou, construiu o espaço dela do poder dizer na literatura brasileira.
Escrever diferentes gêneros (poesia, romance, conto) foi intencional?
Foi acontecendo. Há um texto que nasce como poesia e um texto que nasce como prosa. Intencional é o texto crítico, o do mestrado, do doutorado, mas mesmo o texto crítico eu quero que nasça da minha experiência de mulher negra, da minha observação e do que escolho para escrever.
Ser mulher negra afetou o modo como escreve suas histórias, personagens, e também a expectativa do mercado editorial e do público?
O fato de eu ser uma escritora negra desperta curiosidade. Em qualquer função, a pessoa negra que escapole de uma situação esperada chama atenção. Você percebe os olhares, tem que ter uma justificativa para estar lá. O outro sentido é que muitas pessoas que estavam nos espaços da literatura, escritores homens e brancos, só passaram a me cumprimentar quando eu ganhei o Jabuti [na categoria Contos e Crônicas por Olhos d’água, em 2015].
Numa autoria negra, tem uma tendência a desacreditar, o que não acontece com a autoria branca — e aí tem a questão do racismo. Eu me pergunto: se eu fosse uma escritora branca, haveria tantos empecilhos, desvalorização? Pode ser que algum mercado espere que eu escreva só sobre a condição negra. E aí eu diria que o meu texto traz a condição negra, sim, traz mulheres negras, sim, mas com profundidade. Se eu quisesse escrever sobre outros personagens, eu poderia, mas quero colocar personagens negros no centro da cena.
Como você vê os usos atuais do termo “escrevivência”?
A apropriação desse conceito passa pelo risco. Na pressa, muito desse uso é feito sem saber a origem, o fundamento do termo. Você pode pensar numa junção de palavras: escrever e viver. Mas não é só isso. O fundamento é histórico e ancestral — isso demarca outro campo que não o da escrita de si, da autoficção ou da escrita egoica.
Tem muita gente tomando escrevivência como um desabafo pessoal: contar uma história sem correlacionar como essa história pessoal está confundida — no sentido de fusão mesmo — a uma história coletiva. Eu tenho insistido que, para se apropriar do sentido de escrevivência — do imaginário, da ideologia atrás do termo —, é preciso entender a afirmativa feita na primeira vez que eu apresento o termo.
Foi no espaço de construção da minha dissertação de mestrado defendida em 1995. Num seminário, em uma mesa de literatura sobre autoria de mulheres negras, estavam Mãe Beata de Yemanjá, Lia Vieira, Esmeralda Ribeiro, Miriam Alves e eu. Era uma mesa de escritoras negras. Eu termino a minha fala dizendo: “a nossa escrevivência não é para adormecer os da casa-grande, e sim para acordá-los dos seus sonos injustos”.
‘A escrevivência surge como um processo que não está mais sob os ditames da casa-grande’
Quando eu faço essa afirmativa do que seria a nossa escrevivência, tenho como pano de fundo uma imagem que sustenta essa afirmativa. A imagem da africana e seus descendentes escravizados dentro de casa.
Essa mulher, tudo nela estava inscrito no processo de escravização. O corpo estava inscrito na economia da casa-grande, porque era um corpo produtivo. Desde a cozinha até o cuidar das crianças, ela tinha uma produção. Era um corpo que estava inscrito na economia do prazer. A obrigação, o trabalho dela como mulher escravizada, era também cuidar da prole dessa casa contando histórias. Até a fala dela estava inscrita na produção de uma mulher escravizada.
Escrevivência surge como um processo que não está mais sob os ditames da casa-grande. Escrevivência é borrar o processo inscrito nessa economia da produção que nossos ancestrais tiveram de cumprir. É buscar uma fundamentação. Isso não é escrita de si, autoficção, mas uma prática pedagógica e chave de interpretação de texto que nasce em outro espaço para pensar uma teoria de escrita.
O texto de Geni Guimarães [escritora, poeta e professora] em A cor da ternura, por exemplo, confunde o texto da narradora com o da escritora, mas você tem um resultado coletivo que traz também essa fundamentação.
Uma pessoa branca pode fazer escrevivência? Até pode — não é a escrevivência de que eu estou falando, mas entendo que quando um conceito é lançado pode ser apropriado de diferentes formas. A gente está falando de uma escrevivência específica; não precisa seus pais serem pessoas pobres, mas há alguma coisa no inconsciente coletivo que a comunidade negra acessa em termos de memória.
‘Eu consegui falar da solidão do homem negro, isso pra mim era muito importante’
Estou lembrando disso porque uma vez o Paulo Werneck [editor da Quatro Cinco Um] me pediu para escrever sobre O diário de Anne Frank — ali há uma memória judaica, e, no nosso caso brasileiro, [há] uma memória indígena, que a gente não consegue acessar, talvez com a imaginação. Eu posso criar isso, a ficção permite, mas tem um lugar social, das experiências étnicas que a pessoa tem, que a acompanha. Alguma informação você tem — ou porque vive ou porque te acompanha. Isso importa para pensar a escrevivência.
Em Canção para ninar menino grande, a senhora aborda, no seu protagonista Fio Jasmin, a masculinidade negra. Por que essa escolha?
Eu escrevi por um complexo de culpa. Nos meus textos as mulheres estão no meio da cena, os homens geralmente são algozes ou ausentes, e o homem negro não é só isso. Quando as pessoas começaram a perguntar, eu fiquei pensando — e eu digo que tive uma história de amor para pensar, com o pai da minha filha Ainá.
E não dá para pensar na relação com o homem negro como tóxica. Eu consegui falar da solidão do homem negro, isso para mim era muito importante. A gente fala da solidão das mulheres negras, só que a gente explicita essa solidão. Os homens não explicitam e o homem negro, menos ainda. O homem negro pode abandonar a mulher, pode ser garanhão, mas ele não pode ser fraco, ele tem que ser forte.
No caso do Fio Jasmin, ele aparece no centro da cena, mas contada pelas mulheres. Ele só se olha a partir do momento em que se relaciona com Eleonora de Sá — com ela é que ele percebe a relação que tem com as mulheres. Ainda falta eu criar um personagem que se perceba ele mesmo nesse lugar de fragilidade.
Seu próximo livro está ligado à relação com Dona Joana, sua mãe. Pode adiantar um pouco?
Eu parei de escrever porque é um livro em que busco a escrita da minha mãe, e a morte dela ainda está muito próxima. Ela faleceu no final da pandemia. Todo medo da gente era que ela pegasse Covid. Ela morreu de velhinha, na véspera de completar 99 anos. Mas a pandemia afetou ela muito, a fragilizou. É um livro em que entram o texto dela, o meu texto e cartas de família.
Eu abro o livro dizendo que na favela as pessoas diziam “as meninas de Dona Joana”, quatro mulheres, e, como o nome do pai a gente nunca experimentou, então vai chamar Di mãe. Quando sair vai ficar bonito.
Por último, a sua mais nova empreitada: a Casa Escrevivência.
A Casa Escrevivência é pensada há muito tempo, não como casa, mas a partir da minha biblioteca. Eu tenho um acervo que eu olhava e ficava pensando, primeiro, numa biblioteca comunitária. Depois fui vendo como nossos acervos ficam perdidos no tempo — as famílias não têm muita condição de guardar. Vendo a organização de acervos como os de Lélia Gonzalez, Carolina [Maria de Jesus], Beatriz Nascimento, da professora Azoilda Loretto, fiquei pensando num espaço que pudesse guardar meu acervo; outro incentivo foi a quantidade de material que chega para mim.
Aí eu pensei que faria essa biblioteca, ao mesmo tempo, como lugar de guarda de memória. Ainda estamos num lugar muito pequeno. O pilar é a biblioteca e suas consequências: treinamento a professores, acolhida a residentes. Considero a Casa Escrevivência um momento de coroação mesmo, de júbilo para minha carreira. É um projeto em que a gente tem investido e, cada vez mais, desenhado o que queremos para esse espaço: marcar a cultura do Rio de Janeiro, os estudos acadêmicos do Rio e além. A instituição tem mulheres negras na fundação e na gerência. O que fundamenta essa casa são as experiências das mulheres negras nos diversos campos do saber e da arte. A Casa Escrevivência veio para ficar e resgatar o que essas mulheres negras fizeram. Precisamos de uma casa que perdure como herança, no sentido material e simbólico.
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