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Transcrição: Natércia Pontes no podcast 451 MHz
Leia a transcrição do episódio #193 do 451 MHz, uma conversa com Natércia Pontes sobre seu novo romance Vida doçura
24abr2026 • Atualizado em: 27abr2026Nesta edição do 451 MHz, a escritora Natércia Pontes conversa com Bruna Beber sobre Vida doçura (Companhia das Letras), seu novo romance, e seu processo de escrita. Ela conta que coleciona palavras, imagens e histórias para depois costurar, na narrativa, os elementos que despertam sua atenção. Ouça a seguir e saiba mais aqui.
Leia a transcrição:
Paulo Werneck [PW]:
Oi. Está começando o episódio 193 do 451 MHz, podcast para quem lê até com os ouvidos. Eu sou o Paulo Werneck, editor da revista Quatro Cinco Um. Toda sexta-feira, a gente conversa aqui com autores, críticos e leitores sobre os livros mais legais que acabaram de ser publicados no Brasil.
Natércia Pontes [NP]:
Quando eu estou construindo um romance, eu fico trabalhando 24 horas nele, o tempo todo. Indo buscar minhas filhas no colégio, dando jantar, não sei o quê… Alguma fala, uma palavra, ou então alguém me conta uma história, por exemplo a cena do cotonete que ela enfia no ralo, foi uma história que me contaram. Eu roubo, a gente é muito ladrão também da vida e da história dos outros, e da sua própria história principalmente.
PW:
Essa voz que você acabou de ouvir é da escritora Natércia Pontes. Eu já vou te falar mais sobre ela, mas antes, eu preciso te avisar que esse episódio é realizado com o apoio da Lei Rouanet e da Companhia das letras.
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PW:
A Natércia Pontes é romancista e contista. Ela é autora do livro de contos Copacabana dreams, que foi publicado originalmente em 2012 pela Cosac Naify e depois ganhou uma reedição pela Companhia das letras em 2024. Pela mesma editora, ela estreou em romance com Os tais caquinhos, de 2021. E agora ela está lançando mais um romance, o Vida doçura, que também sai pela Companhia das Letras. No episódio de hoje, a Natércia conversa com a nossa colunista Bruna Beber sobre esse novo livro que trata de um assunto bem atual, a obsessão que os influenciadores da internet despertam hoje em muita gente.
A Natércia, aliás, é uma das convidadas confirmadas d’A Feira do Livro desse ano, o festival literário que a Quatro Cinco Um organiza em parceria com a Maré Produções no feriado de Corpus Christi, aqui em São Paulo, lá na Praça Charles Miller, no Pacaembu. Nesse ano, a feira vai acontecer do dia 30 de maio, que é o sábado anterior ao feriadão, até 7 de junho.
São nove dias seguidos de conversas, livros, editores e autores. Você vai trombar com seus autores preferidos lá n’A Feira do Livro. Então, vamos todo mundo para o Pacaembu. Compra sua passagem, planeja o seu dia. A gente já está soltando a programação logo mais para você poder se programar.
Então, vamos lá para a primeira parte da conversa da Bruna Beber com a Natércia Pontes.
Bruna Beber [BB]:
Vou começar a coluna hoje de um jeito diferente: “oi, pessoal! Tudo bem com vocês? Estamos começando mais um vídeo do nosso canal. Se você é novo ou novo por aqui e ainda não faz parte da nossa família, seja muito bem-vinda, muito bem-vindo. Não esqueça de se inscrever no canal, deixar seu like e ativar o sininho de notificação”. Agora chega de falar e vamos receber a Natércia Pontes. Como vai?
NP:
Tudo bem, querida, tudo bem. Melhor ainda com você agora.
BB:
Uma alegria receber você com seu Vida doçura, que acabou de sair pela Companhia das Letras. É o seu segundo romance.
NP:
É o meu segundo romance. E é super difícil o segundo romance quando o primeiro vai mais ou menos bem, como foi o meu caso. Você tem uma expectativa dos leitores, né? No primeiro romance, você tem uma liberdade que você nunca mais vai ter na vida, e eu sofri muito. Até já li sobre o trauma do segundo romance, algo assim, a nóia do segundo romance, porque você fica com a voz marcada e com o universo marcado, e também não quer se repetir e repetir fórmulas, então você fica num lugar meio escorregadio.
BB:
O seu primeiro romance, Os tais caquinhos, ele é de 2021, né?
NP:
Isso.
BB:
Mas antes disso, a gente tem o Copacabana dreams, que saiu pela Cosac em 2012 e foi reeditado pela companhia em 2024. Você tem outros livros, e eu me lembro do seu primeiro livro, Az mulheres, de 2004.
NP:
Que eu renego.
BB:
Você renega?
NP:
É, eu acho ruim. Acho terrível. Eu achei ele legal porque me abriu as portas para ser escritora, mas enquanto objeto literário eu acho péssimo. Então, eu considero meu primeiro livro o Copacabana dreams.
BB:
Como que você começou a escrever? E sempre [foram] histórias? Porque eu me lembro que você escrevia poemas também.
NP:
Escrevia poemas. Escrevi um poema quando eu tinha oito anos — depois eu te mando esse print —, numa agenda. Eu fazia diário, tinha agenda, colava fotografia da Capricho, essas coisas todas. E um desses poemas era assim: “Casa, minha casa, tanto que te quero ter, fumar um cigarro Plaza e depois morrer.” Com oito anos.
BB:
Que maravilha. [Risadas]
NP:
Eu achei isso outro dia e fiquei: “meu Deus, coitada de mim criança”. Então, eu acho que eu sempre fui escritora.
BB:
Poderia ser a epígrafe do Vida doçura esse poema.
NP:
Caramba, poderia, verdade. Agora não dá mais, vai ser do Caetano [Veloso] e da Clarice [Lispector] mesmo.
BB:
Natércia, então você começou a escrever com oito anos. Por quê? O que fez você começar a escrever?
NP:
Eu acho que foi uma soma de muitas coisas. Não foi com oito, foi antes de eu aprender a escrever. Porque eu venho de uma família, tanto da parte de mãe, quanto da parte de pai, que é rodeada de livros. Meus avós maternos se conheceram na Biblioteca Nacional, no Rio. Minha avó era bibliotecária e meu avô ia estudar lá. Ele era ascensorista, estudava no elevador e aos finais de semana ia estudar na Biblioteca Nacional. Eles começaram a paquerar e ele mandava recadinho dentro do livro para ela. E então ele tinha uma biblioteca chamada Máximo Gorki e eu passei anos achando que o Máximo Gorki era o meu avô, depois que eu vi que não era. [Risadas]
E meu pai… Era uma loucura nossa casa, não tinha sala, não tinha sofá, era só livro. Mas eu acho que o que me empurrou no abismo da literatura mesmo foi uma leitura da minha mãe dentro de um ônibus a caminho de Natal, Fortaleza para Natal, ela leu Chapeuzinho Amarelo pra mim e eu fiquei tão com medo e fascinada e estarrecida, aquilo tinha até uma coisa erótica… não sei. Aquilo me fisgou tanto, o medo do medo do medo da Chapeuzinho, o lobo que aparecia, o reflexo do rabo do lobo, que tem uns desenhos super bonitos na edição original, né? E aquele livro me puxou para esse abismo e nunca mais vou sair desse abismo. Então eu já fabulava.
Eu vejo hoje nas minhas filhas que elas também escrevem enquanto brincam. A Madalena fica fabulando, falando sozinha, inventando história, conversando ou então com boneco, uma fala, cria o diálogo da outra. E aí, quando eu aprendi a escrever, eu comecei a escrever diários, que foi se tornando um hábito. Do diário eu passei pro blog ali no começo da internet, na era de ouro da internet, que todas nós participamos — e eu acho que foi quando a gente se conheceu, inclusive.
BB:
Foi [pelo] blog, fotolog.
NP:
É, só podia publicar uma foto por dia, né? A gente era feliz e não sabia.
BB:
[Risadas] Nossa, lembra?
NP:
Sim. E aí foi que nasceu Az mulheres. Um amigo meu que é designer gráfico falou: “vai, faz um livro.” Aí eu pensei nesse, baseado num livro do Tim Burton, que é O triste fim do pequeno Menino Ostra e outras histórias. Aí eu comecei a escrever e aí comecei a ser convidada pra revistas, não sei o quê, e fui. Quando eu morei em Copacabana, quando eu vi eu tinha um livro pronto sobre Copacabana, eu escrevi sem saber que tava escrevendo um livro, entendeu? Porque eu escrevia no meu blog, registrando, fazia contos sobre Copacabana, né? Porque morar ali é um happening eterno. E é isso.
BB:
Você morou quanto tempo no Rio?
NP:
Acho que uns cinco anos.
BB:
E de lá você veio pra São Paulo direto ou teve alguma passagem por outro lugar?
NP:
Vim pra São Paulo. Passei um tempo em Buenos Aires e depois voltei pra São Paulo. Eu tô há dezenove anos em São Paulo.
BB:
Eu também, dezenove anos.
NP:
É, a gente veio meio junto, né? 2007.
BB:
É, 2007. Natércia, eu tenho uma curiosidade de poeta e uma aflição também, que é: como é escrever um romance? Como que isso acontece? Como que isso acontece para você? Você planeja? Você vai escrevendo? Você faz como o Jocasta [personagem de Vida doçura], você separa em caixas? Como é que é essa loucura? Eu acho uma loucura escrever um romance.
NP:
É uma obsessão, né? Na verdade, é coisa de gente obsessiva. Você fica mergulhada na história, você sente ali o cheiro de uma história. O meu processo é meio de colagem, sabe? Eu vou capturando notas no ar. Me vem uma coisa: a Jocasta podia fazer isso, a Jovana podia fazer isso, e aí eu anoto e mando um e-mail pra mim mesma. Os tais caquinhos eu passei cinco anos escrevendo desse jeito, colhendo palavra por palavra. Eu acho que essa palavra tem que entrar no livro por causa da plasticidade sonora dela, entendeu? Eu era meio uma “coletadora” de palavras e imagens. E aí eu vou costurando, colando com coisas de outras pessoas também, tem muita referência. No Vida doçura tem diálogos do Persona, do [cineasta sueco Ingmar] Bergman, trechos da biografia do [bailarino russo Vaslav] Nijinsky. E aí eu vou construindo a história meio como se fosse uma colagem numa cartolina mesmo.
Mas é um um processo muito… Cada livro tem o seu jeitinho, né? O Vida doçura eu escrevi em três meses. Pois é, e foi muito tempo de edição, porque tava uma porcaria, tava muito louco. Tinha o gato e também o gato se chamava Érico, pra fazer uma brincadeira com Édipo. E tinha um monstro, Argus Panoptes, que era o narrador da história. E aí a Alice [Sant’Anna, editora de Vida doçura], felizmente, cortou essa maluquice. A gente foi dando forma muito na edição também, que também é parte da construção de um romance, muito importante, um livro não é todo do autor, ele é de muita gente. Na verdade, antes de ser escrito e depois de ser escrito mais ainda porque quando o leitor lê ele que completa os buracos, os vazios e constrói as imagens com as próprias referências de vida e de tudo.
BB:
Interessante você falar dessa cata de palavras, essa cata obsessiva de palavras, essa cata de imagens, porque isso me lembra muito os procedimentos da escrita do poema. Pelo menos isso diz muito do que é o exercício da composição do poema para mim. É você pegar aquela palavra, valorizar ela, guardar e dar um jeito de enfiar ela no livro e, às vezes, é escrever um texto só por causa de uma palavra, né?
NP:
Exatamente. Eu opero parecido.
BB:
É um amor obsessivo pela palavra, né? Uma vontade de saudar.
NP:
Sim, de botar uma moldura nela, né?
BB:
Exato. E eu acho que isso está muito claro nos seus livros, porque nos seus livros eu encontro palavras que eu não costumo encontrar em outros livros, então que bom que você me esclareceu. E você falou que Jocasta pediu tal coisa, Jocasta personagem. Acontece mesmo isso? O personagem fala dentro de você? Fala com você? Pede coisas? Nega coisas?
NP:
Quando eu estou construindo um romance, eu fico trabalhando 24 horas nele, o tempo todo. Indo buscar minhas filhas no colégio, dando jantar, não sei o que. Aí, alguma fala, uma palavra ou então alguém me conta uma história. Por exemplo, a cena do cotonete que ela enfia no ralo foi uma história que me contaram. Eu roubo, a gente é muito ladrão também, né? Da vida e da história dos outros, e da sua própria história, principalmente. Então, eu vou coletando. Me vem a imagem da Jocasta na banheira descascada, fumando, ou no espelho tripartido. E aí eu mando uma mensagem para mim: “Jocasta no espelho tripartido”. Aí a partir dessa frase, quando eu vou botar no Word para escrever — porque eu não escrevo no Google Docs, parece que só eu escrevo no Word no mundo.
BB:
Eu também. Eu sou contra o Google Docs para escrever livro.
NP:
Nossa, tenho um horror. Imagina alguém mexer, aquela interferência, é muito louco. E aí eu vou como uma massa de pão, eu vou tirando da frase e vou construindo a cena, entendeu? Você vai puxando, repuxando.
BB:
Dá pra ver que você tem um cinzel mesmo, que você vai modelando as cenas e modelando os personagens, os diálogos. Que bonito é isso. Eu sinto muito isso quando leio os seus livros, que a narradora ou as narradoras, as personagens, elas estão muito próximas da vida que elas levam dentro do livro. Então, eu vejo essa autenticidade, e essa… Ah, tem uma coisa muito viva nas coisas que você escreve. Você pensou o Vida doçura como um romance de personagem? Você construiu as personagens antes? Como é que foi?
NP:
Não, elas foram se fazendo. Eu tinha esse díptico, a Jovana e a Jocasta, eu queria eu queria falar sobre o luto da minha mãe e eu queria fazer um thriller. Essas três coisas, as três massinhas que eu peguei primeiro, e aí a partir daí você vai construindo ao longo do livro. Ali na página trinta já tem um personagem, já tem um jeito, já tem um cacoete, já tem uma coisa e você vai repetindo. Eu aprendi muito isso fazendo roteiro. Antes de fazer esse livro, eu trabalhei um ano em um roteiro pra uma série que acabou que não foi pro ar. E aí, eu aprendi muito sobre construção de personagem e toda os bizus de gancho, como é que fala? Easter eggs, essas coisas assim, essas técnicas de thriller. Porque a série que a gente estava fazendo era um thriller, e é uma loucura fazer série, porque você começa a construir uma história com várias pessoas falando numa sala, é muito diferente da experiência solitária que é escrever um livro, ou um poema. E eu trouxe muito dessa experiência para o Vida doçura. Eu acho que eu não teria sido capaz de escrevê-lo sem ter sido roteirista de uma série.
BB:
A experiência coletiva da escrita que é trabalhar com audiovisual é chocante. “Nossa, agora eu tenho que escrever aqui duzentas páginas com outras pessoas?” Mas é um aprendizado profundo, né?
NP:
Profundo. E um exercício de humildade, né? Porque o escrito é muito egóico. Aí você fala uma coisa e aí a outra pessoa: “não, isso tá uma merda.” E aí você tem que calar a boquinha e pensar em outra coisa. Certo que você ainda acha bom, mas ninguém achou, enfim. Tem que botar o ego de lado.
BB:
É, mas eu acho que esse chega pra lá na solidão, de escrever em grupo, é muito bom também, porque enquanto o processo tá rolando, você ouve o que você escreveu na boca das outras pessoas e não necessariamente aquilo vai vingar, né? Então é como escrever um livro numa praça, num lugar aberto.
NP:
Na areia, né? E o mar vai apagar.
BB:
Você escreve todo dia, Natércia?
NP:
Não. Eu anoto todo dia, praticamente todo dia. O Vida doçura é o segundo volume. Eu percebi que era uma trilogia com o Vida doçura mesmo. Na verdade, foi uma amiga minha que falou: “é uma trilogia, né, Natércia?”. E aí, eu falei: “é”. E aí me veio essa história que ela, com a leitura maravilhosa que fez do livro, me deu essa ideia de chamar “trilogia da desordem”, né? Porque assim, tanto Os [tais] caquinhos quanto o Vida doçura e o meu próximo livro, que vai se chamar A bastarda magrinha, eles questionam a ordem das coisas, entendeu?
E eu acho interessante que ela e outras pessoas já falaram que a minha escrita é queer, que é uma escrita que questiona o modus operandi de viver, a rotina, no caso do Vida doçura, e também de Os tais caquinhos. Como é que aquele pai vivia no lixão com duas adolescentes, mas existia um amor e uma cumplicidade ali? No Vida doçura, também existe um amor que vai sendo construído dentro daquele apartamento horrível da Jocasta e também daquela limpeza horrível, né? Que a minha amiga falou: “com cheiro de Veja Ultra Light Lemon”. Você sente o cheiro de excesso de produto químico na casa da Jovana, né? Então, assim, é esse questionamento. Porque é na repetição do gesto que a gente vai vivendo, né? E sendo quem se é, né?
BB:
É, e n’Os tais caquinhos, eu sentia aquele apartamento, eu sentia aquele entulho, sentia tudo aquilo. E agora no Vida doçura, na kitnet da Jocasta, quando você descreve os cinzeiros, a pia, a sujeira, dá pra ver assim, é uma coisa pintada. E tem algo mais interessante, Natércia, que eu sinto como sua leitora, é essa permissão da desordem.
Por exemplo, eu traduzi O primeiro homem mau, da Miranda July, que é o primeiro romance dela, e ela cria umas táticas, por exemplo: “vou ao banheiro, então eu vou levantar uma vez só. Quando eu voltar do banheiro, eu pego a xícara e boto na pia para economizar um trajeto”. E ela mora sozinha, ela dá carona para os objetos. Ela fala: “não vou levantar daqui para pegar um cinzeiro. Então, quando eu for ao banheiro, eu volto com o cinzeiro”. E a personagem, que também morava sozinha, ela tinha, sei lá, um garfo, uma faca, um copo para não ter que sujar nada.
Lendo o Vida doçura da semana passada pra cá, eu tava usando muito a tática da Miranda July, que é: “quando eu voltar do banheiro eu esvazio o cinzeiro”. Lendo o Vida doçura eu falei assim: “não vou esvaziar o cinzeiro, vou conviver com essa imagem apodrecendo aqui na minha frente, no copo de geleia”. Eu amo a imagem do copo de geleia porque é um copo clássico, eu não sei se você ainda tem na sua casa.
NP:
Da geleia de mocotó?
BB:
É.
NP:
Não tenho em casa, mas sei qual é. É um objeto muito simbólico do Brasil, assim como aquele prato meio alaranjado de vidro.
BB:
Duralex.
NP:
O Duralex. Faz parte… O cachorro caramelo. Faz parte desse museu.
BB:
Memorabilia.
NP:
Memorabilia, exatamente.
BB:
Tem uma memorabilia que a gente só encontra nos seus livros. E no Vida doçura pra mim foi a maior surpresa de todas, porque você menciona o perfume de alfazema Garrão, me conta a sua história com o Garrão.
NP:
Então, o perfume… Eu gosto muito de misturar ficção em realidade — todo escritor faz isso, claro —, mas eu gosto muito de que fique meio visível onde é a ficção e a realidade, pra mim. E alfazema Garrão era o perfume preferido da minha mãe. E eu soube porque eu li uma entrevista que fizeram com ela e ela disse isso. Aí eu comprei alfazema Garrão pra sentir o cheiro dela. Foi melancólico, assim, mas foi bonito. Tá acabando o vidro, eu uso de vez em quando.
BB:
Eu uso também, eu tenho na minha casa, minha mãe usava e usa ainda. E eu queria te dar uma notícia, que o Garrão agora se chama Carrão, com C.
NP:
Sim, sim, tem toda uma questão, eles roubaram, né? Eu vi no Mercado Livre, eu comprei o Carrão, exatamente. Será que é uma coisa de mãe dos anos 80? Deve ser, né?
BB:
Pode ser, pode ser. Mas é muito específico, porque eu já falei desse perfume com muitas pessoas e elas conhecem aquela alfazema tradicional verde, né?
NP:
Que tem uma moça numa montanha, né?
BB:
É, mas o Garrão é muito específico.
NP:
É, era o cheiro da minha mãe e da tua.
BB:
Vamos falar, então, das personagens do Vida doçura, que é um livro dividido em três partes, né? “Tela”, “espelho” e “lente”. E ao longo de todo o livro eu percebo esse jogo entre esses três objetos. E o livro que a Jocasta escreve, que é de contos, ele se divide em “criança”, “bicho” e “montanha”. E a certa altura você menciona o “coração”, que é uma outra espécie de caixa, de buraco, de vazio. E esse livro se chama O mundo é falso ou Tão Real?
NP:
O mundo é falso veio de uma esquete da TV Pirata, que foi escrita pela Laerte, que era com o Diogo Vilela. Ele chegava em casa e falava: “oi, mãe”. É um adolescente. “Filho, eu tenho que te contar uma coisa: na verdade, eu sou o leiteiro”. Aí a tia é não sei quem, aí a casa cai. “Mãe, o mundo é falso”. E eu, quando vi isso, criança, aquilo me… Nossa, foi… Aquilo — odeio essa palavra — me atravessou como uma facada. Porque eu achei de uma tristeza absurda, não conseguia rir, entendeu? Eu achei muito triste. E Tão real é uma música do Jeff Buckley, So real, que eu adoro ele. É, tem até uma referência a ele de um guitarrista que morreu no Rio Mississippi, né? Porque ele morreu assim e aparece no Vida doçura em algum momento. Uma coisa cifrada que eu coloquei.
BB:
E além do Jeff Buckley, tem o Nirvana, tem o Kurt Cobain. Tem muita música no Vida doçura, né? E nos Caquinhos tinha também.
NP:
Nos Caquinhos também. Porque, na verdade, eu sou uma roqueira, né, Bruna? Que não sabe tocar instrumento, eu só posso escrever, então… Eu sou uma roqueira, eu acho a música maior das expressões.
BB:
Eu acho também.
NP:
E depois vem teatro e a poesia, assim, pra mim, nessa ordem. E… Mas é isso, eu vivo de músicas. A Letícia, Letrux, nossa amiga amada e querida, lançou agora um disco com uma música que fala assim: “eu presto atenção na letra, mas eu quero ouvir a letra.” Eu sempre ouvia a letra das músicas, porque também meu pai era compositor do pessoal do Ceará, e ele cantarolava muitas músicas em casa, umas músicas de brincadeira, umas canções de ninar que ele inventava muito bonitas, que eu canto até hoje para minhas filhas. Então eu sempre fui assim, é o meu lugar a música, sabe? Junto com o teatro porque minha mãe era atriz de teatro, e eu ia criança, assistia os ensaios, ficava vendo o teatro vazio, depois o teatro cheio, e tive todas essas duas experiências de pai e mãe, um com a música e outro teatro. Então, eu fico no meio porque eu tive muita sorte em ter essas referências na vida. Mas a música é o que é universal, é muito bonito a música, é uma expressão de uma das coisas mais bonitas que o ser humano já fez, e muito antigo… Talvez a primeira? Não sei direito.
BB:
E muito completa, né? Porque a fruição da música é muito completa. Se você senta pra escutar um disco, que eu acho que é algo que as pessoas não fazem tanto hoje em dia, mas sentar só pra escutar um disco sem ficar no celular ou sem…
NP:
Eu faço isso também, ninguém faz mais, ninguém escuta a música até o final. É um horror. A gente tá parecendo aquelas: “o meu tempo é que era bom!” [Risadas] Mas sim, eu gosto porque eu vejo o disco como um livro. Inclusive a ordem das músicas, as letras, tudo. Quando criança, eu botava o vinil pra tocar e ficava lendo “Stairway to Heaven”, e aprendi, até hoje eu sei cantar, eu cantava meio com inglês macarrônico.
Na casa do meu avô tinha uma coleção de vinil imensa, então eu fui apresentada a Marina Lima muito cedo, Baby Consuelo, Cazuza, Legião Urbana, Led Zeppelin, Black Sabbath, Ozzy Osbourne, Iron Maiden, Metallica, Geraldo Azevedo, Sivuca, tudo assim. Quando eu ia para Brasília era isso. Quando eu estava em Fortaleza era o pessoal do Ceará ali, o Rodger, o Ednardo, Fagner, Belchior, Amelinha. Então eu acho que é isso. Eu sou uma roqueira frustrada e por isso eu escrevo, porque eu não sei tocar nenhum instrumento e eu canto péssimo.
BB:
Natércia, eu tenho duas curiosidades. No começo do episódio, eu li um trecho do seu livro, que é um trecho que se repete na maior parte do livro que é a fala da youtuber, a Jovana, nos vídeos que ela faz cotidianamente. E eu, claro, entendo a personagem youtuber, eu entendo qual é a existência dela na história e na sociedade, mas eu fiquei pensando que esse trecho, ele é uma espécie de refrão do Vida doçura.
NP:
Olha que bonito. Pai, fiz um refrão, olha aí, sei fazer música também. É, eu usei como um elemento meio enlouquecedor, né? Porque a obsessão dela, você começa a não querer mais ler, muita gente começa a pular. Eu, nas milhões de edições, já pulava essa parte, porque ela era pra marcar uma obsessão enlouquecedora ali da Jocasta, aquelas frases sendo repetidas todos os dias, todas as horas.
E as youtubers, que são essas tradwives, que é uma coisa que existe, é um nicho imenso que existe dentro e fora do Brasil. No Brasil, principalmente na classe C. Eu descobri quando eu estava tentando engravidar, que era um universo de “tentantes”, era o nome, tinha fóruns e o YouTube, que nos anos 2000 tinha a qualidade péssima. E as pessoas começaram a gravar as próprias vidas, mostrar a própria casa, a própria rotina. E aí você vai angariando seguidores e ganha dinheiro com isso. Então eu comecei a acompanhar a vida de várias youtubers nessa época. E vendo-as engravidar, o filho nascer, o filho aprender a ler, o filho falar, se separar, mudar de casa, não sei o que, ficar rica. Tem umas que ficam muito ricas, porque ganham um milhão de seguidores, entendeu?
E elas são muito limpas e tem essa coisa de limpeza, de mostrar um ambiente sujo, o antes e o depois. E aí elas dão dicas e mostram a louça que elas compraram na Havan ou na Shopee. Enfim, é um universo muito maluco e que é gigante. São pessoas que têm um milhão de seguidores, 500 mil seguidores. E elas sustentam uma vida, compram um carro, botam o filho na escola particular. Revolucionam mesmo, é um fenômeno. E eu achei muito interessante, eu quis usar isso porque pra mim aquilo não era arte, mas era um lugar onde eu podia pescar arte, entendeu? Tinha várias cenas que eu assistia e que eu achava bonito. Como se fosse um filme de arte, e eu acho que é por isso que a Jocasta fica obcecada também, pelo mesmo motivo que eu fiquei.
BB:
No seu livro a gente assiste a vida das duas, né? Em paralelo a gente assiste a pessoa que assiste a vida de alguém que acompanha a vida de alguém, que vive em certa medida a vida de alguém.
NP:
É o espelho tripartido.
BB:
O espelho, a lente.
NP:
É, mais ou menos, a divisão dos três. É um díptico, é um tríptico, é um… Não sei como é que fala quadri… Tipo, não sei. Mas…
BB:
Quadriciclo. [Risadas]
NP:
Quadriciclo. E é isso, eu queria marcar essa coisa meio janela indiscreta porque essas pessoas ganham seguidores pelo mesmo motivo que a gente assiste Big Brother ou vê o Instagram de alguém, o mundo virou meio isso, assistir aos outros performarem vida, performarem cotidianos, performarem a própria existência.
BB:
E tem uma outra [dúvida], falando em descrição, enquanto a Jocasta escreve O mundo é falso ou Tão real na máquina ou no laptop, a gente acompanha os textos que ela escreve, nós somos leitores, leitoras também do livro que ela está escrevendo, então a gente lê todo o livro sendo feito ao longo do Vida doçura.
NP:
É um livro dentro do livro.
BB:
Mas, na página 95, a Jocasta está escrevendo, “desta vez”, citando seu livro, “descabelada como um diretor de teatro”, um texto chamado “Espadas”. Esse é o único texto que a gente não lê no Vida doçura.
NP:
Tem outros também.
BB:
Tem?
NP:
Tinha vários, você não tem noção. A Alice [Sant’Anna] cortou milhões.
BB:
Mas o que restou é o “Espadas”.
NP:
Tem um que é um conto que nunca existiu, porque ela perdeu as notas. Tem um do Jimi Hendrix também, que é só o nome do Jimi Hendrix.
BB:
Mas o “Espadas”foi o que me marcou, foi o que eu pesquei, eu falei: “ué, cadê o ‘Espadas’?”.
NP:
Mas tem outros, logo no começo tem um: “ela escreveu um conto chamado tal e botou na caixa tal”.
BB:
Mas o “Espadas”, ele existiu ou ele existe?
NP:
Existe. Eu tenho milhões de contos, Bruna. Tenho muitos contos. E aí uma amiga minha até deu uma ideia que eu achei o máximo, de pegar uma editora artesanal mesmo e fazer o livro da Jocasta. Pequenininho, assim, acho que ia ficar legal.
BB:
Por favor, faça. No final, a gente tem aquele… solilóquio. Será que eu posso chamar de solilóquio?
NP:
É, tem gente que chama de oração.
BB:
Oração. Não vamos dar spoiler, mas eu li em voz alta e, cara… Eu engasguei, chorei, engasguei, fiquei… Te xinguei um pouco.
NP:
Eu tô emocionada agora, Bruna. Eu também chorei escrevendo esse trecho. Acho que foi a primeira vez que eu chorei escrevendo na minha vida.
BB:
Nossa, é lindo demais.
NP:
Muitas pessoas me escreveram dizendo que ou chorava na abertura ou no fechamento.
BB:
Você pode botar esse solilóquio numa garrafa um dia, numa garrafa biodegradável, e jogar ao mar, porque daqui a cem anos ele encontrará alguém e fará essa pessoa feliz.
NP:
Ou fazer ela chorar, né? Coitada. Mas chorar é bom, eu gosto de chorar. É bom, organiza a gente. Escrever também organiza, né?
BB:
Sim. Às vezes eu acho que a vida é um conjunto de tentativas de organização. E eu acho que seus livros questionam isso também, né?
NP:
Sim. Porque a vida fica insuportável com o excesso. Fica impossível com o excesso. Porque não dá pra organizar a sua vida, você não sabe nem se tá vivo amanhã. E também com o desleixo ela fica insuportável, né? Então você tem que… tem esses dois polos, né? A Jocasta e a Jovana. É uma grande questão da minha vida mesmo, pessoal. Porque eu tenho cinco planetas em virgem, eu sou super organizada. Mas como você vê aqui, né? Olha como tá o meu escritório, tá uma zona. E aí um dia eu acordo, que nem a Jovana, arrumo tudo de forma obsessiva, com Veja flash power lemon, limpo tudo. Três anos se passam, aí eu faço isso de novo. Mas porque a história da minha vida não teve uma trajetória organizada, sabe? Eu perdi minha mãe, como a Jocasta, muito cedo e da mesma maneira.
Minha mãe cometeu suicídio, mas eu tinha nove anos, a Jocasta tinha sete. E o meu pai era uma pessoa muito suis generis, como eu falei, minha casa não tinha sofá, era uma loucura. A gente vivia no meio da desordem, mas existia uma ordem primordial de afeto que sustentava todo esse lixo, essa desordem, entendeu? E crescer sem mãe também é uma coisa que desorganiza uma mulher, principalmente. Então, assim, minha vida foi muito caótica, o começo da minha vida. E agora, perto dos cinquenta, eu vejo uma calmaria, sabe? Uma ordem nas coisas. Então, eu tenho esses dois pêndulos em mim. Sempre procurei ter uma vida estável e organizada. E eu encontrei isso na literatura, escrevendo, me organizando na escrita.
BB:
Para fechar, queria perguntar uma coisinha a mais. Em todos os seus livros, mas como a gente está falando mais do Vida doçura, um livro duríssimo, um livro triste mas muito bem humorado, a sua escrita ela sempre pendula. Às vezes num parágrafo você é muito tragicômica, acho que esse é um traço da sua escrita, um traço raro na literatura. Você se vê assim? Você se considera uma escritora tragicômica?
NP:
É o que sempre dizem.
BB:
Eu achei que eu tava sendo original.
NP:
Na verdade, eu também cresci rodeada de pessoas muito engraçadas. Minha mãe era uma pessoa muito engraçada, minha irmã é uma pessoa muito engraçada, eu não sou necessariamente engraçada, mas escrevendo eu consigo ser engraçada.
BB:
Você é engraçada sem perceber.
NP:
Ah, é? É o melhor tipo de gente engraçada, eu adoro. A minha sogra é assim. Eu adoro humor, rir, eu adoro Hermes e Renato, besteirol, Os Trapalhões…
BB:
TV Pirata.
NP:
Monty Python, tudo. O humor foi muito… Eu tive uma educação muito fina do humor no meio dos destroços, que foi o começo da minha vida. Ria-se muito na minha família, meu pai era muito engraçado. A gente estava na sala, de repente ele chegava pelado e começava a dançar o xote chato que ele inventava, que esse xote é muito chato, sabe? Uns absurdos… Eu tenho amigos muito engraçados, como você, que é hilária. A Letícia também, o Arthur… Eu acho que o humor é um dos maiores presentes de se estar vivo. O humor e o amor, essas duas coisas. Eu sempre me apaixonei por homens engraçados e gosto de estar rodeada de pessoas engraçadas, eu adoro rir. E o humor, pra você ser engraçado… Não estou dizendo que eu sou inteligente, mas para ser engraçado, se exige uma inteligência bem específica e difícil de achar.
BB:
Eu acho que é a glória do ser. Se a gente pode dizer assim, o que é alcançar a plenitude do ser? Eu acho que é exercitar o humor, viver o humor, praticar o humor. Isso para mim é o ponto alto da existência.
NP:
Concordo, absolutamente concordo.
BB:
Que delícia conversar com você, Natércia. Mais quantos anos agora eu tenho que esperar para o terceiro volume da série? Nem esperei tanto de Os tais caquinhos para o Vida doçura…
NP:
Então, não sei, não tenho a menor ideia. Eu tenho muitas notas. Eu sei que história que eu vou contar, mais ou menos. Mas ela pode ir mudando, porque sempre muda no meio do caminho. Eu tenho um livro de contos prontos, então pode ser que saia um livro de contos — se a Alice quiser, tô aqui chantageando ela — que se chama Avalanche de biscuit, que são contos como os da Jocasta, contos curtos, parecido com Copacabana dreams, contos de uma uma frase só, contos curtos.
E eu também tive uma experiência… Eu sou horrível de falar em coisas públicas, porque eu falo das minhas intimidades, como se fosse… É um horror, gente, desculpa. (Sabia que tem gente que tem fobia de intimidade alheia? É uma coisa muito específica, mas é.) E aí, eu fui num terreiro de candomblé, ano passado, nunca tinha ido na minha vida, e aí eu comecei a escrever poesia, e eu tô com um livro de poemas, todos ruins, mas assim, tem gente que gosta, que acha bom, e sempre me falaram que a minha prosa é poética, e a minha poesia, o meu poema, é “prosudo”, entendeu? É meio misturado. Então, não sei se eu vou… Teve uma editora do Ceará que se interessou em publicar esse livro de poesia, que já está pronto.
BB:
Publica, Natércia.
NP:
Tá, você faz o prefácio?
BB:
Faço.
NP:
Aí sim, agora vai.
BB:
Combinado. Então, o volume três na minha mesa ano que vem, tá?
NP:
Tá, combinado.
BB:
Adorei, Natércia, obrigada. Sucesso pro seu livro, sucesso pras suas notas e pra sua escrita, sempre.
NP:
Pra você também, querida. Você mora no meu coração.
PW:
E antes de me despedir, eu queria passar para o quadro do 451 MHz, que traz o melhor da literatura LGBTQIA + de todos os tempos. LGBTQIA + significa lésbicas, gays, bissexuais, trans, queer, intersexuais e assexuais. Nesse quadro, a gente convida autores e grandes leitores em geral para indicar os livros que foram marcantes, as leituras recentes e outras dicas literárias LGBTQIA + imperdíveis para todos os leitores.
A dica de hoje é estrelada, da Rita Palmeira. Ela é editora, crítica literária e a curadora da Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty, que esse ano vai acontecer de 22 a 26 de julho. A Rita indicou aqui para o 451 MHz o livro de memórias Na casa dos sonhos, da escritora americana Carmen Maria Machado. O livro foi publicado no Brasil pela Companhia das Letras em 2021 na tradução da Ana Guadalupe.
Rita Palmeira
Nesse livro, que mistura gêneros como memória, ensaio e romance, a Carmen Maria Machado conta a história de um relacionamento abusivo vivido por ela numa relação com outra mulher. É um livro desses que você não larga, e isso muito pela construção da tensão, que é feita de um modo muito inteligente e habilidoso, e também pela história, que impressiona por essa violência contida numa relação entre duas mulheres.
Eu li esse livro mais ou menos na época em que ele foi lançado e eu me lembro que eu fiquei muito impressionada, provavelmente porque, ingenuamente, até ali eu acreditasse que os relacionamentos abusivos fossem mais comuns às relações heteroafetivas. E a Carmen Maria Machado mostra isso, os relacionamentos abusivos atravessam fronteiras de gênero e a violência psicológica ou física pode estar em qualquer lugar. Eu recomendo esse livro, é um livro duro pela matéria narrada, mas ele é muito bem escrito e perturbador, que é tudo que a gente espera de boa literatura.
O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Identidade sonora: Guilherme Granado e Mario Cappi
Apoio: Ministério da Cultura
Para falar com a equipe: [email protected]
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