Urbanismo,

Uma metrópole entre a política e os negócios

Raquel Rolnik enxerga São Paulo como um território em disputa, no qual as decisões não são tomadas em benefício da coletividade

15nov2018 - 15h42 | Edição #8 dez.17-fev.18

Em 2001, pediram-me uma fotografia para ilustrar a capa de um livro da coleção Folha Explica, dedicado a São Paulo. Quando, dias depois, recebi aquele livrinho tímido, fiquei logo desconfiado: como seria possível explicar São Paulo em tão poucas páginas? Como fazer para caber ali uma metrópole de 20 milhões de habitantes, com todos seus problemas, dramas e desejos?

Pois aquele livrinho se saía incrivelmente bem no papel a que se propunha, e se tornou uma das melhores introduções para quem quisesse saber como e por que essa cidade é o que é. Portanto, é mais do que bem-vinda essa nova publicação da urbanista, professora e ativista Raquel Rolnik, que atualiza e amplia aquele texto. Além dessa atualização, Território em conflito – São Paulo: espaço, história e política traz ainda uma série de artigos e colunas publicados na imprensa escrita e eletrônica e quatro textos de cunho mais acadêmico.

O livro é uma espécie de compilação da produção recente da autora, fruto das diversas frentes em que atua. Ao alternar textos longos e curtos, análises profundas e comentários feitos ao calor da hora, apresenta uma estrutura fragmentada, mas que se adequa ao objeto da análise. Afinal, o que pode ser mais fragmentada do que a própria experiência de se viver numa cidade como São Paulo? O que é esse território gigantesco senão um palimpsesto onde se acumulam as mais diversas experiências materiais e humanas? A cidade, como diz a autora, é “produto de milhões de ações individuais e coletivas das gerações que nela investiram seus projetos de vida”. Nesse sentido, esperar da cidade (e do livro) uma forma coesa e harmônica é negar o que se tem diante dos olhos.

Território em disputa

Alternando análises técnicas e observações pessoais, a autora foge do veredito simplista que reduz a cidade à sua condição “caótica”. Dizer que a cidade é caótica é fácil, o duro é enfrentar a complexidade que gerou essa sensação — e é justamente isso o que faz Rolnik. A urbanista enxerga São Paulo não exatamente como uma cidade no sentido comum, mas como um território em disputa, cuja configuração social e espacial é resultado direto de uma série de decisões políticas tomadas em momentos fundamentais de sua história. E, se a cidade apresenta problemas profundos de desigualdade e injustiça, é porque essas decisões, na maioria das vezes, não foram tomadas em benefício da coletividade.

São Paulo reflete o embate entre duas percepções: os que têm consciência da cidade como “coisa pública” e os que enxergam a cidade como negócio

Um exemplo: no início do século 20, a empresa The São Paulo Tramway, Light and Power Co. tinha o monopólio dos serviços de transporte, energia e telefonia, cedido pelo poder público. Além de controlar as tarifas, a empresa decidia como, quando e onde instalar melhorias na cidade, criando uma “parceria” com os empreendedores e inaugurando uma longa história de especulação imobiliária.

Esse tipo de relação promíscua entre poder público e privado é o grande agente de transformação da cidade. A autora demontra isso com clareza quando analisa o “legado” da Copa do Mundo, os contratos entre o governo estadual e as empresas do metrô, as disputas em torno do Plano Diretor, a crise hídrica e tantos outros assuntos áridos que muitas vezes não despertam o interesse do público em geral, mas que afetam a vida de todos.

O livro demonstra que São Paulo reflete o embate entre duas percepções antagônicas: de um lado, os que têm consciência da cidade como “coisa pública”, onde as decisões são coletivas e afetam a vida de todos; do outro, aqueles que enxergam a cidade como uma oportunidade de negócio. No meio disso está o poder político, que, no caso de São Paulo, sempre esteve mais inclinado a atender os interesses do segundo grupo. Por isso a aposta da autora (que também atuou nos governos municipal e federal e na ONU) na importância da “política pública” como principal instrumento de transformação das cidades.

Diferentemente do discurso que tem crescido no Brasil, onde a política é perigosamente demonizada e onde empresários passam a administrar cidades como São Paulo, Raquel Rolnik rema contra a corrente. Ela demonstra que aquilo de que realmente precisamos é mais política: “A forma de uma sociedade é a cidade e, ao construir a cidade, a sociedade constrói a si mesma”.

Quem escreveu esse texto

Tuca Vieira

É fotógrafo profissional e já atuou no MIS-SP e no Sesc-SP.

Matéria publicada na edição impressa #8 dez.17-fev.18 em junho de 2018.