Os atores Christine Tsingos e Georges Adet em montagem de Fim de partida no teatro Royal Court, em Londres (1957) (Daily Express/Hulton Archive/Getty Images)

Teatro,

Quase no fim, depois do fim

Crise existencial do Ocidente retratada em peça de Beckett dá estranhos caminhos para um mundo sem caminhos

01jun2026 • Atualizado em: 28maio2026 | Edição #106

O sentido de uma obra clássica costuma residir na sua capacidade de sobreviver a contextos bastante diversos, isto é, de produzir sentidos fora do mundo em que foi originalmente concebida e muito distante de seu público primeiro. Essa percepção levou muita gente inteligente a pressupor que determinadas obras apresentariam temas absolutamente universais, que, assim, tocariam qualquer ser humano, independente de tempo, espaço, cultura etc., porque todo público viria a se identificar com as cenas, personagens, afetos e convívios.

Nada mais enganoso.

Um clássico se mantém clássico por uma série de fatores possíveis, em geral combinados. Em parte, porque antecipa questões de seu tempo que perduram no futuro, como ecos e rastros. Em parte, porque pode vir a se tornar uma espécie de patrimônio incontornável de um povo: é o que acontece quando determinada obra se torna leitura obrigatória de vestibular, ou parte do cânone das conversas intelectuais, e sobretudo quando passa a ser uma influência recorrente de novas obras. Porém, em grande parte, porque, sem saber exatamente como, uma obra se abre para as mudanças do mundo e continua a lançar respostas que não são exatamente aquelas projetadas por quem a criou.

Isso quer dizer que um clássico não é eterno em si. Pelo contrário, ele vive em tempos distintos, envelhece, transforma-se e, portanto, pode morrer, ou ser esquecido. Isso não é um problema das obras. É, antes de tudo, um problema dos vivos.

No teatro do absurdo, o dramaturgo respondeu a uma falta de sentido quase apocalíptica

As obras que se mantêm são as que ficam mantidas precisamente porque conseguem mudar de sentidos diante de novos mundos; elas aceitam novas interpretações, novas leituras e encenações; elas agradecem quando são reeditadas, anotadas, traduzidas e retraduzidas, revisitadas e reinventadas. É talvez o caso de boa parte da obra de Samuel Beckett, décadas depois da sua morte. Um jovem clássico, por assim dizer. Se Drummond já escrevia “E como ficou chato ser moderno./ Agora serei eterno.”, chegamos a um tempo em que podemos abraçar um “clássico pós-moderno”, eterno enquanto dure, porque está vivíssimo agora.

Vamos dar rapidamente os dados biográficos mais importantes. Nascido na Irlanda em 1906, formou-se em literatura moderna antes de partir para Paris, em 1928, e ver o ambiente efervescente das vanguardas. Depois de algumas idas e vindas entre Dublin e Paris, em 1937 Beckett voltou de vez à França, onde passou por alguns acontecimentos marcantes: em primeiro lugar, um estranho lhe deu uma facada no peito, que quase o matou; em segundo, conheceu Suzanne Decheveaux-Dumesnil, que viria a ser sua companheira de vida; em terceiro, diante da invasão nazista, em 1941, ele se juntou à resistência, com os Maquis [grupos de resistência francesa]. É a partir daí que foi escrita a maior parte da sua obra em prosa e poesia, teatro, televisão, rádio e cinema, até sua morte, em 1989. No meio do caminho, levou o Nobel de 1969.

Diante da violência desmedida da guerra, da eficiência insuportável dos campos de extermínio nazistas e da ameaça nuclear contínua depois de Hiroshima e Nagasaki, que se desdobrava ao longo da Guerra Fria, Beckett deu novos contornos aos experimentos de vanguarda, bebendo em James Joyce e Gertrude Stein (entre outros), e, assim, passou a responder sistematicamente a uma falta de sentido quase apocalíptica (i.e. revelatória) em certos momentos, ou no que ficou conhecido como “teatro do absurdo”. É o que encontramos na espera sempre adiada de Esperando Godot (1952) ou na angústia imóvel de Dias felizes (1961). Também é o que vemos nos romances da sua trilogia do pós-guerra: Molloy (1951), Malone morre (1951) e O inominável (1953).

Escombros

Em todas essas obras, concebidas e finalizadas em pouco mais de uma década, a violenta crise existencial do mundo europeu é recriada em cenas de absoluta falta de sentido, profundos colapsos de comunicação e risos muitas vezes desesperados num esgar aporético. Tudo parece estar encalacrado, travado, sem saída, seja numa espera interminável, seja na confiança fatigada de que já não há mais nada a esperar. Por toda parte, a morte, como a vida, é a falta de sentido que dá sentido a ações automatizadas, esvaziadas, em que subjetividades nascem e se chocam perante um mundo em escombros.

É precisamente isso que encontramos em Fim de partida. Essa peça, central no teatro beckettiano, foi originalmente escrita em um ato, em 1954, depois refeita e reescrita algumas vezes, até sua estreia em 1957, em Londres, com o texto francês (Fin de partie), para em seguida receber uma autotradução para o inglês (Endgame). Nela, somos confrontados com um mundo mutilado, em que tudo parece estar à míngua (remédios, bicicletas, objetos em geral). Suas personagens estão igualmente amputadas em algum nível: o dominador Hamm é cego e paralítico (por isso está sempre sentado), bem como rancoroso, controlador e acomodadamente sarcástico; o serviçal Clov é coxo e nunca consegue se sentar para um descanso, parece não desejar mais nada e se resguardar numa melancolia com ligeiros traços de altruísmo; por fim, os pais de Hamm, Nagg e Nell, não têm pernas e vivem mutilados e imóveis dentro de latas de lixo. Como se não bastassem o cenário e as personagens, os diálogos são permeados de silêncios constrangedores, falas brevíssimas, repetições mecânicas e ecos que ameaçam esvaziar qualquer sentido do convívio. O fim da partida é tanto material como existencial e contamina a todos.

Xeque-mate

Nesse palco, a metáfora do xadrez para um fim de partida é precisa: Beckett escrevia uma espécie de tragicomédia absurda de seu próprio tempo, como se todos estivessem à beira do fim ou, mais provavelmente, vivendo diante de um xeque-mate civilizacional. Se em Esperando Godot a espera sempre se reiniciava diante de um fracasso pela não chegada de Godot (que claramente ecoa God, deus em inglês), aqui tudo parece estar montado já fora da lógica da espera ou da esperança. O fim está dado, ou se dando, como fica claro desde as primeiríssimas palavras da peça: “Acabou, está acabado, quase acabando, deve estar quase acabando”. Vive-se, afinal, entre o acontecimento terminado e o gerúndio daquilo que não termina de findar.

Fim de partida, como muitos textos e peças beckettianos, pode atingir novos públicos no presente, que trazem outros sentidos para o fim. Se, por um lado, as guerras promovidas pela Rússia na Ucrânia, por Israel em Gaza e no Líbano ou pelos Estados Unidos no Irã (para ficarmos em apenas três exemplos em evidência) podem recriar certo ar de guerra fria e de nova ameaça nuclear pairando sobre todos nós, por outro, o sentido de um fim vem se anunciando há mais tempo com a percepção incontornável do aquecimento global — com as mudanças climáticas galopantes, marcadas por tempestades, ciclones, furacões, secas e cheias, muito mais assíduos nos últimos anos —, bem como um fim de ordem econômica e política em termos globais.

É um fim de civilização que parece se anunciar, mas ele já não depende apenas de forças governamentais. A esse fim, as mudanças de comportamento das últimas décadas também podem ressignificar novos mundos: vemos, felizmente, como pautas de gênero, raça e classe foram capazes de revirar o status quo, deitando por terra valores tradicionais, o que pode parecer um verdadeiro “fim do mundo” para o conservadorismo, que se sente ameaçado.

Somos confrontados com uma paisagem mutilada, em que tudo parece estar à míngua

Em muitos aspectos, quando encontro pessoas queridas de lugares distintos, percebo que há um senso comum de que estamos mesmo no fim, durante ou depois de um fim, e de que precisamos encarar de frente a situação, precisamente pelo seu absurdo contínuo. A começar por não sabemos ao certo o que está chegando ao fim, nem se algo novo há de surgir, muito menos algo melhor. É nesse sentido que Beckett é um clássico também. Porque dá estranhos caminhos para um mundo sem caminhos que ele mesmo não viu nascer.

Daí a importância de termos novamente em mãos a tradução de Fábio de Souza Andrade, professor na Universidade de São Paulo (USP) e um dos maiores especialistas em Beckett no Brasil. A tradução foi originalmente publicada pela Cosac & Naify, em 2002, e agora volta a ser editada pela Companhia das Letras, quase um quarto de século depois, no momento em que uma nova encenação está em cartaz em São Paulo, com direção de Rodrigo Portella e atuação de Marco Nanini, Guilherme Weber, Helena Ignez e Ary França, usando como base textual a tradução de Andrade.

Essa chegada dupla, na forma de livro e de peça, nos dá a dimensão de Samuel Beckett como um nosso contemporâneo, um companheiro de resistência ou um articulador do absurdo. Seja como for, é uma alegria ter esse clássico para encarar os fins por vir.

Quem escreveu esse texto

Guilherme Gontijo Flores

Poeta, tradutor e ensaísta, escreveu Brasa enganosa (Patuá), l’azur blasé (Kotter/Ateliê) e carvão : : capim (Editora 34).

Matéria publicada na edição impressa #106 em junho de 2026. Com o título “Quase no fim, depois do fim”

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