Teatro,
O mito fundador da decolonialidade
Primeira peça de Aimé Césaire, E os cães se calaram transborda conceitos universais com poesia e simbolismos
01nov2025 • Atualizado em: 31out2025 | Edição #99É “no báratro dos terrores, vasta prisão coletiva, povoada por negros candidatos à loucura e à morte” que se ambienta a peça E os cães se calaram. Enquanto a cortina sobe lentamente, segundo a indicação do texto, ouvimos o eco que dá o tom do espetáculo: “É claro que o Rebelde vai morrer, a maior razão é que não há mais nada a fazer neste universo inválido”.
Sombria e simbolista, foi a primeira peça escrita pelo autor e político martinicano Aimé Césaire. Publicada pela Gallimard em 1946, tinha formato de oratório lírico, integrando uma coletânea de poemas de Césaire. Dez anos depois, quando o tradutor Janheinz Jahn quis publicar a obra em uma antologia na Alemanha, eles trabalharam juntos para adaptar o oratório em um formato de drama radiofônico, que ajudaria a divulgar o autor.
Quando a edição alemã é publicada, a peça já tem uma nova estrutura, pensada para palco, com três atos, e um anúncio de que em breve seria lançada na França, em edição idêntica. Porém, a edição de 1956 da Présence Africaine é uma terceira versão, distinta, apresentada pelo autor como “tragédia, arranjo teatral”. É esta versão, tida como a definitiva, que agora é lançada no Brasil.
Ao longo dessas versões, Césaire remove as âncoras de identificação da ação e das personagens, caminhando para uma possibilidade de universalização da trama. O drama histórico dos anos 40 entregava sua referência à Revolução haitiana e à morte de seu mártir, Toussaint Louverture. Já a versão dos anos 50 tem seus personagens transformados em ideias e arquétipos. O protagonista é o Rebelde, que interage com Energúmeno, Louca, Amante e Mãe, entre outras figuras sempre sem nome, mas com uma identidade compartilhada que é o centro do trabalho de Césaire: a decolonialidade.
Na peça, o Rebelde e a sua morte não falam explicitamente do Haiti e de sua independência, mas da escravização dos povos africanos, da luta contra a colonização e as suas lideranças. Também vemos em cena alguns dos dominadores, mas sua participação é restrita à ilustração do pensamento colonial. O Grande Procurador vai nos dizer “Meu nome é Descobridor, meu nome é Inventor, meu nome é Unificador, aquele que abre o mundo para as nações!”, retomando o tom do Administrador, que logo no início da peça trata os rebeldes por ingratos: “Ah estamos sozinhos/ E que fardo!/ Carregar sozinho nas costas o fardo da civilização!”.
Morte anunciada
O Rebelde vai morrer. Ele sabe e entende a necessidade de sua morte. Quando é visitado pela Amante, quando tentam convencê-lo de que a causa pela qual ele luta pode ser colocada de lado, o que ele pede é “Mulher não me enfraqueça com palavras queixosas,/ hoje é um grande dia, me deixe grande coragem”.
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Sua morte anunciada é um novo nascimento. Seu legado está no movimento revolucionário. A ideia do enfrentamento para a criação de uma nação, ainda que aqui se inspire no Haiti, é, na verdade, um mito fundador da decolonialidade, entendido pelo viés da negritude — conceito que Césaire inaugura em 1935, em texto na revista francesa L’Étudiant Noir [O Estudante Negro].
O jovem Césaire deixa a Martinica e se muda para Paris em setembro de 1931, meses depois de completar dezoito anos. Na capital francesa, em convivência com outros estudantes negros, se dá conta do apagamento das raízes africanas na história dos territórios colonizados. O conceito de negritude aparece como resposta ao projeto francês dominante de assimilação cultural, que reforça o racismo da ideologia colonial, agora enfrentado pela valorização da África negra: rejeitando as identidades pós-coloniais separatistas e aproximando as experiências dos povos da África e de minorias negras de outros continentes.
O Rebelde negro que precisa morrer não é só Toussaint Louverture, ele é, mais propriamente, um mito fundador universal da libertação do colonialismo. Essa universalidade aproxima a peça da experiência do Brasil. Não só pela percepção de uma sociedade que convive com as feridas abertas do colonialismo, mas porque deflagra a branquitude dos mitos fundadores. Consciente dos riscos dessa assimilação, o Rebelde entende a importância do enfrentamento e da recusa à condição colonial e à de escravizado.
Consciente dos riscos da assimilação, o Rebelde entende a importância do enfrentamento
Nas outras peças de Césaire, vemos as dificuldades e os erros das concessões feitas nos processos de libertação, e o efeito, sempre trágico em seu teatro, dessas limitações. O Rebelde de E os cães se calaram, por sua vez, escolhe a morte frente às concessões. A violência do Rebelde responde à violência da escravização.
Depois veio o ataque à casa do senhor. […] É você, ele me disse, muito calmo… Era eu, era eu mesmo, eu dizia a ele, o bom escravo, o fiel escravo, o escravo escravo, […] eu bati, o sangue jorrou: esse é o único batismo de que me lembro hoje.
Seu orgulho e a defesa de sua luta se opõem a estratégias de anistia e pacificação: outro tópico que mantém atual o lançamento brasileiro do livro.
O Rebelde é um herói trágico como nenhum outro de Césaire. Porque sua morte é anunciada, aguardada e aceita, o autor pode avançar pelo interior da mente do condenado de forma ainda mais intensa do que encontramos em suas outras peças. A poesia é elemento essencial na tradução da situação mental do Rebelde que foi derrotado e que reconhece a importância de sua derrota, reforçando o aspecto de herói trágico. À espera da morte, as cenas que encontramos nessa prisão escorregam entre o dramático e o poético.
Mesmo sem a montagem cênica, a partir da leitura da dramaturgia é perceptível que a poesia abre caminho na peça para intrusões simbolistas. É quando “uma procissão da Idade Média africana invade a cena: magnífica reconstrução das antigas civilizações do Benin” que podemos vislumbrar, em meio ao terror do seu destino trágico, o valor maior da luta e da resistência do Rebelde: não especificamente pelo Haiti, mas contra o colonialismo e pela negritude. Não um drama histórico exemplar, mas uma tragédia de mito fundador.
Especial Atlântico Negro Francófono
Especial sobre livros de autores do Atlântico Negro Francófono lançados no Brasil em 2025 realizado com o apoio da Embaixada da França.
Matéria publicada na edição impressa #99 em novembro de 2025. Com o título “O mito fundador da decolonialidade”
