Linguagem, Os Melhores Livros de 2025,
Da cabeça aos pés
Passeando por palavras que designam partes do corpo humano, Caetano W. Galindo mostra a grande farra da etimologia viva
01dez2025 • Atualizado em: 30nov2025 | Edição #100É curioso resenhar um livro que eu mesmo — ainda que mui modestamente, com um discreto empurrãozinho numa noite meio fria de Curitiba — ajudei a nascer. Lembro que estávamos eu, Caetano W. Galindo e Felipe Hirsch numa pizzaria, numa das várias conversas embrionárias do que veio a se tornar a peça Avenida Paulista, da Consolação ao Paraíso, quando Caetano, mudando de pau para cavaco, contou sobre o seu projeto de pesquisa para a tese de titularidade na UFPR, em torno de James Joyce, que ele conhece como provavelmente ninguém neste país. O fato é que ele assumidamente estava hesitante e com outra ideia na cabeça — uma espécie de viagem pelo corpo em palavras do português brasileiro, para mostrar como, a cada vocábulo, vinha um mundo inteiro de outras línguas. Desconfio que ele precisava apenas de um sim, e nós dissemos “sim, vá com esse projeto”.
Hoje o homem está titular de facto; e a tese apresentada é, em parte, o livro Na ponta da língua: o nosso português da cabeça aos pés.
Quem por acaso desconhecia o nome de Caetano W. Galindo, tradutor mais-que-prolífico, estudioso doutor-pós-doutor de Joyce, contista e poeta — bom, quem fez a proeza de acompanhar literatura no Brasil e não ouvir esse nome certamente ficou sabendo da sua existência depois da publicação de Latim em pó (Companhia das Letras, 2022). O livro é um best seller fora de série no seu assunto e com méritos muito óbvios.
Galindo foi capaz de escrever, em pouco mais de duzentas páginas, um tratado de formação do português brasileiro — passando pelo protoindo-europeu, o grego antigo, o latim, o árabe, línguas do universo banto, germânico, semítico, indígena americano etc. — na escrita mais acessível e divertida que se pode imaginar. Poderia ser compreendido como típico trabalho de “divulgação científica”, o que não deixa de ser em parte; no entanto, é também uma sistematização clara, concisa e bem marcada do material e do estado da questão, feita com um cuidado erudito tão notável que não apenas atingiu em cheio uma massa de leitores leigos, como parou nas mãos de colegas da literatura, da tradução e da linguística, sempre soterrada de elogios.
O português que falamos hoje não é mais nem menos puro que o português de Camões no século 16
Latim em pó, depois de apenas três anos, ocupa o lugar de livro incontornável para todos que queiram saber um pouco do que é a língua que falamos majoritariamente no Brasil. Donde se pergunta: Na ponta da língua pode, portanto, ser lido como uma espécie de continuação, um Latim em pó 2: a missão? Para uma leitura desavisada, sim; para o movimento denso do pensamento, com certeza não, ou não somente.
É verdade que os dois livros, além de partilhar o simpático tamanho de bolso (11×18 cm), guardam uma unidade formal no design das capas, no assunto linguístico do português brasileiro (o “nosso português” dos dois subtítulos), no número de páginas e na linguagem ágil, aguda e leve que permite o convívio de curiosos e especialistas. Dito isso, uma leitura inicial revela que a abordagem dos dois livros é inversa (direi também avessa?) e complementar.
Mais Lidas
Em Latim em pó, Galindo organizou uma longa diacronia linguística que atravessava milênios, explicando a cada capítulo a importância de outra língua para a formação desta língua de Camões transplantada aos trópicos americanos, em aspectos de léxico, sintaxe, morfologia etc. Ali, cada universo chegava separado, de modo que apenas na conclusão entendíamos como, cada um a seu modo, estão todos vivos neste ser outro e metamorfo que é o português brasileiro. Da separação analítica, o livro caminha para “Uma língua, muitas línguas”, título do penúltimo capítulo.
Sincronia
Na ponta da língua inverte o caminho, porque parte da sincronia. Em vez de buscar cada universo separado das línguas anteriores dentro da nossa língua, Galindo escolheu fazer um passeio pelas palavras que designam membros e órgãos do corpo humano, para mostrar como, nesta pequena paisagem corporal, estão coligidas línguas e mais línguas, por vezes em derivas impressionantes e imprevistas até para professores e professoras de português. É a grande farra da etimologia viva. Vejam um trechinho das primeiras páginas:
Nós vemos palavras de origem latina que, para chegarem à forma que ostentam em português, acabaram sofrendo desvios que, via de regra, deixaram marcas nas formas que têm atualmente. Eu sei que chapéu fez uma escala na língua francesa antes de chegar aqui, porque é tipicamente francês o processo que transforma em ch um c inicial latino (cappelus), especialmente diante de uma vogal a. Sei que piano passou por Roma antes de chegar a Curitiba, porque é só na Itália que se dá a transformação do encontro latino pl (planus) em pi.
Claro que o buraco é bem mais embaixo, como Galindo vai demonstrar nas páginas seguintes, enquanto tenta — e consegue — “argumentar que toda a língua que nós falamos está ensopada de história”.
O caminho, ao fim e ao cabo, se torna um inusitado passeio pelo corpo: partindo da cabeça e descendo, por dentro e por fora, até chegar à sola dos pés. Um corpo só, feito de muitas histórias tensamente congregadas num presente sempre fluido, que dará noutros corpos e noutras palavras.
A conclusão disso tudo é que — sincrônica ou diacronicamente, em qualquer ponto do tempo e do espaço da nossa existência humana — não existe língua pura, como nunca haverá DNA puro ou raça pura. Tudo está em movimento, num processo de crioulização das línguas que, como já defendia o martinicano Édouard Glissant, é uma condição de todo-mundo. E uma afirmação desse quilate, assim entendo, não pode deixar de ter suas conclusões políticas muito singulares e fortes.
Tudo está em movimento, num processo que podemos chamar de crioulização das línguas
Galindo está nos dizendo, por um passeio orgânico pelos nossos órgãos, que o português que nós falamos aqui, hoje, não é mais nem menos puro que o português de Camões no século 16, que por sua vez não foi nem será mais puro que o latim falado em Roma no século 1 a.C., nem que o tupinambá da costa brasileira anterior à invasão lusitana, nem que qualquer outra língua já falada ou por falar. Toda língua está sempre já misturada de inúmeras outras, em qualquer parte, a começar pelos nossos corpos.
Não vá ninguém cair na esparrela de achar que Na ponta da língua seria um elogio cego ou ingênuo da mestiçagem, como um convívio harmônico e pacífico de todas as diferenças. Galindo deixa claro que existe uma história plural que molda cada língua e que cada história é permeada por relações de poder singulares, que traçam caminhos muito diferentes para a presença final de uma língua dentro de outra.
O português que falamos, o corpo que nomeamos, é resultado de uma política das línguas, sem esperança de retorno a uma origem única e pura. No entanto (ou por isso mesmo), nesse passeio, Galindo nos dá um corpo múltiplo para adorarmos, por ser uma só língua que nunca é igual a si mesma, por ser também um campo de batalha do amor e das guerras, da unha do pé até o último fio de cabelo.
Matéria publicada na edição impressa #100 em dezembro de 2025. Com o título “Da cabeça aos pés”
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