Quadrinhos,

Um arquiteto em quadrinhos

Premiado quadrinista italiano chega ao Brasil em dois álbuns caracterizados pela leveza do traço e das tramas

31maio2019 - 22h00 | Edição #23 jun.2019

O nome do italiano Manuele Fior circula no meio dos quadrinhos há alguns anos. Admirado pelos colegas por sua técnica singular, Fior passou a ficar em evidência sobretudo depois que Cinco mil quilômetros por segundo, sua quarta obra, lhe rendeu o Fauve d’Or de 2011, prêmio máximo no Festival d’Angoulême, evento francês que é considerado o maior da Europa. 

Vieram outros prêmios, na Itália e no Canadá, tanto por Cinco mil como por outras obras, o que engatilhou uma carreira internacional. E andanças internacionais: o autor já morou na Alemanha, onde iniciou a carreira, e atualmente reside na França.

Até 2018, nenhum quadrinho seu havia sido publicado no Brasil. De repente, tanto a obra laureada na França como A entrevista chegaram às livrarias do país, quase simultaneamente.

Cada álbum tem sua identidade gráfica, variando entre acrílica, nanquim, carvão e outros materiais. A economia no traço sugere uma passagem pela animação, berço de muitos que enveredam pelas hqs.

Na verdade, o italiano é arquiteto. Ao se ter conhecimento disso, é possível perceber o parentesco entre seus quadrinhos e croquis. Há também referências evidentes, como a casa onde mora Raniero, o personagem principal de A entrevista, baseada em um projeto de Frank Lloyd Wright.Não são só as edificações, porém, que Fior traz para os quadrinhos: há também os ambientes internos bem projetados e com decoração meticulosa, além de espaços urbanos vastos, vistos à distância.

Poucos traços, poucas massas, poucas cores: o estilo econômico facilita embarcar em cada cena, viver, um pouco que seja, junto aos personagens

Cinco mil, a propósito, é uma história sobre amor e distância. Piero e Lucia se conhecem jovens, quando ela e a mãe vêm morar no mesmo prédio onde ele divide apartamento com um colega. Uma troca de olhares e risinhos furtivos denunciam o início de um romance.

Mas é um romance que o leitor não vê. Na elipse para o segundo capítulo, Lucia foi morar na Noruega e está escrevendo uma carta para Piero: “Não te amo mais”. Cada capítulo representa um salto temporal e geográfico: Piero vira arqueólogo no Egito, Lucia tem um casamento conturbado com um norueguês. O que aparece, na verdade, é um “não relacionamento” à distância. Só vemos os dois juntos no último capítulo, cinquentões, encontrando-se num bar para contar a vida que passou. 

A acrílica amarelada de Cinco mil dá lugar ao preto e branco em nanquim e carvão em A entrevista, trama que também tem algo de romântico, mas com ambientação de ficção científica.

Num futuro próximo, o psicólogo Raniero é um dos primeiros a avistar óvnis no céu. A chegada dos alienígenas ao mundo coincide com o início das sessões com uma nova paciente, Dora, que diz ter poderes telepáticos e que faz parte de um movimento jovem que prega o amor livre. O enredo mais complexo gera um contraste: mensageiros das estrelas distantes fazem os seres humanos repensarem seu mundo interno, emocional. O álbum acompanha uma reviravolta na vida do protagonista e, pelas frestas da história, vê-se que o planeta também passa por mudanças.

Realismo

Ao se propor como mais básica ou elementar — uma história de amor fora do convencional (como são todas) —, Cinco mil quilômetros por segundo tem mais sucesso. No jogo brilhante entre esconder e revelar, ou mais esconder do que revelar, a relação entre Lucia e Piero tem aspecto mais realista, que vem tanto da trama mínima quanto das lacunas deixadas para o leitor preencher.

A entrevista, por mais que também tenha elipses bem pesadas e trechos que dependem da interpretação de olhares e trejeitos, resulta em uma narrativa confusa. O pano de fundo de ficção científica pode render discussões sobre as possíveis relações num suposto mundo pós-humano. Discussões rasas, de qualquer modo.

Em comum, as obras têm a leveza de Fior: no traço, na narrativa, nos diálogos curtos, nas cenas que se alongam passeando pelos cenários, obra de um autor que aparentemente não dá bola para desenhar (ou pintar) páginas e páginas para fixar tanto os personagens quanto o leitor na ambientação.São poucos traços, poucas massas, poucas cores. O estilo econômico só facilita embarcar em cada cena, viver, um pouco que seja, junto aos personagens. Detalhes nas edições nacionais colaboram com essa intenção, como a delicada tradução de Renata Leitão em Cinco mil e a reconstrução caligráfica da letra de Fior (feita por Pedro Cobiaco) em A entrevista.

É um estilo que também rende imagens que, descoladas da narrativa, são belas por si. Em uma transição de A entrevista, andorinhas tomam os céus, agitadas com os alienígenas que invadiram seu espaço. E então Fior reserva duas páginas para os passarinhos de carvão planarem, individualizados, leves, soltos pelo branco da folha.  

Quem escreveu esse texto

Érico Assis

Tradutor e jornalista. É autor de Balões de Pensamento (ed. Balão Editorial).

Matéria publicada na edição impressa #23 jun.2019 em maio de 2019.