Quadrinhos,

Retrato de uma geração

Ao narrar o desaparecimento de uma jovem, HQ trata de ausência afetiva em meio à avalanche de desinformações

01out2020 - 01h00 | Edição #38 out.2020

Não foi preciso mais do que algumas horas após o massacre de Sandy Hook passar a figurar na lista de tiroteios em massa norte-americanos para que o microfone de Alex Jones transmitisse as mais mirabolantes teorias da conspiração acerca da tragédia. Para o radialista, o assassinato, em 2012, de 26 pessoas em Connecticut — a maioria delas crianças em pré-escola — não passou de uma encenação encomendada pelo governo Obama para que o movimento antiarmamentista ganhasse força no país. 

As contestações às evidências e ao sofrimento que eram explorados graficamente por emissoras de TV vinham na ponta da língua do apresentador. Mas e as vítimas? Tudo armação. Os parentes das vítimas? Atores. As crianças que choravam a morte dos amigos? Ué, atores mirins. Não demorou para que os familiares dos mortos começassem a ser assediados e ameaçados, não só pela imprensa, mas, de maneira impessoal, pelos entusiastas do site Infowars e do programa The Alex Jones Show, que hoje é transmitido para mais de cem estações de rádio nos Estados Unidos. 

O conteúdo de Jones já foi endossado por Donald Trump, Jair Bolsonaro e Olavo de Carvalho. Este último chegou a classificá-lo como “a melhor fonte de informações sobre a política americana”. Mas, antes de o trio nefasto prestar atenção no conspiracionismo do norte-americano, o quadrinista Nick Drnaso (pronuncia-se Durnasso) já se incomodava com a ascensão da esquizofrenia e da desinformação que borbulhavam não somente nos canais supracitados, mas em fóruns e sites não só da internet que conhecemos, mas também daquela abissal. 

Foi justamente no ano do massacre de Sandy Hook que a ideia começou a ser marinada pelo cartunista norte-americano. O incômodo que sentia ao transpor para as páginas o que havia de mais assombroso na mente dos hiperconectados, no entanto, fez com que ele passasse o álbum Beverly (2016) à frente na sua pilha de manuscritos. Em 2017, não teve como correr. Sabrina, uma espécie de representação do Zeitgeist do século 21, foi publicado pela editora Draw & Quarterly. O que acontece quando alguém tem os holofotes da mídia todos voltados para si? Ou melhor, como questionou Ed Park no New York Times: “Como é possível ilustrar a ausência afetiva?”. São as duas lacunas que Drnaso não só preenche, mas faz transbordar — por mais que suas figuras em tons sóbrios, chapadas e sem dentes sugiram que se trata de uma narrativa singela. 

Precisão

O gibi narra o desaparecimento de Sabrina e os efeitos dessa ausência nas pessoas ao seu redor. Sandra, a irmã que foi a última pessoa a vê-la com vida e que, por isso, se amargura com sentimentos de culpa e impotência; Teddy, o namorado que, desamparado, busca ajuda do amigo Calvin, que passa, a contragosto, ao protagonismo do mistério que cerca o caso; e, por fim, as pessoas que se envolvem com a história a partir dos fóruns de internet, repletos de teorias e desinformação. A precisão com a qual a obra consegue retratar os nossos tempos chamou atenção dos entusiastas do formato e também de novos rostos: em 2019, tornou-se a primeira graphic novel a ser indicada ao Man Booker Prize. No Brasil, ela chegou neste ano, pela editora Veneta, com tradução de Érico Assis.

Não há ‘flashbacks’ nem ‘flashforwards’. É uma geração sem memória. Só o presente importa

Sabrina de Nick Drnaso consegue, em pouco mais de duzentas páginas, nunca cair em clichês baratos ou no lugar-comum que seduz a maioria daqueles que procuram escrever sobre a contemporaneidade ao mesmo tempo em que a experimentam. A história está lá, da maneira mais desapaixonada possível, mas com o horror expresso em toda parte: no livro infantil esquecido em um quarto, no programa de rádio claramente inspirado em Alex Jones e nos e-mails e fóruns que tentam achar desculpas fantásticas para que a realidade pareça menos cruel. A política propriamente dita nunca aparece. Mas o cheiro do niilismo político é impregnante. 

As linhas claras e simplistas (não simplórias) do artista, uma herança bem representada de Hergé e Chris Ware, dizem muito quando os personagens conseguem falar uns com os outros. A falta de traquejo social face a face é ofuscada pela verborragia que se dá nos espaços virtuais ou mesmo nas respostas involuntárias que os sonhos oferecem a um personagem específico. Não há flashbacks nem flashforwards. É uma geração sem memória ou perspectiva. Aqui, só o presente importa. Soa familiar?

“A informação pasteurizada está por aí faz dois meses desde que a notícia apareceu. Quero que todo detetive amador por aí leia com atenção, procure as discrepâncias, as imprecisões, as distorções, a mentira escancarada que se avista fácil quando você treinou o seu olhar crítico!” ou “Não podemos nos perder nas metáforas sem sentido dos tentáculos, das pirâmides, dos símbolos ocultos nas notas de dólar. Os vilões não se escondem atrás de capas, estão nas capas de revistas”. Se fossem utilizados nos tradicionais testes do BuzzFeed de “Quem disse isso?”, os trechos supracitados, presentes na HQ, poderiam facilmente passar, aos desavisados, como tuítes de Carlos Bolsonaro ou de algum outro teórico-conspirador brasileiro. 

Sem entregar aqui detalhes que possam atravancar a catarse narrativa, há diversos momentos em que o personagem Calvin preenche uma pesquisa de saúde mental do departamento médico que supervisiona seu trabalho, com itens que avaliam seu ânimo e nível de estresse. A soma da escrita e dos desenhos de Nick Drnaso faz com que a evolução das emoções preenchidas nessa pesquisa sejam partilhadas entre personagem e leitor. E, no final, como na vida ou nas teorias da conspiração, as respostas que importam ficam somente no campo da imaginação.

Quem escreveu esse texto

Clara Rellstab

É jornalista, roteirista e repórter do Uol.

Matéria publicada na edição impressa #38 out.2020 em setembro de 2020.