Quadrinhos,

Os virgens-problema

‘Mangá-documentário’ mostra como homens de meia-idade que não perderam a virgindade podem trazer perigo social

20set2019 - 18h44 | Edição #27 out.2019

Um em cada quatro japoneses solteiros acima dos trinta anos nunca teve relação sexual — o que dá mais de 2 milhões de homens. Se um homem japonês continua solteiro depois dos 35 anos, as chances de ele casar até os 44 são irrisórias: 3%. Esses números, somados à baixa natalidade, ao envelhecimento da população, à precarização dos empregos, ao maior protagonismo feminino e à queda dos casamentos arranjados, entre outros fatores, criaram a figura que representa, segundo o jornalista Atsuhiko Nakamura, um dos novos problemas sociais japoneses: o virgem de meia-idade.

Dizer que a virgindade pode ser um problema social é um tanto inusitado, mas Nakamura monta um argumento convincente, cruzando sexualidade individual e sociologia em Virgem depois dos 30. Esse cenário é problemático porque se está criando um contingente de homens ressentidos e agressivos, que vão buscar válvulas de escape perigosas. É o que mostram os números e os oito personagens que Nakamura perfila no livro.

Um deles é uma web-celebridade no Twitter japonês, identificado como “Miyata”. Ele tem 44 anos, vive de comprar e vender celulares, pouco sai do apartamento onde mora só e se dedica declaradamente a “comentários xenófobos contra chineses e coreanos na internet”. Segundo ele, “o que mais tem na direita on-line é homem virgem e de meia-idade”. Esse grupo busca por pertencimento: os virgens solitários tentam postar o que rende mais comentários para ter contato e aceitação. Miyata diz que, até pouco tempo atrás, o que rendia era ser esquerdista; hoje, é postar opiniões nacionalistas e extremistas de direita.

Outro perfilado, Sakaguchi — também de 44 anos, virgem e “solteiro-parasita” que mora com a mãe —, trabalha num centro que cuida de idosos. Considera-se injustiçado por ser criticado por sua incompetência no emprego e se vê como um homem mais “decente” por não se envolver com qualquer mulher nem recorrer a prostitutas. “Um dia… tenho certeza que vai aparecer uma mulher que vai me aceitar do jeito que eu sou! Até lá, vou me manter limpinho, como virgem!!”, ele brada para os colegas. Há situações mais extremas em outros perfis, como um personagem que recorre à automutilação e outro que comete suicídio.

Fluidos corporais

Virgem depois dos 30 é uma reportagem em quadrinhos. Ou um “mangá-documentário”, como se anuncia na capa. Embora o segmento documental do quadrinho japonês seja pouco conhecido no Brasil, é bastante difundido no Japão. Lá é comum encontrar reportagens, biografias, manuais escolares e universitários em HQ. A falta de contato com o gênero talvez explique o estranhamento do leitor ocidental diante da gangorra que o desenhista Bargain Sakuraichi faz entre o realismo e a caricatura.

A caricatura aqui não se dá em termos de deformar feições — os personagens têm traços realistas —, mas de deformar comportamentos. Os perfilados aparecem com o nariz escorrendo, profusão de suor e, não raro, flatulências, com um “pum!” ou “pffu!” onomatopeico. A maioria também é retratada em cenas de masturbação furiosa. Outro elemento gritante no desenho é a repetição de corpos femininos com pernas longilíneas e seios fartos — por vezes, na idealização dos personagens homens, mas, em geral, não.

Os elementos de caricatura no desenho ficam mais contrastantes quanto mais trágico é o perfil. A história do personagem que comete suicídio, Ichiro Suzuka, já era relativamente conhecida: ele participava de filmes pornográficos no papel de “esquisitão”, o pateta que era recusado pela atriz principal antes da cena com o ator garanhão. Rejeitado na tela e na realidade, ele se matou aos 33 anos.

Pode-se explicar esse estranhamento pelas diferenças entre a cultura ocidental e a japonesa — que não vê secreções, gases e corpos nus com o pudor comum aos ocidentais. Mesmo em uma obra de tom sério, não haveria problema em usar esses elementos. Por outro lado, também nos é estranho o pudor japonês com as genitálias — que, por lei, não podem ser mostradas nem desenhadas. Sakuraichi cobre parte de seus desenhos com o mesmo efeito digital frequente na pornografia audiovisual japonesa.

Os bastidores da reportagem são expostos em apêndices e no capítulo final. Nakamura explica que não se imaginava andando por Akihabara — o distrito de Tóquio que concentra as lojas de eletrônicos — perguntando a trintões se eram virgens, mas foi o que fez. A seleção de personagens tomou alguns cuidados. Nakamura, por exemplo, desvincula o virgem da figura do geek ou do otaku, o devoto da cultura pop. Embora alguns perfilados sejam assim, não são a maioria.

Há aparentes deslizes ao tratar por virgem um personagem com transtorno de identidade de gênero que já teve relações homossexuais, ou outro que só tem relações com prostitutas. Porém, esses deslizes se encaixam em um argumento maior, que vai além dos efetivamente virgens. O que se pode concluir da reportagem é um alerta quanto à escalada da subcultura do homem de meia-idade ressentido — não necessariamente virgem, nem necessariamente heterossexual, mas solteiro e com problemas sérios de relacionamento interpessoal — que dirige seu ressentimento contra si ou, crescentemente, contra outros.

Não é só uma questão japonesa. Embora o mangá não mencione, o caso dos “incels”, ou “celibatários involuntários”, é o reflexo mais tenebroso dessa subcultura. Na sua vertente supremacista, o movimento levou a vários atos de violência na última meia década. No mais famoso, em abril de 2018, um homem atropelou dez pessoas em Toronto (Canadá) após postar no Facebook: “A Rebelião Incel já começou”.

Homens ressentidos extravasando o ressentimento em violência e atos misóginos e racistas não são novidade. O que se vê de novo é o crescimento dessa subcultura e a mistura da sua tensão com movimentos via internet que incitam figuras a externalizar o que sentem. O resultado é a escalada da violência.

Quem escreveu esse texto

Érico Assis

Tradutor e jornalista. É autor de Balões de Pensamento (ed. Balão Editorial).

Matéria publicada na edição impressa #27 out.2019 em setembro de 2019.