Quadrinhos,

O tempo da praia

Premiada HQ canadense sobre amadurecimento de uma garota nas férias de verão foi alvo de censura por abordar sexo e homossexualidade

21fev2020 - 17h57 | Edição #31 mar.2020

Censura, infelizmente, não é exclusividade do Brasil. O caso com o prefeito do Rio de Janeiro Marcelo Crivella envolvendo a fiscalização na Bienal do Livro carioca e a tentativa de impedir a venda do quadrinho Vingadores: a cruzada das crianças no ano passado foi mais uma repetição do que vem acontecendo em vários países. Nos Estados Unidos, inclusive, onde as batalhas jurídicas por liberdade de expressão costumam ganhar destaque.

A Associação de Bibliotecas dos EUA faz uma lista anual dos livros mais “contestados” no país. Ou seja, livros que pais e outras autoridades mais pedem que sejam retirados de bibliotecas, principalmente das seções infantis ou para adolescentes. Aquele verão, lançado lá em 2014, liderou a lista de contestações de 2016.

Motivos apresentados pelos contestadores: personagens LGBT, uso de drogas, linguagem obscena e temas adultos. O quadrinho também foi acusado de ser “sexualmente explícito”, embora não apresente nenhuma cena de sexo. O Comic Book Legal Defense Fund — um fundo de apoio financeiro a quadrinistas que sofrem tentativas de censura — partiu em defesa do título, com base na classificação indicativa recomendada pela editora: de doze a dezoito anos. Bibliotecas que haviam tirado o livro de circulação devolveram-no às prateleiras, mas destacando a faixa etária apropriada. Mais relevantes do que os opositores, contudo, são os prêmios que Aquele verão colecionou: o Eisner e o Ignatz de melhor graphic novel, a tradicionalíssima Medalha Caldecott — a primeira vez que um quadrinho recebeu a honraria — e menções no Prêmio Printz.

Além das discussões morais e do medo em relação ao que nossos filhos põem nas mãos, Aquele verão também sofre com o preconceito ainda arraigado aos quadrinhos, vistos como conteúdo exclusivamente infantil. E é uma pena que o álbum tenha ficado mais conhecido por essa controvérsia, pois é um dos exemplos de maior destaque do alto nível estético e narrativo a que chegou o segmento não infantil das HQs, as chamadas graphic novels.

Aquele verão é uma história sobre o fim da infância e os primeiros contatos com a vida adulta. Rose, de doze anos, vai passar mais um verão com os pais na Praia Awago, no Canadá. Sua mãe está anormalmente fechada e rabugenta. Seu pai tenta manter o bom humor habitual soltando péssimas piadas, mas o casamento não anda bem. Na praia, a melhor amiga de Rose é Windy, garota um pouco mais nova e extrovertida que contrasta com o estado mais reflexivo da protagonista, passando a incomodá-la. Seus pais estão diferentes, a amiga não é mais tão amiga e a própria Rose não se sente ela mesma. É o mote de várias histórias de verão: o lugar é o mesmo, a pessoa é que mudou.

Na chegada, Rose engata uma paixonite por um garoto mais velho, Dunc, atendente da mercearia onde ela e Windy vão comprar balas e alugar filmes de terror (na tradição de pequeno balneário, a mercearia também é locadora de dvds). Dunc, por sua vez, está envolvido em uma trama da qual só vemos fragmentos, envolvendo outros adolescentes da praia e uma garota que ele pode ter engravidado.

Linguagem própria

O quadrinho norte-americano passou décadas se desenvolvendo dentro da arregimentação das tiras com três ou quatro quadros e em revistas com vinte e poucas páginas. O modelo da graphic novel que começou a se formar com as obras de Will Eisner, nos anos 1970, libertou os autores para contar histórias de até oitocentas páginas — e explorar as possibilidades de narrativa e de controle do tempo.

Nesse processo que inclui Maus, Love & Rockets, Ghost World, Retalhos, Jimmy Corrigan, A vida é boa se você não fraquejar e Fun Home, entre outras, a graphic novel começou a formar uma linguagem própria, um conjunto de recursos recorrentes. Somando-se a influências de quadrinhos estrangeiros, principalmente os japoneses, é que se chega a uma obra avançada como Aquele verão.

Uma das maiores realizações das canadenses Mariko Tamaki e Jillian Tamaki — as primas dividiram o roteiro, enquanto os desenhos ficaram com Jillian — é o modo como usam essas linguagens para retratar o tempo-praia. Para um adulto, o tempo-praia é a preocupação em aproveitar bem as férias para ficar despreocupado, de pernas para o ar. Na cabeça de uma pré-adolescente como Rose, é mais tempo livre a ser preenchido.

Há uma sequência logo no início da HQ em que cada quadro mostra a cena de um horário específico. Às 17h02, Rose está mexendo numa espinha de frente para o espelho. Às 17h46, está vendo o Facebook com Windy. Às 21h01, elas saem para ver a Lua na praia; às 21h17, já cansadas, combinam de ver um filme. O tempo se contrai. É a única sequência, aliás, em que são representadas indicações de tempo ou lugar. O restante da obra não faz essa marcação. As cenas fluem usando uma variedade de transições: cortes abruptos, closes em objetos de cena ou — a preferida — grandes splash pages panorâmicas, de páginas inteiras ou duplas. O tempo se esgarça.

Ao virar uma página, encontra-se o lago gigante, engolindo a faixa de praia onde Rose e Windy aparecem minúsculas. Na página seguinte, vê-se o resto do lago, grande demais para caber em duas páginas. Rose sai da casa de Windy depois de assistir a um filme de terror, à noite, e o caminho para casa é tomado de onomatopeias: os bichos, as plantas, o vento que progressivamente a cercam. O clímax, uma cena noturna na praia, é um dos maiores exemplos de como orientar o leitor a sentir o tempo de uma cena através do tamanho dos quadros.

Sexualidade, paternidade, o mundo oculto dos adultos e o mundo secreto das crianças são temas fortes. Rose e Windy assistem a filmes de terror porque veem isso como uma transgressão. Também servem de comentário para visões da vida adulta: “As meninas desse filme são umas histéricas. Parece que só sabem gritar… Iam morrer menos caras se não tivessem que resgatar essas garotas burras que não conseguem se salvar”, diz Rose. Ela está indignada com as garotas mais velhas que ficam rodeando Dunc. São elas, aliás, que provocam Rose e Windy gritando “boquete, boquete!”.

No meio de brincadeiras sobre casamento, a situação dos pais e o tamanho dos peitos, também correm conversas sobre a homossexualidade de Windy — provavelmente o grande motivo pelo qual a obra foi contestada, mas, felizmente, não censurada nas bibliotecas dos EUA.

Quem escreveu esse texto

Érico Assis

Tradutor e jornalista. É autor de Balões de Pensamento (ed. Balão Editorial).

Matéria publicada na edição impressa #31 mar.2020 em fevereiro de 2020.