Literatura japonesa,

De que planeta saiu Kuniko Tsurita?

Editora Veneta corrige um erro histórico ao lançar ‘A tragédia da princesa Rokunomiya’ no mercado editorial brasileiro

01out2022 - 04h51 | Edição #62

Uma mulher chamada R, de longos cabelos escuros, vislumbra o horizonte com um olhar perdido. O texto entrega: R não consegue entender completamente o que está acontecendo. R pode até não saber, mas ela está ali representando toda e qualquer pessoa que folheia o calhamaço A tragédia da princesa Rokunomiya, de Kuniko Tsurita, que chega agora às livrarias brasileiras. O não entendimento não se dá, no entanto, por uma falta de habilidade no desenho ou na narrativa da escritora. A confusão acontece porque é difícil demais entender como é possível ter existido, em plenos anos 60, alguém como ela ou histórias como aquelas.

Kuniko Tsurita surgiu no mercado de mangás japoneses em uma época em que as artistas mulheres eram minoria até mesmo nos gibis dirigidos ao público feminino. E o argumento que ela propunha trazer em suas histórias estava muito longe dos novelões românticos e açucarados comumente encomendados às mangakás. Não que ela tenha sido a primeira de todas — àquela época Machiko Hasegawa, por exemplo, já fazia um considerável sucesso com suas tiras satíricas. Só que Tsurita quebrou tanto as regras que acabou se tornando a primeira mulher a publicar regularmente na legendária Garo, revista que liderou os mangás de vanguarda no Japão.

Tsurita tinha algumas fotos de Brasília e sonhava em conhecer o estado de Mato Grosso

Aos não tão habituados à revista, vale trazer o chamamento que Sanpei Shirato, criador da Garo, publicou em junho de 1965 para recrutar novos talentos: “Vamos fazer mangás, quadrinhos históricos, histórias contemporâneas, ficção científica, tiras e cartuns de humor. Ou o que quer que você queira. Sem publicar os seus experimentos, não há como conhecer o trabalho de alguém. O experimento de um inspira os experimentos de outros. Somente nessa experimentação a inspiração pode surgir”. E como surgiu. No livro, que compila dezesseis anos de histórias da autora, conseguimos acompanhar a evolução de sua arte, desde um início um pouco mais tímido e claramente inspirado em Osamu Tezuka, passando por suas primeiras experimentações mais ousadas — seja no traço ou na temática —, até a sua maturidade completa, arriscando-se até mesmo a retratar amores lésbicos em suas páginas. Mas quem foi essa figura?

Rogério de Campos — editor da Veneta que assina o posfácio do livro — assume a responsabilidade de apresentá-la ao público brasileiro no ensaio denominado “Rumores a respeito dela”. Lá, aprendemos que Tsurita nasceu no dia 25 de outubro de 1947 em Takasago, uma cidade litorânea próxima a Kobe, que era a filha mais velha de uma família de pescadores, que tinha duas irmãs e que seu pai serviu na Marinha. No seu texto, Campos ressalta — ironias à parte — que a maior parte daquilo que sabemos sobre a mangaká nos foi repassado por homens. Katsuichi Nagai, outro legendário fundador da Garo, por exemplo, a descrevia como corajosa, determinada e genial. “Fiquei surpreso que uma garota pudesse desenhar aquele tipo de HQ”, chegou a declarar.

Embates com o machismo

Não é preciso recorrer a memórias alheias para conhecer Tsurita: basta abrir o livro. É ela a princesa Rokunomiya que aparece revelando o segredo de seu olhar distante, destacada no início desta resenha, por exemplo. Nas histórias que conta, a autora japonesa faz da sua obra quase que um diário público e experimental da sua vida: acompanhamos o seu início como artista, sua vida boêmia, o início do namoro com Naoyuki Takahashi, os seus embates com o machismo dos militantes de esquerda da época e o começo do seu encontro com a morte.

Ao contrário do que acontecia com os mangakás mais famosos da época, que tinham o cinema como principal fonte de inspiração, Tsurita se voltava à literatura e às artes visuais. Os leitores mais atentos conseguem encontrar em sua obra referências a expoentes da literatura francesa (Sade, Jean Genet, Le Clézio, Céline e Camus) e das artes plásticas (Dürer, Käthe Kollwitz, Aubrey Beardsley, Goya), mas também ao psicodelismo de artistas como Tadanori Yokoo e Aquiraz Uno. Kuniko Tsurita soa tão à frente do seu tempo que ler qualquer história em quadrinhos contemporânea após ter contato com sua obra deixa o leitor em um limbo temporal sem precedentes.

Em 1973, a autora foi diagnosticada com lúpus e morreu em 1985, com apenas 37 anos. A edição brasileira de A tragédia da princesa Rokunomiya conta com uma nota carinhosa de seu viúvo, Naoyuki Takahashi, que entrega que Tsurita tinha em sua casa algumas fotos da cidade de Brasília e que sonhava em conhecer o estado de Mato Grosso: “O Brasil sempre foi um país cheio de encantos para ela. Fico feliz em pensar que os leitores brasileiros poderão agora ler sua obra”. Quem sorri somos nós.

Essa editoria tem apoio da Japan House São Paulo.

Editoria com apoio Japan House São Paulo

Desde 2019, a Japan House São Paulo realiza em parceria com a Quatro Cinco Um uma cobertura especial de literatura japonesa, um clube de leitura e eventos especiais.

Quem escreveu esse texto

Clara Rellstab

É jornalista, roteirista e repórter do Uol.

Matéria publicada na edição impressa #62 em julho de 2022.