Quadrinhos,

Empoderamento pop

Criada por um homem bígamo que defendia o feminismo, a Mulher-Maravilha trouxe para a cultura de massas valores como o sufragismo e a luta por direitos

09nov2018

Os super-heróis são uma criação peculiar da cultura norte-americana, como o samba é da brasileira. Quase todos os povos da Terra fazem quadrinhos, mas os quadrinhos de super-heróis somente vicejaram, e tiveram real sucesso cultural, nos Estados Unidos. É só ouvir um roqueiro norte-americano cantando samba que você vai entender meu argumento.

A identidade secreta dos super-heróis, de Brian J. Robb, é um apanhado factual das origens editoriais, e de suas ramificações em outras mídias, dos quadrinhos norte-americanos de super-heróis. O livro não apresenta novidades para os estudiosos da área, mas pode ser uma introdução interessante para quem quer começar a se aprofundar no tema. Sua leitura é fácil e rápida, e dá ideia aproximada da grandeza do fenômeno, desde sua criação, com a publicação de Superman, em 1938, até a sua situação atual, de franco declínio, por mais que os supers, no cinema, estejam voando alto (perdoem o trocadilho).

O livro tem pecados comuns em edições desse tipo; o tratamento excessivamente factual e não reflexivo de documentos históricos e a escrita simplificada do autor, que pode esbarrar no simplismo. Por parte da edição brasileira, os mesmos problemas de outras iniciativas: tradução e revisão apressadas, que recheiam o livro de erros de pontuação e expressões mal traduzidas ou interpretadas. E, por último, a irritante mania de diagramar livros sobre quadrinhos com a tipologia dos quadrinhos. 

Mesmo assim, volto a frisar, pode ser muito útil para quem quiser ter uma ideia aproximada do desenvolvimento dos gibis de super-heróis. Seus erros não se comparam aos desastres de outras traduções brasileiras.

Outro livro, por sinal bem melhor, pode ser encontrado nas livrarias: A história secreta da Mulher-Maravilha, de Jill Lepore. Em primeiro lugar, é traduzido por Érico Assis, uma das maiores referências nacionais na tradução de quadrinhos em língua inglesa. A edição também é mais bem cuidada, assim como a diagramação.

A pesquisa de Jill Lepore remonta às bases do feminismo, sufragismo e lutas pelos direitos das mulheres nos Estados Unidos. Sua pesquisa é tão intensa que a própria Mulher-Maravilha demora a aparecer como objeto central no livro. Essa forma de desvio do objetivo central, entretanto, fica eclipsada pela impressionante coleta de dados, documentos e histórias levantadas pela autora com relação ao feminismo, e acaba por angariar a simpatia pela história do criador da Mulher-Maraviha, a figuraça William Moulton Marston.

Mulher de Willian Marston foi a provável inspiradora da Mulher-Maravilha, até no detalhe dos braceletes pesados

A simpatia pela história não se estende ao próprio Marston, é claro. Marston era bígamo e uma de suas esposas cuidava dos filhos do trio, para que a outra pudesse tratar de sua carreira de editora. A hipótese do eternamente desempregado Marston cuidar dos filhos não parece ter sido aventada. A esposa-babá, Olive Byrne, era sobrinha de Margaret Sanger, figura maior do feminismo americano. Olive foi a provável inspiradora da própria Mulher-Maravilha, até no detalhe dos braceletes pesados, e na sua resiliência impressionante em aguentar o pentelho do Marston. Já o “laço da verdade” é inspirado nas pesquisas do próprio Marston sobre o protótipo do que viria a ser conhecido como o detector de mentiras. Marston também era um defensor fervoroso do fetichismo bondage, da dominação sexual e outras safadezas, que podem ser percebidas nas histórias da super-heroína.

A Mulher-Maravilha foi uma personagem criada, em 1941, por homens que defendiam o feminismo (seu desenhista, H.G. Peter, havia ilustrado diversas publicações sufragistas e feministas), mas deixa muito a desejar em outros quesitos da liberdade humana e ao próprio feminismo, o que não chega a ser uma surpresa. Afinal, todo grande personagem carrega não somente os maiores trunfos de seu meio e época, mas os defeitos.

Como todos os super-heróis surgidos entre 1938 e 1945, a Mulher-Maravilha é uma criação despudoradamente imaginativa, livre, pueril e maluca. Por outro lado, como os super-heróis da época, é uma personagem racista, defensora do status quo, truculenta e americanófila. Isso sem falar na escolha de um desenhista homem para realizá-la, em uma editora que tinha bem mais de uma mulher, quase todas elas desenhando melhor que H.G. Peter. Essas coisas parecem ter escapado a tantos defensores e defensoras da personagem. Mas não escapou a Jill Lepore. A história secreta da Mulher-Maravilha é um livro obrigatório para todos os pesquisadores dos quadrinhos. 

Quem escreveu esse texto

Rafael Campos Rocha

Artista plástico e cartunista, é autor de Magda (Quadrinhos na Cia).