História, Jornalismo, Quadrinhos,

O inimigo brasileiro de Goebbels

O traço ferino do cartunista paulistano Belmonte, criador de Juca Pato

07nov2018 - 14h31 | Edição #1 mai.2017

O cartunista Belmonte nasceu Benedito Carneiro Bastos Barreto, em 1896, em São Paulo, e morreu na mesma cidade, em 1947. Como tantos artistas dos jornais, a produção frenética fez dele um homem sem tempo para viver uma biografia que valesse ser contada.

Em 1921, foi para o Rio de Janeiro, para substituir J. Carlos na Careta, a melhor revista de humor político da época. Ele, que detestava afastar-se de sua cidade natal, pegou o trem noturno de volta para casa antes mesmo de começar. Também publicou, durante a Segunda Guerra, uma carta aberta ao ministro da Propaganda de Hitler, Goebbels, agradecendo ironicamente seus ataques contra ele na rádio alemã, fato que nunca foi comprovado.

Belmonte nos deixa embasbacados com sua produção sem trégua, mantida sempre em nível muito alto, por mais de trinta anos. Participou de praticamente todas as publicações importantes de seu tempo, além de ter editado livros e coletâneas. Foram cerca de 10 mil trabalhos publicados, entre cartuns, caricaturas, textos e ilustrações, de 1914 a 1947.

Seu traço elegante era embebido no art déco da sociedade industrial, contrastando com as volutas do art noveau, ainda largamente usado nas artes gráficas europeias e americanas. Se J. Carlos teve mais prestígio e deu prova de mais arrojo artístico naquele começo de século, Belmonte ultrapassou seu contemporâneo carioca no cartum político e de crítica social. É um dos maiores caricaturistas brasileiros, e suas efígies de Getúlio, Hitler e Stálin têm a marca do gênio.

O personagem Juca Pato, que estreou em 1925 na Folha da Noite, saiu das páginas do jornal para se transformar em maço de cigarro, doce, lápis, graxa para sapatos e luminosos de bares. Virou música, farda escolar e prêmio cultural. Era desenhado como um homem de meia-idade, careca e de óculos, e aparecia como um comentário ao pé de página. 

A edição do livro tem gratas surpresas. Primeiro, evitou a capa dura e o papel cuchê brilhante, duas das opções mais kitsch em coletâneas de cartunistas e quadrinistas. A combinação dessas duas coisas transforma os livros de quadrinhos e cartunismo, artes populares de fruição democrática, em desagradáveis badulaques brilhantes, pesados e cafonas. 

Além do preto, a única cor usada no livro é o azul. O lápis azul é muito usado, até hoje, em rascunhos de artes gráficas, pois não aparece na reprodução, voltada para os cinzas e negros. Uma ideia simples e bonita. 

O autor, Gonçalo Junior, talvez seja o mais brilhante pesquisador de cultura popular do país. O texto é mais discreto que o de suas outras obras, como o monumental A guerra dos gibis, mas não poderia ser diferente; aqui, Belmonte é a estrela. 

Quem escreveu esse texto

Rafael Campos Rocha

Artista plástico e cartunista, é autor de Magda (Quadrinhos na Cia).

Matéria publicada na edição impressa #1 mai.2017 em maio de 2017.