Quadrinhos,

Conhecimento de causa

Quarto volume das memórias de Riad Sattouf mostra descoberta da sexualidade e maior consciência dos preconceitos contra árabes

01dez2020 - 01h00 | Edição #40 dez.2020

Quando um autor ocidental se lança a tratar de qualquer tema relacionado ao Oriente Médio e ao norte da África, sabe que está se metendo em um dos terrenos mais perigosos do mundo contemporâneo. Como se não bastassem as tensões entre os chamados Oriente e Ocidente, os vários conflitos internos dos países muçulmanos são tão complexos que qualquer olhar do exterior será julgado incapaz de abarcar os povos, as culturas e a história de mais de vinte nações.

Riad Sattouf repete um argumento para se defender desse tipo de crítica: ele não tem opiniões, tem memórias. Quando esteve na Festa Literária de Paraty (Flip), em 2015, o autor francês declarou à revista Veja: “Estou apenas falando sobre coisas íntimas. Não crio teorias sobre o mundo árabe, não tenho capacidade para isso”. Essas memórias estão na série em quadrinhos O árabe do futuro, lançada pela Intrínseca. É a história da infância e adolescência de Sattouf, na qual afirma ter conhecimento de causa para se embrenhar no tema dos países muçulmanos. Filho de mãe francesa e pai sírio, o autor passou a infância entre Síria, Líbia e França.

Os três primeiros volumes, lançados a partir de 2014, tratam da infância de Sattouf, cheia de viagens e de contrastes entre os países na memória infantil. Também mostram a família crescendo: ao final do terceiro tomo, Sattouf tem dois irmãos. Seu pai, professor de história formado pela Sorbonne, quer que a família viva na sua terra natal. Ele tem ambições: colaborar para a união das nações árabes e recuperar a glória que o Ocidente lhes tirou.

A instabilidade empregatícia do pai faz a família se mudar várias vezes. Seu gênio um tanto complicado e a instabilidade dos próprios países o levam a trocar de universidade com frequência. Depois de uma passagem pela Líbia de Muammar Gaddafi na virada dos anos 1970 para os 80, o filho conhece a família paterna, o chão batido e a escola na Síria.

O quarto volume começa após o pai conseguir outro emprego, agora numa universidade da Arábia Saudita. É quando a mãe bate o pé e diz que, dessa vez, a família não vai junto. Assim, é o primeiro volume que se passa na maior parte na França e com os pais de Riad praticamente separados. É também o volume mais longo da série e que abarca um período maior. O autor começa o novo livro com nove anos e a narrativa termina quando tem por volta de catorze. A descoberta da sexualidade na pré-adolescência é um dos temas presentes na história.

Os cartazes de Conan, o bárbaro — obsessão que é uma das partes mais engraçadas do volume 3 — dão lugar aos da modelo Cindy Crawford. Pegar o ônibus com as meninas do colégio rende momentos de tensão e de glória. As curvas da prima síria — cobertas pelo hijab — fazem não só ele se apaixonar, mas ter um estalo sobre como se fazem bebês.

No colégio francês, ele também aprende um xingamento de conotação sexual, “pedê”, que é repetido exaustivamente pelos colegas. Seu pai, nos raros momentos em que volta à França, lhe dá lições discutíveis: “As europeias podem te transmitir aids se você não tomar cuidado […]. E aqui na França, as mulheres, tsss… elas são muito fáceis”. Ele ainda sugere que o filho case com uma síria, pois as mulheres desse país obedecem ao marido.

Preconceitos

Com a idade, Sattouf também tem mais capacidade de analisar o contraste entre os países nos quais esteve. Em um período de retorno à Síria, ele se depara não só com o prédio periclitante do colégio, mas com a violência casual de professores e colegas, além do preconceito com seus cabelos castanhos e pele pálida. 

No colégio francês, os colegas zoam o seu sobrenome estrangeiro. Ele descobre o preconceito quando o amigo do skate diz para eles fugirem de uma gangue de garotos árabes. “Ei! Eu sou árabe”, ele diz ao amigo. “Você é francês com sobrenome árabe. Não é árabe de verdade”, responde o outro. Sua própria mãe começa a soltar frases preconceituosas contra árabes, ecoando o preconceito do pai contra os europeus. Dos dois lados, o antissemitismo é casual, parte do cotidiano.

Nada disso é usado para formar teorias quanto à história ou ao estado atual das relações entre Oriente e Ocidente, nem sobre a situação da Síria, da Líbia ou da França. Diz-se que O árabe do futuro faz muito sucesso entre os refugiados sírios na Europa por trazer memórias, não opiniões.

Sattouf usa um recurso gráfico para organizar suas memórias. As cenas na Síria são coloridas com um tom de rosa; as da França, com azul; as da Líbia, no primeiro volume, ficaram amareladas. Folheando cada edição, veem-se também alguns quadros com um vermelho intenso. São cenas de tensão, memórias marcantes ou momentos difíceis na vida do protagonista. O volume 4 tem vários quadros vermelhos.

Se a tensão entre os pais de Sattouf era pano de fundo dos três primeiros livros, no quarto ela chega ao ponto de ebulição. É o que leva à conclusão chocante do volume — e que não será revelada aqui. Em entrevistas, o autor vinha anunciando havia algum tempo que revelaria um fato que abalou de vez sua família. Os próximos dois volumes da série devem tratar dos desdobramentos desse acontecimento que encerra o volume quatro.

Quem escreveu esse texto

Érico Assis

Tradutor e jornalista. É autor de Balões de Pensamento (ed. Balão Editorial).

Matéria publicada na edição impressa #40 dez.2020 em novembro de 2020.