Psicologia,

O trabalho da morte

Escrito em 1920, 'Além do princípio de prazer', de Freud, mostrou que o organismo deseja morrer, mas à sua maneira — silenciosamente

01fev2021 - 01h00 | Edição #42

Freud escreveu sua obra com enorme empenho em se fazer entender. Afinal, estava inaugurando um novo campo de saber! Cada texto seu é resultado de um processo investigativo: coloca o problema, testa hipóteses, apresenta conclusões. A psicanálise é complexa, mas a escrita de Freud é clara — o que considero fruto de um empenho ético. Lacan, aquele pedante imprescindível, fez exatamente o oposto.

Nenhum texto freudiano me impressionou mais do que Além do princípio do prazer, escrito em 1920 — quase uma década depois de “Os dois princípios do funcionamento mental” (1911). Neste último, Freud afirma que “o sentido da vida é dado pelo princípio do prazer”. A vida psíquica, inaugurada pelo conflito edípico, desenvolve-se em permanente tensão entre as metas do princípio do prazer e os obstáculos impostos pelo princípio da realidade. Dá trabalho a vida psíquica — quem não sabe? Principalmente porque o prazer obtido nunca se equipara ao ansiado. No entanto, a busca move o sujeito, assim como a cenoura que o carroceiro amarra em uma vara, na frente do burro. Freud não se ofenderia com essa comparação caipira. Ele não idealizava a si mesmo, nem a condição humana. Indagado sobre sua impressão ao conhecer Albert Einstein respondeu: “É um pobre-diabo como todos nós”.      

Passou-se quase uma década depois da escrita de “Os dois princípios”. A Europa ainda não se recuperara da barbárie da Primeira Guerra (1914-18), na qual — como também observou Walter Benjamin — soldados e civis foram submetidos ao horror dos bombardeios aéreos. Se o leitor leigo imagina que Freud, em 1920, perseguia um nirvana consolador, vai se decepcionar. Foi ainda sob efeito do trauma da guerra que se debruçou sobre um suposto “além” das metas do princípio do prazer — este que, na sua opinião, resumia o sentido da vida. Freud definia a si mesmo como um homem incapaz de alimentar ilusões. Foi, antes, no dizer de Elisabeth Roudinesco, “um dinamitador dos ideais de progresso [que] pertencia à tradição de um Iluminismo sombrio. Seu texto mais impactante, escrito no período entreguerras, estabelece a existência de uma pulsão de morte. Em entrevista a George Sylvester Viereck, em 1926, Freud declarou: “A morte é a companheira do amor. Juntos, eles governam o mundo. É o que está dito no meu livro Além do princípio do prazer”. 

Cuidado empírico

O tom alarmante e peremptório da afirmação não deixa entrever o cuidado empírico com que Freud embasa suas conclusões teóricas. Empírico e… doméstico. A compulsão à repetição, central em sua teoria sobre o princípio do prazer, é ilustrada pela observação de uma brincadeira inventada por seu neto de um ano e meio, que suportava bem as ausências prolongadas da mãe. Um dia, Freud o observou brincando com um carretel, que era jogado para fora do berço e puxado de volta, em triunfo. 

A brincadeira do fort-da, como ficou conhecida entre psicanalistas, tinha a função de permitir ao menino um pequeno domínio sobre os desaparecimentos e reaparecimentos da mãe, ao jogar e trazer de volta o carretel. O pequeno Ernst repetia, incansavelmente, o jogo em que o carretel representava a mãe que ia embora. O prazer obtido não era causado pelo desaparecimento da mãe (fort!), mas pela encenação do poder da criança em fazê-la reaparecer (da!).

O prazer, segundo Freud, depende da constância das sensações satisfatórias. O prazer quer repetir. Quer se prolongar. Sua busca é confrontada continuamente pelo chamado princípio da realidade — a exemplo das ausências maternas que a criança elabora por meio do jogo. Pareceria simples — se fosse simples. Mas Freud não vai se deter nesse ponto. Tenta entender por que os soldados que voltavam feridos do front estariam menos sujeitos às neuroses de guerra. Para isso, estabelece a diferença entre a angústia (estado de expectativa ante a iminência de um choque), o temor diante de um perigo já conhecido, e o terror traumático, despertado por uma ameaça para a qual o sujeito não estaria preparado. As cicatrizes inscreviam no corpo dos soldados feridos a evidência de já terem conhecido o horror que angustiava seus companheiros e os protegia do terror traumático.

Também na clínica, o criador da psicanálise estava interessado nas compulsões à repetição, que associou ao “eterno retorno do mesmo” nietzschiano. Então se debruça sobre a hipótese de um fator psíquico que apontaria para “além” dos domínios do princípio do prazer. A severidade com que Freud trata suas especulações faz com que ele examine, uma a uma, várias explicações para o fenômeno da compulsão à repetição — para desautorizá-las, todas. Este é também um recurso de que o criador da psicanálise se serve para garantir a consistência de suas hipóteses: conduzir o leitor em seu processo investigativo. Apresenta hipóteses que fracassaram; corrige o rumo e nos conduz, passo a passo, até as conclusões. Afinal, ele criara um novo paradigma sobre a vida mental, na contramão da medicina de seu tempo. Precisava ser convincente.

Freud vale-se de Schopenhauer para afirmar que a morte é ‘o verdadeiro resultado, portanto, a finalidade da vida’

Então propõe uma nova explicação para o jogo do fort-da de seu neto; já não se trata apenas da necessidade da criança de encenar algum domínio sobre as ausências da mãe. Interessa-lhe a repetição, não o seu conteúdo. Sem abandonar a concepção dualista da vida pulsional, Freud vale-se de Schopenhauer, o pessimista, para afirmar que talvez a morte seja “o verdadeiro resultado, portanto, a finalidade da vida”. A compulsão à repetição, independentemente do conteúdo imaginário daquilo que se repete, indica o trabalho de uma pulsão de morte. Esta, ao contrário das pulsões de vida, trabalharia para evitar qualquer perturbação (mesmo prazerosa) em busca da restauração do eterno retorno do mesmo. 

A explicação da destrutividade como sendo motivada apenas pelo sadismo agora lhe parece insuficiente. Sua concepção dualista das pulsões (pulsões do eu versus pulsões sexuais) perde importância diante da nova dualidade investigada: pulsões de vida versus pulsões de morte. Só que estas não se expressam através de atos de destruição e violência. O trabalho da pulsão de morte é silencioso.

Deixo para o leitor iniciante o assombro e o prazer de acompanhar o percurso cuidadoso, obsessivo, com que Freud examina cada nova premissa, cada avanço teórico, cada recuo. Por fim, a resposta à questão sobre qual princípio psíquico buscaria algo além do prazer (baseado nas observações sobre a compulsão pela repetição) é dada com o conceito, novo em folha, da pulsão de morte.
“Que tenhamos reconhecido como sendo a tendência dominante da vida anímica […] o anseio por reduzir, manter constante, anular a tensão interna de estímulos […] tal como ela encontra expressão no princípio do prazer, eis aqui um de nossos motivos mais fortes para acreditar na existência das pulsões de morte.”

Vale avisar que não se trata de uma pulsão suicida, mas de uma “necessidade de restabelecer um estado anterior”.  Sim, o organismo “quer” morrer. Mas… à sua maneira. A pulsão de morte não é violenta — seria, antes, modorrenta. Quer anular as tensões que a vida impõe ao psiquismo.

Freud chegou aonde queria? Quase — mas ainda não. Precisa escrever mais quinze páginas — para convencer o leitor, ou a si mesmo. Vai de Platão até as descobertas da biologia da época. Enfim, conclui que as pulsões de vida “se apresentam perturbando a paz […] enquanto as pulsões de morte parecem realizar seu trabalho discretamente”. Essa era a pirueta dialética que faltava para a conclusão surpreendente de que “o princípio do prazer parece estar de fato a serviço das pulsões de morte”. Foi daqui que Lacan, quase meio século depois, veio propor o conceito de Gozo. Mas esse já é outro capítulo.

E, por falar em prazer, a edição da Autêntica, comemorativa do centenário do texto, é cuidadosíssima. Cada página traduzida por Maria Rita Salzano Moraes é acompanhada do original alemão, com passagens que Freud sublinhou, expressões que riscou em favor de outras, alternativas que pôs entre parênteses. Já a tradução de Paulo César de Souza para a Companhia das Letras preserva a prosa envolvente do criador da psicanálise, que rendeu a Freud o único prêmio de sua vida: o Goethe de literatura.

Quem escreveu esse texto

Maria Rita Kehl

Psicanalista, é autora de O tempo e o cão e Bovarismo brasileiro, ambos pela Boitempo.

Matéria publicada na edição impressa #42 em janeiro de 2021.