Psicologia,

Juntos e separados

Coletânea de Christian Dunker convida a reinventar afetos cotidianos e a questionar nossos modos de sofrer

01nov2017 - 06h51 • 15mar2024 - 13h04 | Edição #7 nov.2017

Na virada do século 20, Freud nos convidava a escutar o ato falho do homem comum como possibilidade de ato exitoso para a manifestação do inconsciente e a verdade do desejo. Christian Dunker, em Reinvenção da intimidade, também explora o universo psíquico do dia a dia, exposto nas mídias e nas clínicas. O livro nos propõe um mergulho radical: interrogar os tempos atuais tanto no tocante à produção de uma “subjetividade sombria” como de potenciais políticas de transformação. 

Já na dedicatória, Dunker diz a que veio: “Este livro é uma investigação sobre as formas de amor, sobre suas interveniências políticas e sobre a possibilidade de ficar junto e separado”. Freud lembra, em Psicologia das massas, que vivemos continuamente no fio da navalha, buscando o equilíbrio impossível entre nos aproximarmos e afastarmos do outro, entre a fantasia maravilhada de conexão quase transcendental e o igualmente delirante projeto de autonomia absoluta que rege o eremita em sua cabana ou flat.

A partir do universo da intimidade e da constatação de sua crise, o autor vem a contrapelo propor sua reinvenção, apostando, justamente, em outra forma de viver: consigo e com o outro. Para além dos paradoxos. Teremos cada vez mais espaço para uma “subjetividade definida por uma espécie de errância do desejo”? Experiências fundamentais da psique operam a partir da “capacidade de estar só”. Mas como conviver sem se deixar capturar pelas tramas imaginárias do medo e do ódio, afetos que nos jogam às ruas e às redes, nos encerram atrás de grades ou muros e catapultam a realização dos atos mais regressivamente destrutivos?

Dunker reuniu 49 artigos publicados em revistas (Mente e Cérebro, Brasileiros e Cult) e no Blog da Boitempo, organizados em oito partes. A partir de uma matriz bem definida (à esquerda), é o que de mais interessante se pode apresentar no campo da teoria social crítica à luz das premissas da psicanálise. Por meio de considerações sobre solidão, depressão e experiências de luto, o autor passa por “afetos compartilhados”, focando nas conformações das relações afetivas e suas questões mais recorrentes, como traição, ciúme, ódio, sexualidade e, então, reflexões sobre casamento — uma forma de “perversão consentida” — e separação. 

Estamos em um momento de impasse: “Com o declínio dos grandes lastros para pactos simbólicos, como o Estado, a Igreja e a família, o contrato se privatizou e com ele a traição”. Não poderia faltar a abordagem de como lidamos com as crianças e seu lugar nos territórios que construímos, assim como a posição do materno, do paterno, as disputas, a tecnologia e o fomento da "intoxicação digital infantil". 

A internet suscita uma indagação provocadora sobre “os pais [todos nós?] que usam a vida digital como pacificador” e que não entram em contato com “o universo simbólico que ela traz consigo”. Estaríamos tal qual bebês, com chupetas (não por acaso, chamadas em inglês de pacifiers, ou pacificadoras), portando celulares, nossos amiguinhos inseparáveis, trôpegos escudos diante do enigma da alteridade e do risco da intimidade que ela propõe? Se a intimidade tem “a estrutura de um diálogo”, parece que estamos com a boca ocupada. Nesse ponto, abre-se uma discussão sobre o imperativo da felicidade e sua exibição nas redes sociais. Pois lembremos: “Quem é realmente feliz não faz balanço de vida nem anuncia o resultado no Facebook, mas prossegue em sua vivência ignara, suficiente e soberba”. 

No entanto, o autor diz que, “ser capaz de perguntar sobre a sua própria felicidade tornou-se um fato político”. Sujeito e objeto, subjetividade e alteridade, eu e pólis — eis as tramas sempre dialéticas do texto.

Se a intimidade tem “a estrutura de um diálogo”, parece que estamos com a boca ocupada

A interrogação não poderia deixar de esbarrar no mal-estar e nas formas de sofrimento. Dois módulos retomam uma espécie de dialética que surge ao longo de todo o volume, e parece ser um dos fios da obra de Dunker em seus últimos livros, trazendo o eixo cada vez mais para o âmbito de uma discussão social e política que ao mesmo tempo molda e está no cerne das configurações da intimidade. Há perguntas sobre o controle, o cuidado, a paranoia sistêmica, o muro, a segregação, a paixão diagnóstica e a prognóstica, o topos do sofrimento e as narrativas que nos circundam no contemporâneo. Como longamente demonstrado, o “mal-estar precisa de um nome para se tornar sofrimento e, como tal, ser tratado, reconhecido e recomposto. Um grão de verdade que se disperasará em novos saberes e diferentes narrativas”, ao sabor das marés históricas e seus cabos de guerra ideológicos. Há “uma história das formas de sofrimento que o torna um fato político ainda pouco reconhecido”. 

Mergulhar nesse campo torna-se seu desafio. E ele retoma a tarefa focando nas “patologias do individualismo à brasileira”, em que novas formas de sofrer se revelam e se alteram — evidências de um modo específico de constituir a Nova República, assim como transmutam, na aurora do século 21, questões com a palavra, a denúncia, o consumo e a rivalidade. 

Dunker retoma os clássicos estudos da brasilidade, assim como autores modernos, para centrar seu olhar sobre a “cultura da indiferença” que aqui se constitui, num vasto processo histórico em que aprendemos “a criar e a manter atitudes de indiferença perceptiva, cognitiva e desejante, por meio de imperativos morais como o do foco, da auto-organização e do planejamento” — o que aponta para a “emergência do ódio como afeto social dominante no Brasil dos anos 2010”, espécie de “reação colateral que presume a cultura da indiferença”.

Enfim, impasses insistem. Como eventualmente colocar em grade simbólica a “função dominadora e afrodisíaca do poder” ao mesmo tempo em que os conflitos mais estruturais se veem apreendidos pela “ascensão na cultura contemporânea da judicialização das narrativas de sofrimento”? A reflexão sobre o poder e a lei não teriam como não se enriquecer com as contribuições da psicanálise, sobretudo se levamos às últimas consequências o fato de que “o direito ao gozo do outro é um direito impossível e um dever impraticável”. Em última instância, esbarramos na subversão da lógica aristotélica, e nos deparamos com uma releitura de termos como impotência versus impossibilidade ou contingência versus necessidade.

O volume conclui com uma análise crítica de políticas mais amplas de tratamento, que põem em xeque o lugar do sujeito e seu eventual apagamento hoje. “A grande intuição transversal aqui é de que não precisamos ser iguais para fazer algo juntos. Essa é também uma condição da intimidade como experiência produtiva de indeterminação”. Contra a “maneira como o neoliberalismo produz indivíduos infinitamente trabalhadores e indefinidamente crentes”, a experiência da intimidade “introduz o compartilhamento do possível, o reconhecimento do que não se pode partilhar e o cuidado com o impossível de ter e de ser”.

Daí a urgência em perguntar e, por que não ousar, reinventar novas formas de intimidade e de vida. 

Quem escreveu esse texto

Maria Lucia Homem

é psicanalista, professora e pesquisadora, e publicou No limiar do silêncio e da letra: traços da autoria em Clarice Lispector (Boitempo/Edusp).

Matéria publicada na edição impressa #7 nov.2017 em junho de 2018.