Psicologia,

Escrever a vida com Lacan

O livro de memórias de Catherine Millot, que se analisou com o psicanalista francês enquanto era casada com ele

09nov2018

“Dizer o amor talvez seja quase tão impossível quanto vivê-lo.” O relato de Catherine Millot faz pensar que ela foi feliz ao menos em traduzir em palavras algo do vivido e assim criar a tessitura imaginário-simbólica desses dois impossíveis. O livro causou furor na França e continuará a despertar muita discussão por onde passar: tanto por revelar bastidores do meio intelectual europeu dos anos 70, quanto por ser o testemunho do amor entre Lacan e sua analisante e companheira dos últimos anos. 

O primeiro parágrafo quase místico, sobre o ser e sua entrega, condensa todo o livro: “Houve um tempo em que eu tinha a sensação de ter apreendido o ser de Lacan em sua essência. De ter uma espécie de intuição de sua relação com o mundo, um acesso misterioso ao lugar íntimo de onde emanava sua ligação com os seres e as coisas, e também com ele próprio. Era como se eu houvesse deslizado para dentro dele. Essa sensação de apreender sua essência ia de par com a impressão de estar compreendida, no sentido de estar integralmente incluída nessa sua compreensão, cuja extensão me ultrapassava. Seu espírito — sua amplitude, sua profundidade —, seu universo mental, englobava o meu como uma esfera que contivesse outra menor”.

Seu fascínio está nu e absorto, explicitando a posição do amor, seja ele de transferência ou qualquer outro — o que traz uma questão inescapável para a psicanálise. Posição essa que vai formar a fantasia fundamental que a autora generosamente nos revela: a daquela que se deixa ser e conduzir a partir do interior do outro, livre e oceânica. Millot retoma, assim, sua própria obra, sobretudo as místicas de La vie parfaite, o enlace de psicanálise, filosofia e literatura de Abîmes ordinaires e o elogio do estar só, matéria da escrita, em Ô solitude. Ou seja, a adolescente que sonhava em ser “escritora e psicanalista” e depois, tomada pela angústia, “numa aposta de vida ou morte”, foi procurar Lacan aos vinte anos, acabou por realizar seu desejo — e vem nos contar mais um capítulo da história.

Em uma centena de páginas, Catherine fala de si, de sua análise, de Lacan — e tudo em estilo ainda amoroso e ao mesmo tempo duro e cortante. Sem dúvida, Lacan é o personagem-título, mas, ao longo do texto, vemos adquirir densidade o milieu, retratado com finura e perspicácia, o talento categorizador de Jacques-Alain Miller e a ambição (“traição”) de Laplanche, o estilo fidalgo e algo decadente de Masud Khan, discípulo e colaborador de Winnicott, à curiosa junção de “pantufas e metafísica” no lar dos Heidegger. Aborda ainda a condução “minimalista” de Lacan com o exercício do poder e sua controversa paixão/relação com a verdade. 

“Embora nenhuma proibição ou limite convencional o fizessem desviar de seu percurso, ele de todo modo sabia reconhecer o real que lhe barrava o caminho” 

Millot revela assim seu talento de observação clínica, aliado à mais precisa verve literária, percorrendo os museus e as igrejas, destacando quadros, esculturas e restaurantes que encantavam Lacan — sobretudo em Roma, Veneza e Paris. Além das diversas viagens e conferências, acompanhamos a rotina de Lacan e do casal, tanto em Paris quanto na casa de campo de Guitrancourt. Um livro saboroso, aberto e inteligente.

E que traz aspectos mais íntimos. Catherine nos traz um traço de Lacan que se repetirá ao longo de todo o relato: seu desejo direto e decidido, desejo “sem ambiguidades que o movia e simplificava tudo”. Aí se dá o que ela chama sua “simplicidade”, uma forma peculiar de se colocar no laço social excluindo a “dimensão da intersubjetividade que denominamos psicologia” e se colocando alheio a supostas interioridades e intenções. 

Ele simplesmente seguia a sua rota, incansável. De faróis vermelhos a portas fechadas, de esposas a amantes, “não havia obstáculos” para ele.

Um dia, porém, Lacan bateu o carro na mureta da estrada: sobreviveram ele e seu amigo, o carro foi destruído. Abandonou-o ali mesmo e o ato de dirigir. Lacan levava em conta o impossível: “Embora nenhuma proibição ou limite convencional o fizessem desviar de seu percurso, ele de todo modo sabia reconhecer o real que lhe barrava o caminho”. O real, eis seu maior objeto de interesse e que, ao longo dos anos 70, irá seduzi-lo cada vez mais, a ponto de o livro terminar por mostrá-lo imerso em enigmático mutismo, absorto na realização consecutiva de seus nós borromeanos. 

Como ele dizia, seu noeud bo, por homofonia com monte Nebo — “do qual Moisés descortinou a Terra Prometida e onde morreu”. Millot revela não só essa linhagem identificatória da psicanálise, Moisés-Freud-Lacan, mas conta o típico périplo da “mulher por trás de um grande homem” que banca o backstage sem crédito da produção: era ela a responsável pelas andanças nas seções náuticas da cidade, para pesquisar materiais resistentes e maleáveis para o gênio de Lacan. “Com o passar do tempo, as correntes e nós se tornaram cada vez mais intrusivos. Lacan prosseguia com suas manipulações enquanto escutava seus pacientes, os nós atulhavam o chão de seu consultório.” 

Mesas e livros em profusão

Millot conta a forma de Lacan criar e trabalhar, empilhando livros a seu redor, tanto nas escrivaninhas quanto em criados-mudos e duas outras mesas ao lado de sua cama. Ou seja, mesas e livros em profusão. Falando do seminário Joyce, o sintoma (1975), ela aborda seu método. “Ao longo desses anos, seu ensino, mais despojado, alcançou uma clareza inédita. Procedia menos do que antes por digressões e mais por fulgurâncias, enunciados corrosivos que iam a contrapelo dos hábitos de pensamento.” 

Algo dessa espiral também aparece quando ela relembra o comentário de François Cheng, com quem durante bons anos ele discutiu a língua chinesa: “Creio que a partir de um certo período de sua vida o doutor Lacan virou apenas pensamento”.

É na penúltima página do livro que Millot toca claramente no ponto mais delicado. Ao longo desses sete anos de vida em comum, ela continuou sua análise com ele. Como teria sido isso possível? Ela não diz muito mais. Mas chega a revelar um ponto que nomeia “a grande guinada terapêutica” em sua análise, que ao mesmo tempo revela a falta e o desejo. Falta e desejo esses que implicarão o fim, extremamente doloroso, de sua relação com Lacan: “Um dilaceramento para mim, um terremoto para ele”.

Por fim, podemos perguntar: o que leva uma mulher, escritora, psicanalista, a se deixar tomar pelo desejo, quase meio século depois, de narrar a experiência absolutamente singular de uma relação ao mesmo tempo analítica e amorosa com Lacan?

Ela responde, fora do livro, por ocasião do lançamento, no início de 2016. Fez sentido o convite do organizador da coleção L’Infini, seu amigo e escritor Philippe Sollers, para que ela escrevesse sobre “seu Lacan”. Millot entrava nos 70 anos, “a idade que tinha Lacan quando a conheceu” e não resistiu mais a esse apelo, de dar seu próprio testemunho sobre essa figura tão controversa e instigante. 

Ela termina com a tocante descoberta de uma espécie de profunda identificação, como se o que mantém a liga (imaginária?) do amor se revelasse aos amantes e a nós, leitores. “Sentia-me estranhamente em sintonia com ele, como se reencontrasse um antigo ideal de depuração máxima […]. Desde antes de conhecê-lo, eu era movida por uma busca do irredutível […]. As vaidades se consumiam num desdém por tudo, salvo pelo essencial.” 

E sintetiza: “A vida com ele era então como uma grande fogueira na qual desapareciam todos os falsos valores”. A miragem do ascetismo que busca a pura essência. 

E assim Catherine Millot termina: como começou, com o sofrimento do luto e os soluços diante do cômodo verde em que, com a ajuda da memória e da escrita deste livro, reencontra na frase final “a integralidade do ser de Lacan”.

Quem escreveu esse texto

Maria Lucia Homem

é psicanalista, professora e pesquisadora, e publicou No limiar do silêncio e da letra: traços da autoria em Clarice Lispector (Boitempo/Edusp).