Poesia,

Vidas fingidas

Sai em inglês a magnífica biografia de Fernando Pessoa escrita por Richard Zenith

01jul2021 - 00h51 | Edição #47

“Cada um de nós tem, talvez, muito a dizer, mas acerca desse muito há pouco que se diga. A posteridade quer que sejamos sucintos e precisos.” Assim escreveu Fernando Pessoa (1888-1935) em um ensaio inacabado sobre a celebridade póstuma. Aparentemente, o autor de Pessoa: A Biography não seguiu o conselho: o livro tem 1.086 páginas. Só que Richard Zenith é organizador de Heróstrato e a busca da imortalidade, que reúne, além da matriz da citação, outros dois textos escritos em inglês por Pessoa: “Impermanência” e “A inutilidade da crítica”.

Paradoxo apropriado à personalidade (“idiossincrática” é um termo ínfimo e insuficiente) do maior escritor de Portugal, que só não batiza o instituto diplomático da arte e cultura de seu país — assim como Goethe para a Alemanha e Cervantes para a Espanha — pois o varonil e caolho Camões era nome mais conveniente do que o visionário e destrambelhado Pessoa, portador de evidentes transtornos de múltipla personalidade.

A partir da frase do general romano Pompeu, que, segundo Plutarco, teria dito, diante de marinheiros medrosos, “navigare necesse, vivere non est necesse” (“navegar é necessário; viver não é necessário”), Pessoa criou alguns de seus versos famosos, que servem de bússola ou âncora para as deambulações desgarradas de si e seus leitores:

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
“Navegar é preciso; viver não é preciso”.
Quero para mim o espírito desta frase, transformada
A forma para a casar com o que eu sou: Viver não
É necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande, ainda que para isso
Tenha de ser o meu corpo e a minha alma a lenha desse fogo.

Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso
Tenha de a perder como minha.

A despeito das imensas ambições sobre sua imortalidade literária, Pessoa não conseguiu ou não se dispôs a sistematizar um legado, deixando obra fragmentada e fragmentária, dispersa em inumeráveis papéis in(de)terminados. Assim perdida, sua vida-obra é doação inestimável ao patrimônio humano. Os tesouros de sua arca, que encantam leitores há sete décadas, ainda guardam revelações.

O calhamaço de Zenith vem a calhar. Entre os parênteses de um prólogo e um epílogo, há quatro partes: “O nascido estrangeiro (1888-1905)”, “O poeta como transformador (1905-1914)”, “Sonhador e civilizador (1914-1925)”, “Espiritualista e humanista (1925-1935)”. Há mapas, cronologia, notas, referências, caderno de fotos e índice remissivo. Com substância crítica, ímpeto de pesquisa e conhecimento de causa, o autor tem credenciais para enfrentar o desafio de escrever a história da vida plural de Pessoa.

Entende-se o poder transformador dos poetas, que chega aos arroubos da alquimia. Mas o leitor fica curioso em entender por que o biógrafo resistiu à tentação de nomear a segunda parte com o célebre epíteto de “Autopsicografia” (escrito em 1º de abril de 1931): “O poeta como fingidor”.

Nascido em 1956, em Washington, Zenith mora há muito na pátria de Pessoa, e até tem cidadania lusa. Aprendeu português em Florianópolis e traduziu João Cabral de Melo Neto e Carlos Drummond de Andrade, além de trovadores portugueses, Camões e Sophia de Mello Breyner Andresen. Em 2012, recebeu o Prêmio Pessoa, que reconhece as contribuições para a vida artística, literária e científica de Portugal. Foi o curador da exposição Fernando Pessoa: plural como o universo, que passou por São Paulo (2010), Rio (2011) e Lisboa (2012). Organizou os sete volumes de Obra essencial de Fernando Pessoa e a Fotobiografia de Fernando Pessoa (com Joaquim Vieira), além de volumes autobiográficos, de correspondência e outros escritos. Zenith ainda traduziu Pessoa para o inglês.

Pensando bem, até que 1.100 páginas é pouco para dar conta de tantas vidas de um poeta multifacetado e faceiro: quantas Sherazades para preencher noites a fio de uma vida afinal desfiada em inconsúteis suturas e personagens desconfiadas?

Cotidiano comezinho

Talvez o biógrafo nunca alcance seu zênite. A vida de Pessoa é fascinante pelo cotidiano comezinho e pelos mundos que logrou inventar para viver, os inúmeros heterônimos com que tencionava refletir os mistérios e as tensões que assombram o ser humano, demasiado humano. Zenith confessa que, para ele, as duas obras mais marcantes sobre o poeta foram Fernando Pessoa: aquém do eu, além do outro (1982), de Leyla Perrone-Moisés, e o ensaio “El desconocido de si mismo” (1961), de Octavio Paz.

Pessoa foi poeta, tradutor, ensaísta, filósofo, dramaturgo, crítico literário, comentarista político, editor, astrólogo, ocultista, inventor, empresário, publicitário. Além de poemas, escreveu peças, contos, pulp fiction, relatos históricos, tratados sociológicos, teorias linguística e econômica, textos sobre religião e psicologia. Polígrafo e polímata, portanto. E compulsivo, com tal convulsão para escrever que anotava em qualquer superfície de papel — tiras de histórias em quadrinhos, convites, cartões de visita, folhas avulsas, capas e margens de livros, bolachas de chope e guardanapos de cafés e botequins.

Não é só questão de dar conta de uma vida (ou várias) em poucas palavras ou milhares de páginas, mas de fixar escritos inacabados e sobras, operação trabalhosa e arriscada para quem se incumbe de edições póstumas de uma obra deixada, na maior parte, em situação de “abandono”. O termo não indica desleixo ou relaxo, mas reflexo da condição de impossibilidade proposta por Paul Valéry: um poema nunca se termina, apenas se abandona. Em “Autopsicografia”, Pessoa resume seu credo: 

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente. 

Fingidor e fugidio, é chamado por Zenith de “o sempre elusivo”. 

Para uma teoria dos heterônimos, é óbvia a metáfora de que dores e desejos não cabem em uma única vida, por isso fabulam-se díspares personae (“máscaras”). Segundo o poeta Robert Hass, Ezra Pound, W.B. Yeats e T.S. Eliot inventaram máscaras ocasionais; já Pessoa inventava “poetas inteiros”. Talvez ninguém tenha levado a cabo tão radical a exortação-iluminação de Arthur Rimbaud: “Eu é um outro”. Para Zenith, Pessoa poderia dizer: “Eu são muitos outros”.

Na abertura, o biógrafo tabula 47 dessas “máscaras dramáticas”, ou “personagens” fictícios que participaram de obras e da vida do poeta, com biografias imaginadas. O cálculo inclui os três heterônimos mais conhecidos (Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis) e o torto ortônimo Bernardo Soares. Mas há outros. Zenith nota que, apesar do nome, não há propriamente uma única pessoa no Pessoa, apenas poemas e personae.

Há Chevalier de Pas (cavaleiro que escrevia cartas para o Pessoa de seis anos), Alexander Search (seu principal heterônimo inglês, nascido no mesmo dia de Pessoa), A.L.R (tradutor e comentador de Os protocolos dos sábios de Sião), Gaveston (assíduo nos papéis de 1904-10, mas sem assinar textos), o monge Friar Maurice, o espírito astral Henry More, o espírito maléfico Voodooista, o obcecado suicida Barão de Teive, o médico brincalhão Dr. Gaudêncio Nabos, Eduardo Lança (brasileiro, nascido em 1875, publicou prosa e verso no jornal caseiro de Pessoa, The Tattler, em 1902), Karl P. Effield (o primeiro a publicar em um jornal real, The Natal Mercury, em 1903, Durban) e a corcunda apaixonada Maria José (autora de desbragada carta de 1929 ou 1930).

Em um livro que traz mapas de Durban em 1900 e de Lisboa em 1925, além de árvore genealógica da família materna e criteriosa cronologia, causa espécie não haver uma lista ordenada de todos os heterônimos. A ausência de tal tabela periódica com os elementos taxonômicos da plural pessoa talvez espelhe a dispersão em vida dos heterônimos, espalhados ao longo do livro e recenseados no índice. Há uma entrada para “heterônimos (em geral)”, com a observação “ver também heterônimos específicos”. Em um “sumário bibliográfico” (1928), Pessoa foi preciso ao explicar: “Obras pseudônimas são aquelas com o autor em sua própria pessoa, exceto pelo nome que assina; as obras heterônimas são com o autor fora de sua própria pessoa”.

Para Zenith, seu teatro de máscaras, singular jogo de cena coral, não era “farsa literária”. À moda de um médium, eram “formidáveis veículos para autoexpansão”, “instrumentos de autorreflexão crítica e por vezes sardônica”, como uma “oficina de escritura de um homem só”. O biógrafo destrincha implicações estéticas, históricas, sociais, psicológicas e filosóficas do que eu chamaria de “ficção-fissão nuclear de Pessoa”. Citando John Keats (“A vida de um homem de qualquer valor é uma contínua alegoria”), Zenith vê a vida de Pessoa como alegoria (assim como a de Shakespeare, cujo legado supera o de Pessoa, diz).

Com heterônimos que atravessam experiências, temperamentos humanos e tempos históricos, Pessoa elaborou uma meditação sobre identidade, existência e verdade. No Livro do desassossego, Bernardo Soares escreve: 

Com uma tal falta de gente coexistível, como há hoje, 
que pode um homem de sensibilidade fazer senão inventar os seus amigos, 
ou quando menos, os seus companheiros de espírito?

Poeta da imanência intransigente e sábio iletrado, Alberto Caeiro (1889-1915) surgiu em 1914. O mestre de Ricardo Reis, de Álvaro de Campos e do próprio Pessoa professa simplicidade, propõe ver as coisas como são, sem interpretação. Lisboeta, mas habitante do campo, é encantado pela natureza e delega o conhecimento à experiência sensorial. Seus principais poemas são “O guardador de rebanhos”, “Pastor amoroso” e “Há metafísica bastante em não pensar em nada”.

Dândi e inquieto, com formação de engenheiro, Álvaro de Campos nasceu em 1890 (Tavira, Algarve). Não se sabe a data de sua morte. Emergiu três meses após Caeiro. Cultiva exaltação e melancolia na veia da modernidade. Seu gosto pelo progresso compactua com a angústia do tempo compacto, em fases decadentista, futurista e niilista. Principais poemas: “Tabacaria”, “Ultimatum” e “Poema em linha reta”.

‘Os heterônimos eram como tantos escrivães Bartleby, mas virados do avesso’

Médico e poeta de talhe clássico (calcado em Horácio), Ricardo Reis nasceu em 1887, no Porto, e ainda vivia (no Peru) quando Pessoa morreu. Emergiu dias ou semanas após Campos. Suas odes estoicas moldam-se em padrões harmônicos e disciplinados e tratam do fim inexorável das coisas. Monárquico, emigrou para o Brasil em 1919, em protesto à instauração da república em Portugal. Principais poemas: “Segue o teu destino”, “Colhe o dia, porque és ele” e “Aqui, sem outro Apolo do que Apolo”.

Para Pessoa, Bernardo Soares é um “semi-heterônimo”, autor de uma “autobiografia sem fatos”. É o mais próximo de sua própria pessoa e a persona mais complexa e afinada ao (pós-)contemporâneo leitor. Seu Livro do desassossego, que começou em 1913 e surgiu assinado em 1929, é fragmentário, errático e inesgotável (não só por ser inacabado) na perquirição de mistérios da alma humana. De quebra, Soares analisou (por metempsicose e psicanálise) a condição de amar e ser amado de Pessoa.

Mais que o lado B de Pessoa, Soares foi um esquisito ajudante de guarda-livros em Lisboa, a meu ver um colega de Bartleby, o escrivão de Herman Melville, com toques de Beckett. Segundo o biógrafo, Pessoa “nunca leu Melville”, cujo personagem de 1853 é um timbre da arte da recusa de escrever (seu refrão: “eu preferia não”). Zenith não relaciona Bernardo a Bartleby, mas declara: “Os heterônimos eram como tantos escrivães Bartleby, mas virados do avesso”, por sua copiosa profusão de escritura. São tocantes as páginas sobre esse “não livro quintessencial” — publicado em 1982, 47 anos após a morte do autor —, em sua irredutibilidade e não originalidade (indefinição matricial e impossibilidade de qualquer edição que se preze final). Com as obras-primas poéticas, a biografia firma o Livro do desassossego como o legado maior do poeta. 

Para o biógrafo, “a obra fragmentária de Pessoa, genialmente inadaptada à sua época, só hoje pode ser reconhecida como genial que é: genial precisamente pelo seu caráter fragmentário, que lhe confere a distinção de ser absolutamente fiel à realidade, tal como foi descrita por Alberto Caeiro — partes sem um todo — e é agora plenamente sentida por nós”.

Não é o que achava João Gaspar Simões, autor de uma biografia pioneira, de 1950. Para o crítico — editor da Presença, que publicou a partir de 1927 poemas célebres como “Tabacaria” e “Autopsicografia” —, os heterônimos eram um truque, o sintoma de indisposição ou incapacidade de concentração. Para Zenith, eram “um meio para transformar alquimicamente o eu”.

O biógrafo reconhece o valor do retrato e o papel inaugural de seu predecessor, com as setecentas páginas lançadas 71 anos atrás. Mas há ressalvas: a incompreensão sobre o caráter mais atual do poeta e o pouco rigor nas informações. Em três ocasiões (1936, 1950 e 1974), Simões ofereceu três versões do último encontro dele e Almada Negreiros com Pessoa.

Órfão

Fernando António Nogueira Pessoa nasceu (13 de junho de 1888) e morreu (30 de novembro de 1935) em Lisboa. Passou nove anos da infância e a maior parte dos estudos na segregada Durban, na África do Sul ainda britânica. Aspirava a ser um poeta inglês, e seus 35 Sonnets e Antinous: a poem angariaram resenhas favoráveis no Times Literary Supplement em 1918.

Em 1893, seu pai morreu de tuberculose, deixando-o órfão aos cinco anos. Em dezembro de 1895, a mãe casou-se com um militar nomeado cônsul em Durban, para onde se mudaram em janeiro de 1896. Aos dezessete anos ele voltou a Lisboa (1905) para morar com tia e primos até o retorno da mãe e do padrasto, em 1906. Em 1905 e 1906, matriculou-se na Escola de Letras e Artes, abandonada em 1907. Em 1920, escreveu a primeira carta a Ophelia Queiroz, rompendo com ela por escrito no mesmo ano e reatando em 1929. Em 1930 escreveu-lhe a última missiva, mas continuariam ainda a se ver.

Em 1915, publicou no primeiro número da Orpheu, polêmica plataforma do modernismo luso, “O marinheiro”, “Opiário” e “Ode triunfal” (estes dois como Álvaro de Campos). No número 2, “Chuva oblíqua” e “Ode marítima” (este como Álvaro de Campos). Em 1924, tornou-se editor literário de Athena: Revista de Arte, onde publicou pela primeira vez como Ricardo Reis (1924) e Alberto Caeiro (1925).

Das quatro obras publicadas em vida, três são plaquetes com versos em inglês. Traduziu para o português Shakespeare, Poe (a magistral tradução de “O corvo”), Oscar Wilde, Aleister Crowley (“Hino a Pã”) e Edward Fitzgerald (“Rubaiyat”, de Omar Khayyam), e para o inglês António Botto e Almada Negreiros.

Em O cânone ocidental (1994), Harold Bloom incluiu o que chamou de “o espantoso poeta português” no segmento “Borges, Neruda e Pessoa: o Whitman hispano-português”. Para Zenith, a gorada Empreza Ibis — Typographica e Editora de Pessoa (1910) quase podia ser tema de A biblioteca de Babel (1941), de Borges.

O único livro que Pessoa publicou em vida em língua portuguesa é Mensagem (1934). Pelo “senso de exaltação nacionalista”, à obra sobre os feitos portugueses foi outorgado o segundo lugar no duvidoso Prêmio de Poesia Antero de Quental, patrocinado pelo Secretariado de Propaganda Nacional (SPN) do regime de Salazar.

Um mês depois de ganhar o prêmio, Pessoa publicou um artigo audacioso na capa do Diário de Lisboa  de 4 de fevereiro, contra a lei de banimento da maçonaria aprovada pela Assembleia Nacional. Se o heterônimo António Mora defendeu a causa alemã na Primeira Guerra Mundial, Pessoa aliou-se aos Aliados, “embora sem entusiasmo”, ressalva Zenith, a indicar que ainda permanece a ambiguidade política desse defensor da liberdade humana, que até 1935 concedeu o benefício da dúvida a Salazar sobre sua adesão e só apoiou e suportou a república porque uma monarquia seria “completamente inviável”.

Vidente ou visionário, Pessoa foi produto de seu tempo: Segunda Guerra dos Bôeres (1899-1902), Primeira Guerra Mundial (1914-18), Estado Novo (1933-74). Em 16 de março de 1935, escreveu o primeiro poema contra Salazar (“Liberdade”). Em outubro de 1935, em artigo inacabado, criticou Mussolini pela guerra na Etiópia e se confraternizou com a Abissínia oprimida pelo fascismo. O capítulo final da biografia acertadamente pondera entre o humanista e o espiritualista.

Se em 1917 Pessoa esclareceu o seu neopaganismo, em 1935 ele declarou seu gnosticismo anticlerical. Nos planos do ocultismo e da magia, devotava leituras à cabala, ao budismo e à teosofia, em especial à maçonaria e à rosa-cruz. Geminiano, escreveu inúmeros horóscopos e mapas astrológicos. 

Tradutor de Helena Blavatsky e Aleister Crowley, encontrou o escritor e mago em 1930, quando o inglês foi a Portugal para conhecer o poeta que tanto o impressionara em cartas e versos. Zenith dedica boas páginas à relação com aquele que foi o modelo para The magician (1908), de Somerset Maugham, e cujo O livro da lei (1904) galvanizaria a “Sociedade alternativa” de Paulo Coelho e Raul Seixas.

Sexualidade

Mas Zenith não confirma as suspeitas e fofocas de que Pessoa seria entendido em outras roscas e riscados. Um dos pontos P da biografia seria o côté gay do poeta, escalado na constelação de Gide, Cocteau e Proust, para citar uns poucos escritores que, ao morrer, viraram purpurina. Como Álvaro de Campos, Pessoa acalentou fantasias dignas de Jean Genet  e Kenneth Anger: sofrer abuso de piratas na “colossal” (segundo Zenith) “Ode marítima” e ser agarrado por marinheiros em “Saudação a Walt Whitman”. Além da bandeira ao “pederasta pansy” e autor de Folhas na relva, com quem o “abertamente bissexual” Álvaro de Campos aprendeu a “incluir o corpo sexual e a linguagem sexual na poesia naturalmente”, escreveu ainda, no mesmo ano de 1915, “Antinous: a poem”. Nele, o imperador Adriano, ardoroso defensor dos homossexuais, recorda seu jovem amante afogado no Nilo.

Em agosto de 1907, Pessoa lamentou o desgosto “de ser incompreendido e terrivelmente sozinho” e escreveu notas em inglês sobre homossexualidade no ensaio “O processo da degeneração humana”. Em 1912, publicou “Nova Safo”, “romance de patologia sensual”, sobre uma aristocrata emancipada que prefere mulheres a homens e defende Oscar Wilde, de quem era amiga.

Em 1913, esteve obcecado em Wilde — sobre quem esboçou os ensaios “Defesa de Oscar Wilde” e “Concernig Oscar Wilde” — e Whitman, tendo comprado livros sobre o lado gay dos dois. Ainda em 1913, escreveu “O outro amor”, soneto endereçado a um jovem idealizado como Efebo-Vênus — “o poema estava tão divorciado da experiência pessoal quanto era ostensivamente homoerótico”, conta Zenith —, parte de um projeto de sonetos maior, “Livro do outro amor”.

O biógrafo nota que o eufemismo foi usado por Jacques d’Adelswärd-Fersen (editor do primeiro periódico gay da França, Akademos) em 1909,  depois por Montgomery Hyde em “O outro amor: uma pesquisa histórica e contemporânea da homossexualidade na Grã-Bretanha” (1970). Mas não cita o que para mim é uma baita ressonância anacrônica: os “Sonetos do amor obscuro” (1935-36) de Lorca.

Com orgulho, Pessoa protagonizou uma belicosa polêmica em torno de dois amigos cujas obras escancaravam a bichice autoaceita e satisfeita dos autores, alvos do jornalista católico Álvaro Maia na revista Contemporânea. Publicados pela Olisipo, editora fundada por Pessoa em 1921, que lançou Canções (1922), de António Botto, e Sodoma divinizada (1923), de Raul Leal, que anabolizariam o escândalo “Literatura de Sodoma”.

Zenith confessa: “Nesta biografia, evitei definir a sexualidade de Pessoa, mas, com base em suas explicações espirituais e, como demonstrado por sua própria ‘prática’, tal como era, é possível afirmar que o poeta em última análise não era heterossexual, homossexual, pansexual nem assexual; era monossexual, andrógino. Os heterônimos podem ser vistos como fruto de sua autofecundação”.

O biógrafo explicita: “Já observei que Pessoa, apesar de celebrar o amor entre homens na sua poesia e apesar de defender ativamente seus amigos homossexuais, nunca poderia ter aceitado para si a ideia de um encontro sexual com outro homem. A explosão de homofobia em suas notas sobre magia branca versus magia negra corrobora essa observação, mas seu propósito prático foi, creio, consolador. Aquela voz severa de julgamento, brotando de algum lugar profundo em sua psique, efetivamente assegurou a Pessoa, caso ele estivesse com segundas ou terceiras intenções, que tinha feito bem em não provar o fruto proibido que mais o tentava”.

Richard Zenith conclui: é ‘quase certo que Fernando Pessoa morreu virgem’

E pondera: “A castidade de Pessoa não era uma condição tranquila, livre de turbulência. Em 1935, todos os amores que ele nunca provou, assim como aqueles que experimentou apenas provisoriamente, voltaram para assombrá-lo. Embora ele sem dúvida se arrependesse de ter perdido os prazeres do sexo, do que mais se lembrava e sentia falta, e desejava que tivesse tido mais, era o prazer do afeto sentido por certos homens e por ao menos uma mulher, Ophelia Queiroz”.

Zenith conclui: é “quase certo que Pessoa morreu virgem”, apesar do caso com Ophelia — “a amada que ele logo decidiu manter à distância de um abraço, oferecendo a sua companhia em doses frequentes, mas estritamente homeopáticas” e com erráticos cortejos de beijos — e da “afeição sentida à distância” por Madge Anderson (cunhada do meio-irmão John Rosa).

Embora existam referências sexuais em toda a obra, Zenith supõe que Pessoa resolveu sua sexualidade por meio da escrita, com a cautela e o pudor de não justificar como “sublimação”.

Mário de Andrade cultivava uma peculiar tradução para o vocábulo psicanalítico refoulement (recalque): sequestro. Pensando mais fundo, eu diria que Pessoa sequestrou sua sexualidade. Zenith escreve: “Apesar do distanciamento emocional que defendeu como necessário para a criação artística, e embora nunca tenha perdido a cabeça por Ophelia, nem por ninguém, Pessoa foi um incurável apaixonado pela literatura”. E completa: “O ser sexual, o investigador espiritual, o pensador político e social estão como numa trama entrelaçada à urdidura de sua literatura”.

O biógrafo conclui, taxativo: “Pessoa não copulou com homem nenhum nem mulher nenhuma, não rezou para nenhum deus e não se filiou a nenhum partido político”. O poeta “manteve sua ambição no armário” — não a ambição literária. Mas parece que não foi só isso que o poeta lisboeta deixou no armário.

Tesouros no armário

O “solteirão convicto” protegia o recato da privacidade. Nos cafés, falava aberta e desbragadamente de literatura, filosofia, política e religião, mas não da vida pessoal. Quase ninguém era convidado ao apartamento da rua Coelho da Rocha, 16, onde guardava o segredo de sua arca de tesouros inéditos. Seu legado constitui-se de 25 mil papéis. Remexendo naquele baú, dez anos após sua morte foram coligidos mais de trezentos poemas.

A irmã Henriqueta Madalena Nogueira Rosa Dias, a Teca, foi a guardiã do arquivo do irmão por 44 anos: a arca de madeira, uma pequena mala e um armário (ou gabinete). Em 1979 o governo adquiriu (e transferiu para a Biblioteca Nacional de Portugal) os livros e o baú (cheio de manuscritos ainda quando de posse dos herdeiros). Os livros ficaram na Casa Fernando Pessoa, os manuscritos na BNP e a arca com um colecionador.

No Livro do desassossego, Bernardo Soares escreve: “O único destino nobre de um escritor que se publica é não ter uma celebridade que mereça. Mas o verdadeiro destino nobre é o do escritor que não se publica”. Em “Heróstrato”, tratado heterodoxo sobre a imortalidade póstuma, a partir da infame figura do grego que ateou fogo ao Templo de Artemísia, Pessoa crava: “Toda celebridade é, na realidade, literária, porque a literatura é a verdadeira memória da humanidade”.

Constatando que o gênio “está em oposição à época em que vive” e que “a maldição do gênio não é, como Vigny julgava, ser adorado mas não amado; é não ser amado nem adorado”, Pessoa sentenciou: “Em todo caso, quanto mais nobre o gênio, menos nobre o destino. Um gênio pequeno alcança a fama, um grande gênio recebe a infâmia, um gênio maior sofre o desespero; um deus é crucificado”.

Se “Heróstrato” examina “o problema da celebridade nos homens”, comenta Zenith, “Impermanência” (1916-20) estuda “o problema da sobrevivência das obras literárias”. No texto, Pessoa vaticina o deslumbre: “A literatura, como toda arte, é uma confissão de que a vida não basta” (pois é, a frase não é de Ferreira Gullar). 

O biógrafo descreve: “Pessoa ouvia mais do que falava, e quando falava era manso, fleumático. Às vezes, porém, proferia silenciosamente uma declaração tão inteligente e bem formulada que deixava atordoados e em silêncio os espalhafatosos falantes. Ele também podia ser engraçado, mas era preciso segui-lo de perto para entender a piada”.

Flagrante delitro

Em seus rolezinhos no Rossio ou como flâneur na Baixa de Lisboa, Pessoa foi um embriagado argonauta digno do barco mais bêbado de Rimbaud, com seu desregramento e desgarramento de todos os sentidos etílicos. O pioneiro biógrafo Gaspar Simões foi acusado de exagerar no retrato esponjoso do beberrão miserável e desgrenhado, um pobre poeta maldito que bebia demais. A biografia estampa a famosa foto do poeta bebendo de um copo no balcão, datada de 1929 e com dedicatória a Ophelia (após nove anos de separação): “Fernando Pessoa em flagrante delitro”. Comungando em certa medida (e boas doses) dos gostos líquidos de Pessoa, estranhei não encontrar no livro de Zenith a palavra “bagaceira”. Rezavam as lendas que a típica e tradicional aguardente portuguesa era a bebida predileta do poeta lisboeta.

No livro, “aguardente” aparece uma vez como brandy. Noutro trecho, Macieira é descrito como “a cheap brandy”, pelo que seria “uma aguardente barata”, mas isso deixa a gente tonto, pois Macieira é um conhaque. O autor afirma: “Pessoa bebia somente vinho e brandy” e “qualquer dinheiro que Pessoa recebia gastava em livros, refeições em restaurantes, vinho e brandy”. Por brandy, fico querendo ler “bagaceira”, mas…

Com Mário de Sá-Carneiro, amigo íntimo e imenso poeta que se suicidou em 1916, e para quem escreveu elegia homônima, supunha-se que Pessoa bebia absinto. Mas Zenith não confirma: absinto rolava com Coelho de Jesus (colega de flânerie) e José Coelho Pacheco (colega de Orpheu). E com Álvaro de Campos. Entre mesas e balcões onde entornava os goles de seu expediente, citam-se: Abel’s, A Brasileira (o indefectível ponto turístico no Chiado, com estátua na calçada), Café Montanha, Irmãos Unidos (restaurante das reuniões do grupo Orpheu) e A Morgadinha, onde toda noite comprava pão, presunto, queijo, cigarros e aguardente a crédito. Nos meses que antecederam a morte, frequentava quase que exclusivamente o Martinho da Arcada, que opera desde 1778 na Praça do Comércio.

O biógrafo relata que as copiosas doses de vinho e aguardente não afetavam o tom de seu discurso ou de seus passos. Se Ophelia suplicava em cartas que Pessoa moderasse os pileques, Teca não se constrangia em abordar o irmão sobre as emborcadas em bares e cafés. Seu médico particular, o primo e vizinho dr. Jaime de Andrade Neves, repetida e insistentemente pedia que Pessoa abandonasse a bebida, que lhe arruinava o fígado e os rins, lembrando que o delirium tremens no alcoólico é o jeito de o corpo dizer “Não mais, ou então…”.

“Mas ele acreditava que sua vida dependia do destino. Beber, na pior das hipóteses, era o instrumento do destino.” Assim Zenith resume a ópera dos copos de Pessoa. Segundo Zenith, “bebida” não era somente uma metáfora, e a primeira carta de Pessoa para Madge Anderson demonstra que ele “começou a naufragar em abril de 1935”. Naquele mês, sofreu uma leve crise de delirium tremens, que inspirou o poema (para Zenith, “cômico e ligeiramente inquietante”), escrito em inglês, chamado “D.T.”, no qual ele mata uma centopeia na parede “que não estava lá de jeito nenhum”: “É muito simples, você sabe — / Apenas o começo do D.T.”. Aparecem então um crocodilo cor-de-rosa e um tigre sem cabeça pedindo comida. Sem um sapato capaz de matá-los, o poeta se pergunta: “Devo parar de beber?”.

O biógrafo repara: na época de Pessoa, delirium tremens era um termo também aplicado aos sintomas dos que ainda bebiam bem, não apenas dos abstêmios. Zenith conta que em 1932 um colapso prostrou o poeta por várias semanas. Depois da ressaca, explicou ao jovem escritor Rui Santos que tal condição regularmente reaparece no bebedor compulsivo, enquanto, para um alcoólico, o primeiro episódio seria um aviso e o segundo seria fatal. E provocou: “E você consegue me ver largando a aguardente [“brandy”, no original], Rui?”.

Em 19 de novembro de 1935, escreveu “Há doenças piores que as doenças”, o último poema datado em português e o penúltimo que escreveu: 

Há dores que não doem, nem na alma 
Mas que são dolorosas mais que as outras.
Há angústias sonhadas mais reais
Que as que a vida nos traz, há sensações
Sentidas só com imaginá-las
Que são mais nossas do que a própria vida.
Há tanta coisa que, sem existir, 
Existe, existe demoradamente,
E demoradamente é nossa e nós… 
Por sobre o verde turvo do amplo rio
Os circunflexos brancos das gaivotas…
Por sobre a alma o adejar inútil 
Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.

Foi internado em 29 de novembro de 1935, no Hospital São Luís, em Lisboa (Almada Negreiros, companheiro de tertúlias, morreria em 1970, no mesmo quarto). No dia 29, com forte dor abdominal, escreveu suas últimas palavras, letra miúda e torta: “I know not what to-morrow will bring” (“Sei não o que o a-manhã trará”).

António M. Feijó viu referência a Horácio: “Quod sit futurum cras fugere quaerere” (“não pergunte o que o amanhã pode trazer”). O atestado de óbito lavrado pelo dr. Andrade Neves registra a morte ao redor das 20h30 do dia 30, por “obstrução intestinal”. O funeral deu-se em 2 de dezembro, no Cemitério dos Prazeres, e em 1985 os seus restos mortais foram transferidos para o Mosteiro dos Jerónimos.

Suspeito de pancreatite ou cirrose, Pessoa morreu foi de nó na tripa. O poeta sempre carregou algo nas entranhas. Na primeira agência de propaganda de Portugal, chamada Hora, bolou um slogan para a Coca-Cola, publicado em jornais de julho e agosto de 1927: “Primeiro, estranha-se. Depois, entranha-se”. O médico higienista Ricardo Jorge implicou e propôs censura. A Coca-Cola logo foi proibida pelo salazarismo, sendo liberada só no final dos anos 70. E a frase se consagrou como expressão popular. 

No poema “Em memória de W. B. Yeats”, W. H. Auden cravou os versos: 

As palavras de um homem morto 
modificam-se nas vísceras dos vivos.

Álvaro de Campos escreveu em “Dobrada à moda do Porto”: 

Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha 
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.

O último poema datado de Álvaro de Campos é “Todas as cartas de amor são ridículas” (21 de outubro de 1935). O último poema datado de Ricardo Reis é “Vivem em nós inúmeros” (13 de novembro). O último poema datado de Pessoa é “The happy sun is shining”, de  22 de novembro.

Para Zenith, em 1935 poucos portugueses sabiam “o grande escritor que tinham perdido” e “nenhum tinha a menor ideia do que o mundo estava a ganhar: um dos mais ricos e estranhos corpos literários do século 20”.

Leitores portugueses e brasileiros vão gostar imenso (para usar a gostosa forma de dizer à portuguesa) de ler “Pessoa: uma biografia”. A Companhia das Letras prevê o lançamento para 2022, em tradução de Pedro Maia Soares (uma pequena amostra pode ser lida nas próximas páginas).

Zenith confessa: “Tentei construir, com tantos detalhes dignos de crédito que pude reunir, uma vida ‘cinematográfica’: como Pessoa se parecia e se comportava, para onde seus passos o levaram, as pessoas com quem interagiu e os animados cenários onde sua vida se desdobrou. Mas esse filme, por si só, pouco nos diria sobre o escritor Pessoa, cuja vida essencial teve lugar na imaginação. E assim minha maior ambição foi mapear, tanto quanto possível, sua vida imaginária”.

Zenith toma a obra de Pessoa, inacabada e fragmentária, como ‘uma espécie de Pompeia literária’

O biógrafo toma a obra inacabada e fragmentária de Pessoa como “uma espécie de Pompeia literária”. Segundo ele, “muito da prosa e inúmeros poemas inconclusos, 85 anos após sua vida humana ter cessado de existir, ainda têm que ser transcritos e publicados”. Ponderando sobre a incompreensão de antigos organizadores quanto aos poemas em cacos e não terminados (ou intermináveis), o que justificaria a tardia publicação do espólio, Zenith vê o atraso compensado com as edições em décadas recentes como algo superior, da ordem da “serendipidade”.

O autor valoriza o traço “precário” da obra de Pessoa e afirma que seu universo é regido por uma espécie de “princípio da incerteza”, magnificado no Livro do desassossego. Essa inquietude imanta o interesse do leitor, não só por ser reflexo (ou refração) da inquietude e impermanência humanas, mas por ser inimiga de pensamentos fixos e fixáveis, definitivos.

Pessoa lamentava a incompletude que era a praga de sua escrita. Mas é a incompletude que garante à sua obra, em parte, o aspecto de duradouro espanto. A outra parte fica por conta e encanto dos cristais imperfeitos que lapidou e dilapidou, multiplicado em plurais ourives que se escondem sob os fósseis dos textos, escandidos em versos reconfigurados em relíquias e falésias. Como ele disse, “o que em mim sente está pensando”.

O poeta lisboeta — lisPoeta — escreveu à guisa de Bernardo Soares em seu livro-caixa de poesia: “Fica de tudo um ou outro poeta”. Em sua Mensagem lançada ao mar, memória ébria numa garrafa para um eventual leitor, lê-se em “Primeiro: Ulisses” uma quase autodefinição: “O mito é o nada que é tudo”.

“Não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram!” Entre a conjectura e a conjuração, ocorre um diálogo imaginário entre pessoas e personas, evocando Mensagem e outras nostalgias: 

Baste a quem baste o que lhe basta 
O bastante de lhe bastar! 
A vida é breve, a alma é vasta: 
Ter é tardar.  

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Quem escreveu esse texto

Carlos Adriano

Doutor em cinema pela USP, escreveu Peter Kubelka: a essência do cinema (2002) e dirigiu o filme A voz e o vazio: a vez de Vassourinha (1998).

Matéria publicada na edição impressa #47 em maio de 2021.