Poesia,

Álbum de figurinhas

Controversa e interminável, lista de heterônimos, ortônimos e pseudônimos de Pessoa tem poetas, charadistas, barões e médicos

01jul2021 - 00h51 | Edição #47

O estudo dos heterônimos de Fernando Pessoa é uma disciplina à parte — dezenas de milhares de páginas já foram dedicadas ao tema, que está longe de formar consensos entre os especialistas. Em sua biografia, Richard Zenith lista algumas dezenas deles. Organizador da coleção de obras de Fernando Pessoa na Tinta da China, Jerónimo Pizarro lista 136 heterônimos em sua antologia 136 pessoas de Pessoa, em coautoria com Patricio Ferrari, publicada no Brasil em 2017 pelo selo brasileiro da editora portuguesa. Muitos dos 136 heterônimos são charadistas, decifradores de enigmas e colaboradores, editores ou administradores de O Palrador, periódico criado pelo poeta. Em sua antologia, Pizarro e Ferrari refutam dezenas de outros, reconhecidos por Zenith e outros especialistas, puxando fios de uma controvérsia que parece não ter fim. Até porque muitos ainda estão para ser descobertos na papelada do poeta. Listamos aqui alguns dos nomes adotados por Pessoa em poemas, jornais, revistas, cartões de visita, textos em prosa, carimbos e outros achados.

Alberto Caeiro. Lisboa, 1889-1915. Aparece em 1914. Elemento central do esquema de heterônimos de Fernando Pessoa. Sem instrução formal, de semblante divino e infantil, que mescla sabedoria e inocência, escreve uma poesia pastoril e conectada à natureza. Tornou-se o guru de Pessoa, Ricardo Reis e Álvaro de Campos, entre outros, que lhe dedicam prefácios, notas e ensaios. Publicou O guardador de rebanhos, Poemas inconjuntos e O pastor amoroso. Morreu tuberculoso. 

Alexander Search. Nascido em Lisboa, em 13 de junho de 1888 — mesmo local e data de Fernando Pessoa —, 
Search foi prolífico: escreveu 25 livros em inglês, francês, grego, espanhol e português, sobre temas como epilepsia, loucura e genialidade e o problema do regicídio em Portugal, além de poemas. 

Álvaro de Campos. Tavira, 15 de outubro de 1890. Engenheiro naval formado em Glasgow. 1,75 metro, magro e “tendente a curvar-se”, viajou pelo Oriente, experiência que resultou nos poemas de Opiário. Autor de alguns dos mais famosos poemas pessoanos, como “Tabacaria”, “Ode triunfal”, “Ode marítima”, “Lisbon revisited” e  “O que é a metafísica”. 

Barão de Teive. Álvaro Coelho de Athayde, vigésimo Barão de Teive. A educação do estoico, de sua autoria, é tida por Jerónimo Pizarro como obra precursora do Livro do desassossego. Tendo vivido na França, queimou seus escritos e suicidou-se na Quinta da Macieira, no norte de Portugal. 

Bernardo Soares. Surge em 1920. Ajudante de guarda-livros lisboeta, é o principal autor do Livro do desassossego, conjunto de papéis de organização problemática. Pessoa o classificou como “semi-heterônimo”, por ter muitas semelhanças com seu criador, assim como Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis.

Jerónimo Pizarro e Patricio Ferrari listam 136 heterônimos; Zenith reconhece 106

Dr. Abilio Quaresma. Magro, “escanzelado”, melancólico, protagonizou histórias de detetives desde 1913. Em 1929, publicou um opúsculo sobre a autoria das obras de Shakespeare, tema que interessava particularmente a Pessoa. 

Dr. Gaudencio Nabos. Diretor literário de O Palrador, piadista, frasista, passou a escrever em português na mesma época em que Pessoa. Publicou charadas no Novo Almanaque Luso-Brasileiro. Correspondeu-se com Pessoa. Surgiu em 1903. Pessoa teve outros heterônimos com o sobrenome Nabos.

Faustino Antunes. Em 1907, antigos professores e colegas de Fernando Pessoa na Durban High School receberam cartas assinadas por Faustino, psiquiatra que pedia depoimentos sobre o comportamento do poeta, que ao voltar da África do Sul teria apresentado graves problemas psiquiátricos, sendo tratado sob seus cuidados. Alguns deles responderam, ainda que suspeitando que o verdadeiro remetente fosse Pessoa, conforme diriam em entrevistas décadas depois. Seu professor de francês afirmou em sua carta que Pessoa sofria de “neusrastenia vesânica”. 

Hadji-Muhrad. Com nome inspirado em um guerreiro do Cáucaso retratado em uma novela de Tolstói, Hadji-Muhrad assinou um folheto em que explana um método secreto para ganhar jogos de azar e loterias, segundo Jerónimo Pizarro. 

Ibis. O íbis era uma obsessão de Pessoa, que batizou uma editora com o nome do pássaro — tendo desenhado a marca de próprio punho. Jerónimo Pizarro dá status de heterônimo a Ibis, que publicou poemas em jornais e que a crítica apontou como uma faceta mais infantil do poeta. A irmã de Pessoa conta que ele se divertia ao encontrá-la na rua de surpresa e pôr-se “em posição de Ibis”, “o que surpreendia bastante os transeuntes e me causava um certo embaraço. Eu dizia-lhe: ‘Ó Fernando, parece impossível, devem julgar que és doido!’. Ele sorria e respondia: ‘E vem daí algum mal ao mundo?’”. 

Jean Seul De Méluret. Único heterônimo francês, surgido em 1908. Nasceu em agosto de 1885. Escrevia obras satíricas e sobre temas considerados franceses, como o exibicionismo e o proxenetismo. 

Joaquim Moura-Costa. Colaborador dos jornais O Phosphoro e O Iconoclasta, publicou versinhos satíricos de caráter anticlerical e antimonárquico, debochando de padres, nobres e outros. Surgido em 1909, deixa de publicar no ano seguinte. 

Ricardo Reis. Autodidata em grego, o autor de Odes de Ricardo Reis aprendeu latim provavelmente com os jesuítas. Escreveu epigramas, elegias e odes e traduziu Ésquilo, Safo, Alceu e Aristóteles. Em 1919, em protesto contra a proclamação da república em Portugal, mudou-se para o Brasil e depois para o Peru, onde morava quando Pessoa morreu, em 1935. 

Tagus. Decifrador de charadas e enigmas, venceu um concurso no jornal sul-africano The Natal Mercury, de Durban, em 1903.

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Quem escreveu esse texto

Amelinha Nogueira

Matéria publicada na edição impressa #47 em maio de 2021.