Música,

O destino de Patti Smith

Com o lançamento de dois livros, um dos grandes nomes do movimento punk se consolida como escritora

01dez2019 - 01h00 | Edição #29 dez.19/jan.20

Patti Smith acredita no destino. Aos doze anos, ao pisar pela primeira vez no Museu de Arte da Filadélfia e contemplar obras de Picasso, passou por uma transformação. Ela havia descoberto a arte e que o artista vê o que os outros não conseguem ver. Ouvira o chamado, mas temia não ter uma vocação verdadeira para seguir esse caminho. Como a grande leitora que era (e ainda é), deixou um emprego em uma fábrica de Nova Jersey e, aos vinte anos, partiu para Nova York tendo Iluminações de Arthur Rimbaud como única companhia.

Eram meados dos anos 1960 e a cidade fervilhava em meio ao movimento da contracultura. Smith conviveu com os principais artistas da cena nova-iorquina, de poetas beat a grandes nomes do rock que orbitavam em torno da icônica casa de shows cbgb e do Hotel Chelsea, onde Smith dividiu um quarto com seu então companheiro, o fotógrafo Robert Mapplethorpe. Mais jovem, Smith sonhava em ser musa, mas depois acordou para o fato de que ela mesma poderia fazer sua própria arte: embrenhou-se pela poesia, pelas artes plásticas, pela forografia e pela música para se tornar um mito do rock.

Considerada uma das principais figuras do movimento punk norte-americano dos anos 1970, ela lançou mais de uma dezena de álbuns, entre os quais Horses (visto como um dos melhores discos de estreia da história do rock pela revista Rolling Stone), de 1975, e Easter, de 1978 (que traz a sua canção mais conhecida, “Because the Night”, coautoria com outra cria de Nova Jersey, Bruce Springsteen). Olhando de fora, parecia que ela já havia conquistado a sua glória máxima.

O destino, no entanto, é um negócio engraçado — “ele tem sua mão, mas não é a mão”, explica ela em Devoção; a gente procura uma coisa e encontra outra coisa. Aos 72 anos, Patti Smith se tornou quem ela deveria ser. “Sou só uma escritora”, é assim que ela mesma se define em Devoção, um dos livros de sua autoria que saiu agora no Brasil, junto com O ano do macaco, pela Companhia das Letras.

A editora já tinha lançado Só garotos, livro em que se revelou uma grande memorialista ao narrar de forma sensível a sua relação de profunda amizade com Robert Mapplethorpe e que lhe rendeu o National Book Award em 2010; e Linha M (2015), uma mistura de livro de memórias com relato de viagem e uma celebração aos objetos inanimados, além de ser uma singela homenagem aos cafés, hábitat dos escritores, esses seres solitários que para escrever precisam de uma dose diária de cafeína e um contato humano mínimo.

Eclipsar a realidade

O ano do macaco é uma espécie de continuação de Linha M, seguindo a mesma estrutura de capítulos breves com temas, à primeira vista, aleatórios, permeados por lembranças e objetos afetivos, espalhados em imagens de polaroides ao longo do livro. Escrita a partir do fim de 2015, quando Smith, ao completar 69 anos, viu seu grande amigo, o produtor musical Sandy Pearlman, ser hospitalizado, a obra é uma espécie de diário pessoal do ano de 2016 (o ano do macaco, segundo o calendário chinês).

Se Linha M é permeado pela presença do marido de Smith, o também músico Frederick “Sonic” Smith, da banda de rock MC5, que morreu em 1994, aos 46 anos, O ano do macaco é marcado por várias perdas: a morte de Sandy; a perda gradativa dos movimentos corporais do escritor Sam Shepard (com quem Smith teve uma relação intensa narrada em Só garotos e que veio a morrer em 2017), que faz com que ela fique hospedada na sua fazenda para ajudá-lo a terminar de escrever seu último manuscrito; a derrota dos democratas para Donald Trump nas eleições para a Presidência dos eua.

Ao contrário de Linha M, O ano do macaco deixa ainda mais confusa a separação entre ficção e realidade, pois os sonhos acabam invadindo os relatos do cotidiano de Smith. Inclusive, os melhores diálogos da obra acontecem entre a própria autora e a placa de uma pousada. Parece uma forma de burlar uma impressão que ela tem em Linha M: “Às vezes eclipsamos nossos sonhos com a realidade”. Pois o sonho, em O ano do macaco, parece mais real que a própria realidade.

A busca pela solidão é uma constante. Em “Uma espécie de epílogo”, elenca outras perdas (o irmão, o marido, a mãe, o pai, o gato, o cachorro) e reflete sobre a passagem do tempo: “Quando comecei a escrever estas palavras eu ainda não sabia, e é possível avançar ou retroceder, mas o tempo dá um jeito de continuar passando, tiquetaqueando, coisas novas que não se podem alterar, não se podem processar rápido o bastante. […] você escreve no tempo e então o tempo passou e na tentativa de agarrá-lo você escreve um livro totalmente diferente”.

Apesar de ponderar sobre a inexorabilidade do tempo e lembrar as pessoas que perdeu ao longo do caminho, o livro não é uma obra pessimista. Longe disso. Patti Smith sempre escolheu a vida. Ela deixa isso claro desde Só garotos diante da perda de vários de seus contemporâneos, ao longo dos anos 1960 e 1970. O pacto com a vida é perenemente renovado: “E ainda assim eu continuo achando que alguma coisa maravilhosa está para acontecer. Quem sabe amanhã. Um amanhã e depois de uma sucessão inteira de amanhãs”.

Arqueologia criativa

Devoção é um pequeno vislumbre sobre o seu trabalho de criação. No capítulo inicial, “Como a mente funciona”, Smith apresenta ao leitor as inspirações que surgem para ela compor a história fictícia que toma grande parte do livro: o título surge depois de Smith ver a palavra “Dévouement” escrita em uma lápide de um cemitério francês onde está enterrado o poeta Paul Valéry (Smith tem o hábito de visitar os túmulos de seus heróis literários para prestar-lhes homenagem, como uma espécie de peregrinação); a heroína do seu conto fictício vem da fusão de uma jovem russa, cuja apresentação de patinação no gelo Smith vê pela tv no quarto do hotel, e da escritora Simone Weil, sobre quem está lendo e cujo túmulo visitou em Londres. O capítulo final, “Escrito num trem”, traz imagens do caderno em que Smith escreveu o conto, assim como fotografias de suas inspirações. É a arqueologia do processo criativo.

A história ficcional traz o estranhamento presente nas composições musicais de Smith, em que a atmosfera sensual vai desvelando situações que são, essencialmente, perturbadoras. Em Devoção: a relação entre a órfã imigrante Eugenia, de dezesseis anos, cuja principal vontade é seguir a sua vocação de patinar no gelo, e um homem mais velho que lhe oferece a oportunidade de viver da sua arte em troca de favores sexuais. É como se Lolita de Nabokov fosse ambientado em um romance criminal escandinavo (ainda que a história se passe na Suíça). Nenhum personagem sai impune. Só a arte importa.

Outro túmulo aparece no trecho final: o de Albert Camus. Parece que são nessas peregrinações visitando os mortos que Smith renova incessantemente seu compromisso com a vida. Convidada pela filha do escritor, Smith ficou hospedada na casa da família em Lourmarin e dormiu no quarto do autor de O estrangeiro. Lá, folheou o manuscrito de O primeiro homem, último romance do escritor. Enquanto manipula os papéis, ela sente “aquele impulso que impede que eu me entregue por completo a uma obra de arte”. É o poder de sentir o “relance do divino”. É “o poder decisivo de uma obra singular: o chamado à ação. E eu, repetidamente, sou tomada por uma orgulhosa arrogância que me leva a acreditar que posso atender a esse chamado”.

Ainda no final, Smith se pergunta por que alguém é compelido a escrever. Por que sentiu essa necessidade desde a juventude de se afastar das brincadeiras, de amigos e dos amores para ficar na companhia das palavras? Por que ela escreve? Ela responde: “Porque não podemos somente viver”. A escrita se apresenta assim como um compromisso com a vida.

Quem escreveu esse texto

Paula Carvalho

Jornalista e historiadora, é autora e organizadora de Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt (Fósforo).

Matéria publicada na edição impressa #29 dez.19/jan.20 em novembro de 2019.