Especial Pantanal, Memória,

Memória de mulher

Ao relatar a trajetória do marido, autora transporta o leitor ao universo dos fazendeiros da região

01ago2022 - 04h51 | Edição #60

Izabel de Arruda Viégas escreveu Pantanal: reminiscências de nossas vidas na década de 90 com a intenção de deixar aos descendentes um relato fiel da trajetória de José Gomes Viégas, o Zezinho, e homenagear o marido. O testemunho narra o percurso de um homem que, de peão e capataz em fazendas da Nhecolândia, se tornou pecuarista no Paiaguás (MS). A narrativa apresenta procedimentos típicos das memórias escritas por mulheres nascidas entre o século 19 e o início do 20 no Brasil. De um lado, nota-se a ausência de pretensão literária; de outro, a contribuição na reconstrução de pontos de vista femininos, apagados historicamente.

Olhar para nosso passado literário ajuda a entender as conquistas das mulheres que escrevem 

Izabel registrou a dificuldade em se manter fiel ao projeto iniciado após a morte de Zezinho. Organizado cronologicamente, o relato utiliza a estratégia de remontar aos ascendentes como pontapé inicial, seguindo na reconstituição da infância e juventude dos dois. Uma variedade de termos (“rodada”), expressões (“quebra-torto”) e costumes (“comitivas”) transporta o leitor para o universo de uma família tradicional católica nas fazendas pantaneiras. As experiências descritas vão dos obstáculos para ingressar no ensino formal, dados o isolamento e os riscos envolvendo o trabalho em uma região sujeita a enchentes, ao uso de plantas medicinais e às aflições que acometiam as mulheres na hora de parir em lugar tão ermo. A década de 30 é marcada pelo período de estudo no Liceu Cuiabano, quando Izabel se sente abandonada pela família para morar com freiras rigorosas, sem afeto e sem liberdade. O “sacrifício” é superado e, em 1933, ela volta a morar com a mãe e os irmãos estando apta a cursar o ensino superior, mas foi impedida de ingressar na universidade, e o casamento se torna a alternativa de futuro. 

A primeira característica que inclui o livro na tradição literária do memorialismo de autoria feminina é a relação distanciada entre a matéria narrada e o momento da escrita. Em geral, mulheres que escreveram memórias tiveram uma vida longeva e na etapa final da vida são tomadas pelo orgulho diante da própria experiência. O fato de se constituírem escritoras veio da oportunidade de terem frequentado boas escolas e adquirido capital intelectual, diferentemente da maioria das mulheres nascidas na mesma época. Izabel é perspicaz ao analisar as transformações sociais ocorridas com as mudanças legislativas em 1964 regulamentando a posse de terras, ou quando dedica um capítulo ao advento do radiotransmissor e o impacto que essa nova tecnologia trouxe para a região.

Atitude condescendente

Porém, quem parece ganhar mais prestígio nos relatos memorialísticos de mulheres dessa época são as figuras masculinas: maridos, pais, irmãos. Como se precisassem deles para validar as narrativas. Mesmo sendo Izabel a autora do relato, o primeiro plano está em Zezinho. Essa atitude condescendente se explicita na introdução: “Concluí ser um dever meu não deixar no anonimato esse homem que, em vida, passou obscuro na sua grande humildade”. Aliado a esse procedimento está o do rebaixamento. É recorrente esses textos anteciparem críticas ou então as autoras se eximirem da capacidade de fazer literatura.

Apesar de aspectos que parecem colocar em xeque a própria noção de autoria, o estudo de obras memorialísticas oferece uma leitura a contrapelo. Percebe-se um movimento sutil, próprio de quem agia nos bastidores impulsionando as grandes mudanças. Em suas reminiscências, Izabel relata ter sido o pivô da transição que alterou a posição econômica de Zezinho de empregado para patrão. 

O exercício de olhar para nosso passado literário ajuda a entender as conquistas das mulheres que escrevem. Com plena consciência sobre os limites de participação na vida pública e letrada, elas invocavam estratégias narrativas hoje dispensáveis, haja vista a fotografia histórica de semanas atrás, quando centenas de escritoras se reuniram em várias cidades do Brasil e do mundo para o registro que celebrou a presença das mulheres no meio literário.

O especial Pantanal tem o apoio de Documenta Pantanal

Quem escreveu esse texto

Mariana Diniz Mendes

É doutoranda em literatura brasileira na Universidade de São Paulo (USP).

Matéria publicada na edição impressa #60 em julho de 2022.