História, Moda,

Versalhes sem pose

Reportagem reconstitui noite histórica de desfiles que entronizou o “prêt-à-porter”, os negros e os norte-americanos no reino da moda

15nov2018 - 14h42 | Edição #8 dez.17-fev.18

Como os termos “batalha” e “Versalhes” no título levam direto à Primeira Guerra Mundial, vamos primeiro ajustar datas e tema: aqui, a batalha de Versalhes foi um delirante desfile que opôs cinco nomes da alta-costura francesa a cinco ascendentes estrelas americanas. Na noite de 28 de novembro de 1973, Oscar de la Renta, Bill Blass, Anne Klein, Halston e Stephen Burrows enfrentaram Yves Saint Laurent, Hubert de Givenchy, Pierre Cardin, Emanuel Ungaro e Marc Bohan (Dior). Ganharam de lavada — e, de repente, a moda ficou mais desencanada, alegre, classe média e negra.

A batalha de Versalhes: a noite que mudou a história da moda coloca o leitor nos bastidores dos preparativos e na plateia do desfile. Robin Givhan é crítica de moda do Washington Post, conhecida pela franqueza e por espinafrar roupas escolhidas por políticos para momentos marcantes. Exemplo: o então vice-presidente dos EUA, Dick Cheney, na cerimônia de 60 anos da libertação de Auschwitz, em 2005: “Ele estava lá representando o povo norte-americano. Não quero ser representada por alguém, tipo, usando uma parka”.

Suas resenhas têm títulos irresistíveis: “Stella McCartney quer que você vista jeans dos anos 80 de novo. Não faça isso”. Mas, calma, antes de rotulá-la de corta-barato, espie este: “O que você acha de tie-dye? Bem, talvez Michael Kors abra a sua cabeça”. É a única jornalista de moda premiada com o Pulitzer. Segundo o Washington Post, “cobre moda como negócio, instituição cultural e puro prazer”. Bingo.

Moda é um assunto generoso. Entre o tecido que cobre o corpo e a imagem que a pessoa vestida projeta, saltam convites para falar de tudo: história, arte, política, sexo, economia. O livro é um exemplo contundente. A crise do petróleo e a Guerra do Vietnã aparecem como pano de fundo às críticas feitas à futilidade de um evento grandioso. A segregação racial e o movimento negro contextualizam a presença marcante de modelos negras nos desfiles. De Andy Warhol, que começava a virar uma figura conhecida na noite nova-iorquina, ao ditador líbio Muammar al-Gaddafi, figuras variadas pintam ao longo da história.

Haute couture ou ready-to-wear

Mas voltemos ao desfile. Para falar do evento — uma festa para arrecadar fundos para a restauração do Palácio de Versalhes e virou batalha no apelido criado pela imprensa da época, você sabe, para chamar a atenção — Givhan antes explica o que é alta-costura, conta a gênese do ready-to-wear (ou prêt-à-porter, ou roupa comprada pronta, na loja) e faz um esforço notável de retratar a origem da indústria de moda nos Estados Unidos.

Os cinco capítulos sobre os estilistas que forçaram uma indústria de cópias a assumir criações autorais já valeriam a leitura do livro. O maior feito de Givhan está em apresentar com cuidado cada uma das figuras do lado americano da batalha. Muito prazer, Elizabeth Lambert, idealizadora do evento. Oscar de la Renta, Bill Blass, Halston, Anne Klein e Stephen Burrows, estilistas. Billie Blair, Bethann Hardison, Amina Warsuma, Pat Cleveland, Charlene Dash, Ramona Saunders, Norma Jean Darden, Barbara Jackson, Alva Chinn e Jennifer Brice, as modelos negras que transformaram Versalhes num marco da presença de negros na moda.

Givhan gasta 170 páginas desenhando o contexto do evento e vinte falando dos dias anteriores à noite de 28 de novembro. Quando por fim chegamos aos portões dourados de Versalhes, são 22 páginas eletrizantes. De arrepiar. A partir de registros da imprensa, entrevistas, fotos e vídeos, ela reconstitui o desfile com vivacidade.

Os franceses fizeram um show pomposo, com orquestra, mais de uma hora de duração e cenários grandiosos, que exigiam pausas para serem trocados entre os desfiles. As roupas eram uma seleção de peças não criadas para a ocasião e refletiam tanto a cara de cada maison (Cardin, futurista; Dior, elegante; Saint Laurent, viajante) quanto a silhueta da época, fluida, com tecidos que acompanham o movimento do corpo (ou tentam acompanhar. O corpo acaba contido pela estrutura impecável da haute couture). Depois ainda houve apresentações do bailarino Rudolf Nureyev e da cantora Josephine Baker. Intervalo, champanhe, voltem a seus lugares.

Em trinta minutos, os cinco estilistas americanos apresentaram suas coleções, feitas especialmente para o evento, em uma sequência única, sem pausas, sob o tema de “Cinderela em Paris”. Cada apresentação era uma coleção autoral, mas todas as roupas eram flexíveis, fluidas e fáceis de pôr e tirar. Todas as marcas tinham alguma peça de malha. As peças não só acompanham o movimento do corpo, elas convidam o corpo a se movimentar. A abertura e o desfecho do show, com o clima bem Broadway, ficaram a cargo de Liza Minnelli. As modelos, ensaiadíssimas pela coreógrafa Kay Thompson, imprimiram tanta atitude e dramaticidade às roupas que roubaram a cena. Ou melhor: dividiram as atenções com o estilista Stephen Burrows. Depois do segmento dele, que apresentou os vestidos-alface, de malha finíssima, de lingerie transparente, e com a barra costurada formando uma torção que lembra a borda da folha da verdura, a plateia de aristocratas europeias e milionárias norte-americanas urrava.

A batalha opôs a alta-costura ao ready-to-wear, tradição à modernidade, aristocracia à mobilidade social, pose à atitude desencanada, o peso da herança ao valor do trabalho. Ficou claro — quase duzentos anos depois da Revolução Francesa — que o legal mesmo é vestir a plebeia, a mulher que dá um pulo em casa depois do trabalho para se arrumar, pá-pum, para a noite. É, demorou um pouco.

Depois do desfile o livro ganha um clima de fim de festa. Em um capítulo longo e menos vibrante, Givhan tenta dar conta do que houve de 1973 até aqui, narra a derrocada de todos os personagens — a morte prematura de Anne Klein, a falência de Burrows, a conversão religiosa de Blair — e o retrocesso racial na década seguinte. É duro. Resista porque o epílogo vale a pena. São nove páginas de um ensaio potente sobre a presença de modelos e estilistas negros na moda. “Versalhes não alterou o padrão de beleza. Mas provou que fugir do aceito e esperado pode produzir resultados triunfais”, conclui Givhan, negra.

Quem escreveu esse texto

Heloisa Lupinacci

É editora do site Panelinha.

Matéria publicada na edição impressa #8 dez.17-fev.18 em junho de 2018.