Livros e Livres,

Memórias interrompidas

Recordações de Jean-Claude Bernardet são costuradas de maneira fragmentária após morte da idealizadora de biografia

13dez2023 - 17h12 | Edição #77

Demorei para ler Wet mácula: memória/rapsódia, de Jean-Claude Bernardet e Sabina Anzuategui. Publicado pela Companhia das Letras, o livro costura memórias de Bernardet num claro desvio de trajetória. O primeiro material produzido no processo de sua confecção acompanhou a proposta da escritora e tradutora Heloisa Jahn, que morreu por causa de um AVC em 2022, deixando inconcluso seu processo de pesquisa biográfica, além da herança de muitas horas de entrevista com o crítico, escritor e cineasta que conheceu na intimidade e com quem firmou uma forte amizade.


Em Wet mácula: memória/rapsódia, de Jean-Claude Bernardet e Sabina Anzuategui, acompanhamos estilhaços de memória de Bernardet, que chega aos 87 anos com duas dezenas de livros publicados e mais duas de filmes realizados

Anzuategui era amiga de ambos e entrou no projeto depois da morte de Jahn, consolidando com Bernardet um projeto a quatro mãos. Ela teve acesso a novecentas páginas de transcrição de gravações que registraram dois encontros semanais entre Bernardet e Jahn de maio a dezembro de 2021, com um chorinho de registros feitos no início de 2022. O material foi usado na consecução de uma narrativa fragmentária e não cronológica que estimula atenção dobrada. Acompanhamos estilhaços de memória de um pensador que se dedicou à produção audiovisual, à crítica e à literatura e que chega aos 87 anos com duas dezenas de livros publicados e mais duas de filmes realizados.

Existem no livro pontos de apoio factuais para as espirais de lembranças, tais como a vinda de Bernardet ao Brasil na infância depois da separação dos pais, a relação com cineastas, atrizes e atores do Cinema Novo, bem como a atuação política nos anos de ditadura e os dias na clandestinidade. A lente utilizada, as formas concisas, quebram o tom dramático com situações prosaicas quando a curva era trágica: em uma passagem, Bernardet vê a figura da mãe se afastar pela janela de um carro enquanto chora na porta de casa. Depois, essa imagem se desdobra numa cena de filme em que as personagens das atrizes Odete Lara e Norma Bengell são abandonadas também por um carro a se perder de vista.

Sobressai desse passeio de 87 anos uma leveza e a gentileza de olhar para o outro com grande interesse

Os personagens e as situações saltam do livro sem disciplina, numa cadeia de associações livres, com menções a salas de cinema, hotéis, festivais. Também entram imagens e mais imagens de filmes. Entra Lima Duarte interpretando um operário procurando uma trena em filme de Ruy Guerra. Entra uma opinião furtiva sobre A marvada carne (1985), de André Klotzel. Ou ainda um encontro com Carlos Marighella e o contato com células da guerrilha, bem como as omissões do cineasta dentro de casa a respeito de sua atuação política.

“Não contei a Lucilla, ficaria preocupada”, escreve. Lucilla é sua ex-mulher, personagem que vai se desenvolver ao longo da narrativa sem que haja um aprofundamento psicológico de envergadura bibliográfica. Bernardet não gosta de expor sua intimidade. Ou expõe a vida privada com muita cordialidade, como quando aborda um conflito com Glauber Rocha, no qual ambos trocam acusações ideológicas, apontando no outro traços de um complexo reacionário.

Esses fluxos formam um mosaico em torno da sétima arte, o que acontece, por exemplo, na passagem de Bernardet pelo cineclube Dom Vital, que era católico, “como seu nome indica”, ainda que o cineasta nunca tenha “prestado atenção neste detalhe”. Um bom momento para que o leitor se pergunte: quem escreveu os trechos assim transcritos em primeira pessoa, Bernardet ou Anzuategui?

Fóssil narrativo

Primeiras e terceiras pessoas do livro são construções literárias, afirma Anzuategui. “Escrevi várias passagens usando o ‘eu’, mantendo Jean-Claude como narrador. E ele muitas vezes queria escrever sobre si mesmo usando terceira pessoa”, diz a escritora, cujo nome também aparece como um personagem flutuante, voz para diálogos metalinguísticos. “A gente montou o livro juntos, e uma parceria com muita sintonia e igualdade”. A ideia de Jahn, que aflora também como personagem de anos recentes, era “uma biografia séria, acompanhada de pesquisa”, diz Anzuategui. “Não era o livro fragmentário que a gente fez.”

Já Bernardet nunca quis fazer uma autobiografia. “Ele aceitou nessa vez com a Heloisa Jahn, mas deixou claro que não queria nada cronológico”. Na hora de escrever, os dois se desentenderam um pouco. “Acho que na cabeça dele sempre foi uma coautoria em que, depois das gravações, iam dividir os temas e trabalhar juntos. Mas essa não era a compreensão da Heloisa. Acho que ela queria editar os textos por conta própria e conversar só sobre a montagem”, diz Anzuategui. “Para Jean-Claude, que trabalha em cinema, é muito natural criar em parceria. Então realmente acho que foi um desencontro de método. De qualquer maneira, esse desentendimento não durou. A morte dela atropelou tudo”.

Esse processo de formas inconclusas nos leva ao terreno instável da formação de um fluxo de memória, inclusive em fricção com o gênero literário aí compreendido. O próprio autor se questiona sobre suas lembranças. “Nas repetições, a historinha se estrutura numa lógica própria, se distancia da vivência. Se estratifica. Vira fóssil narrativo. Gosto da expressão, mas não gosto dos meus fósseis.”

Anzuategui diz que, embora Bernardet questione a sua memória, as informações passadas pelo cineasta batem com o que foi aferido em checagens. Sobressai desse passeio de 87 anos uma leveza espiritual e a gentileza de olhar para o outro com grande interesse. A morte de Jahn é cercada por essa atmosfera de doçura, e o luto de Bernardet não deixa de se valer inclusive de uma fração de humor.

Eu cheguei tarde na noite do seu velório. O corredor estava lotado de amigos, escritores, editores, família. As pessoas se aproximavam para me cumprimentar, como se eu fosse o viúvo. Até mesmo o viúvo me cumprimentou como se eu fosse o viúvo.

Caminhamos então para os problemas da velhice, uma doença na vista, uma compreensão vasta de que o passado está muito mais presente, o que a escrita acentua com o uso progressivo da terceira pessoa para falar de si. E vamos ouvindo a voz de Bernardet numa espécie de afastamento oblíquo, como uma história que se refaz. 

Este texto faz parte do especial “Livros e Livres”, sobre literatura LGBTQIA+, realizado com o apoio do Fundo de Direitos Humanos do Reino dos Países Baixos e publicado na edição #77 da Quatro Cinco Um

Editoria com apoio do Fundo de Direitos Humanos da Embaixada do Reino dos Países Baixos

Desde 2023, o Fundo de Direitos Humanos da Embaixada do Reino dos Países Baixos apoia a cobertura especial Livros e Livres, dedicada a títulos com temática LGBTQIA+

Quem escreveu esse texto

Gustavo Fioratti

É editor e jornalista da Folha de S.Paulo.

Matéria publicada na edição impressa #77 em novembro de 2023.