Livros e Livres,

Exército de santas malditas, bruxas queer e perigosas

Filósofo cria novas terminologias e apresenta proposições político-transformadoras em livro repleto de ironias e blasfêmias

01jan2024

O mais recente livro do filósofo, escritor, cineasta e curador Paul B. Preciado é uma obra repleta de ironias, neologismos e blasfêmias. Dysphoria Mundi reúne uma imensidão de temas, todos eles em torno da experiência do corpo transgênero no mundo e as tantas formas de regulação e de destituição de si pelas quais estes sujeitos precisam passar. Partindo de sua própria experiência de trânsito de gênero, Preciado elabora um conjunto de teorias sobre o presente e sobre um mundo que está desmoronando. Dysphoria Mundi é um livro que parece habitar uma zona de transição planetária, uma espécie de anúncio axial, de um tempo por-vir frente a um tempo que ainda não morreu, o famoso interregno, como nos ensinou Gramsci.

Preciado assim o define:

Trata-se de um livro disfórico, ou melhor, não binário: evita as diferenças convencionais entre teoria e prática, entre filosofia e literatura, entre ciência e poesia, entre política e arte, entre anatômico e psicológico, entre a sociologia e a pele, entre o banal e o incompreensível, entre o lixo e o sentido.

Confirmo aqui a descrição dada pelo autor a essa sua obra: é inclassificável, são pílulas textuais hiperconcentradas reunindo em cada uma delas da poesia à oração. Fosse esse livro matéria comestível eu diria: coma devagar, há risco de congestão. A profundidade se alia à velocidade e aos novos conceitos que nos são apresentados. Entre um relato pessoal e uma profunda discussão sobre metafísica há pouco espaço diferencial, somos levados de um lugar ao outro de modo instantâneo.

Ao lançarmos um olhar atento para os livros anteriores de Preciado, percebemos que a escrita veloz, quase irrespirável é muito própria do autor. Seu texto tem ritmo e esse ritmo é de tirar o fôlego e nos fazer pedir ar. Nessa nova obra, seu estilo se mantém. Em Manifesto Contrassexual (Zahar, 2022) percebemos um Preciado esmerado em apresentar a história da sexualidade como sendo uma história das técnicas e de uma cartografia sexo-política e organicista sobre os corpos parlantes; em Testo Junkie (N-1, 2018), percebemos um Preciado ávido para explicar os efeitos vividos da auto-aplicação de testosterona e toda sua proposição de capitalismo farmacopornográfico e argumentá-lo desde outros autores como Foucault e Lazzarato; aqui, em Dysforia Mundi, percebemos um autor mais despreocupado, que se permite escrever sobre sua transição de modo trivial e cotidiano. Tendo a pensar que em termos de voz autoral e estilística, Dysphoria Mundi é uma obra intermediaŕia entre Testo Junkie e Um apartamento em Urano: crônicas da travessia (Zahar, 2020).

O livro é composto por sete capítulos: “Dysforia, mon amour”, “Hipótese Revolução”, “Heroína Eletrônica”, “Notre Dame das Ruínas: Prelúdio”, “Dysphoria Mundi”, “Mutação Intencional e Revolução Somatopolítica”, “Carta aes Noves Ativistes: Pós Fácil”. Alguns leitores diriam que é o “Dysphoria Mundi” — páginas 85 a 500, ou seja, mais de 90% do livro — o capítulo mais importante, porque seria onde Preciado nos apresenta a um conjunto de novas terminologias. Contudo, penso que os capítulos anteriores constroem um solo conceitual para o leitor menos habituado ao autor; particularmente, considero central, na compreensão das proposições político-transformadoras que atravessam esse texto, a compreensão de que habitamos um mundo disfórico.

Preciado nos convida a compreender a “disforia” de modo muito mais amplo, não como uma experiência patológica do indivíduo, mas como um processo vivido planetariamente. Ele nos dirá que é preciso entender a Dysphoria Mundi como uma condição somatopolítica geral, como resultado da dor produzida por uma gestão necropolítica de nossas subjetividades. Nesse sentido, tais forças de repressão ou revolução não estariam mais restritas a uma classe, nação ou identidade, mas percebidas em todos os lugares. A disforia, etimologicamente, conforme explica o autor, pode ser compreendida como uma “dificuldade de chegar ao seu lugar”, uma impossibilidade de pertencer. Quando propõe que a dysphoria mundi é uma episteme, uma nova ontologia, Preciado se mostra urgente e revolucionário, uma vez que invoca um modo de análise e uma categoria de pensamento capaz de servir de mote para a compreensão de um tempo em que as pessoas generalizadamente se sentem estrangeiras em suas próprias casas, corpos e tempo.

Contaminação

Dysphoria Mundi foi escrito durante a pandemia e isso marca a obra, a começar pela correlação que o autor constrói entre a pandemia de Covid-19 e a epidemia de HIV/AIDS que matou tantos sujeitos sexo-gênero dissidentes ao longo dos anos 80. Quando discute “políticas sexovirais” e as respostas ao HIV/AIDS, Preciado nos convida a pensar com o vírus — e nesse caso, não significa pensar a partir das estruturas sociais que modelam a resposta social ao vírus, porque são essas estruturas que fizeram, por exemplo, do HIV uma doença de viados e travestis e da Covid, o vírus que destrói famílias.

Pensar com o vírus supõe deixar de lado o pensamento binário e dialético, as oposições taxonômicas — entre humano e animal, cultura e natureza, branco e negro, reprodução como ideal de vida, esterilidade como sinônimo de morte, presente e passado, feminino e masculino, estrangeiro e nacional.

Ou seja, pensar com o vírus, ao invés de assumir uma posição de eliminação de idosos ou de homossexuais, lésbicas e travestis, é assumir o vírus como elemento constituinte deste mundo e pensar em formas de viver. Preciado retoma David Napier para asseverar que a questão da contaminação diz respeito à ordem cultural e não ao vírus ou a um protocolo médico específico; é obra daquilo que ele chamará ao longo do livro de capitalismo petrossexual.

Trata-se de uma obra densa e por isso qualquer esforço de resenha estará em débito. Contudo, alguns dos conceitos-chave que o autor articula não podem ficar de fora. Regime petrossexoracial, sistema integrado mundial, é um certo paradigma econômico e político marcado pelo petróleo, pela heterossexualidade e por práticas de racismo, Dysphoria mundi é uma nova epistemologia social, uma nova forma de entender a disforia de gênero pensando, neste caso, numa disforia geral, construída como resultado da gestão necropolítica das nossas subjetividades; e Simbiontes políticos propõem novas formas de pensar o sujeito da revolução — questão clássica e cansada para as esquerdas mundiais — misturando vocabulários da biologia e da filosofia, em diálogo possível com as obras de Vinciane Despret, Anna Tsing e Donna Haraway.

Preciado direciona o posfácio, escrito como carta e com título em linguagem neutra, aes noves ativistes, e diz por fim:

Vocês não estão sozinhos, lembrem-se disso. Existe um panteão de santos e bruxas feministas, queer e trans, e, embora tenha sido amaldiçoado pela cultura em que cresci e negado durante anos por minha família, sempre me senti protegido por eles. Quase não há um dia em que os santos queer não se manifestem em nossas vidas. Essa catedral de santos malditos é mais forte que a cultura nacional, mais acolhedora que a família biológica, mais protetora que a Igreja, mais hospitaleira que a cidade em que se nasce.

Esse final me comove porque quantos e quantas de nós não estamos fazendo nossas travessias por este mundo e nos sentimos fatalmente sozinhos? Não estamos. Existem inúmeras malditas como Preciado, vocês e eu, que faremos a revolução somatopolítica que os machinhos brancos e heterossexuais com certeza não sabem fazer.

Esse texto faz parte do especial “Livros e Livres”, sobre literatura LGBTQIA+, realizado com o apoio do Fundo de Direitos Humanos do Reino dos Países Baixos e publicado na edição #77 da Quatro Cinco Um

Editoria com apoio do Fundo de Direitos Humanos da Embaixada do Reino dos Países Baixos

Desde 2023, o Fundo de Direitos Humanos da Embaixada do Reino dos Países Baixos apoia a cobertura especial Livros e Livres, dedicada a títulos com temática LGBTQIA+

Quem escreveu esse texto

Helena Vieira

Filósofa, transfeminista e escritora, é colunista da revista Cult.