Literatura,
Você precisa saber da piscina
Romance de Paloma Vidal mergulha, com brilho e precisão, na fronteira ambígua entre dois países — e no pior de nós
30jul2026Punta del Este poderia estar em qualquer parte do mundo. Quem visita a cidade encontra uma orla marítima que se assemelha a outras, com prédios altos e de alto padrão (muitos deles desocupados o ano todo; vez ou outra uma luzinha se acende); mansões sem muros rodeadas de gramados sempre verdes, mantidos por regadores automáticos e funcionários invisibilizados; um porto pontilhado de iates e veleiros das nacionalidades mais inesperadas; as obrigatórias lojas de grife de luxo, nas quais se paga em dólares ou euros; cassinos que funcionam dia e noite, onde desembarcam, de voos fretados e sem escalas, apostadores que desembolsam fortunas nas roletas, no pôquer e no blackjack.
É um balneário dito internacional, para o qual migram no verão milionários, novos-ricos, artistas e celebridades, que vira uma cidade quase fantasma quando termina a estação (cada vez menos, é verdade). Como ocorre em outros destinos erguidos ou “retrofitados” pelo capital estrangeiro, muitas vezes em operações escusas de lavagem de dinheiro, grande parte dos moradores de Punta — como gostam de chamá-la os que se sentem íntimos — e, principalmente, de Maldonado — o centro urbano que atende ao balneário — torna-se mão de obra a serviço dos turistas, com os quais convive em sutil tensão, sobretudo no caso dos abastados argentinos que fincam bandeira e se sentem donos do pedaço.
Punta del Este poderia estar em qualquer parte do mundo, mas está no Uruguai, o pequeno, simpático e acolhedor vizinho que ainda chamamos de Suíça da América do Sul, em que pesem as dificuldades econômicas pelas quais o país passa nas últimas décadas e a sua complexidade.
O lado de lá, sexto romance de Paloma Vidal, agora traduzido ao português, por ela mesma, começa ajustando a lupa no mapa-múndi: estamos justamente em Punta del Este, no exclusivo bairro de Beverly Hills (não confundir com o bairro homônimo em Los Angeles, que o inspira). Nele há uma casa cujos donos são brasileiros, que se instalam ali para veraneio e em feriados prolongados.
A escritora não explica, mas consegue mostrar as tensões do balneário uruguaio de Punta del Este
A escritora não precisa de nenhuma das palavras que usei ao tentar descrever o balneário yorugua para dar conta das tensões que podem existir nesse pequeno recanto do mundo. Ela não explica nem descreve, mas mostra essas tensões e dobra a aposta. Com linguagem enxuta e frases curtas e precisas, desenha a narrativa, como uma peça de teatro, em dois atos. O segundo ato repete a estrutura do primeiro, em breves capítulos, com uma modificação leve e muy relevante, que prefiro não revelar para assegurar a surpresa estremecedora de tudo o que ocorre entre um ano e outro — e o que ainda vai acontecer. No elenco, personagens sem nome, que se movimentam no cenário com ações mínimas, pequenos gestos, entrando e saindo de cena sem que saibamos além do que fomos capazes de ver ou de depreender — a maravilha que a boa literatura promove.
Hora da novela
Conhecemos pouco dos personagens brasileiros, mas parece que sabemos quem são: os vemos pela casa, sempre no plural, se preparando para sair, assistindo a novelas, também brasileiras, num ritual quase religioso; na hora da novela costumam receber a visita do Padrinho (em alusão à figura de um Poderoso Chefão, como se nomeia em português o filme, traindo o sentido original), servido com mesuras, uísque, amendoins, azeitonas. Há também outros convidados: de um e sua mulher sabemos mais; aparecem com frequência. Todos falam baixo para não atrapalhar a escuta dos diálogos dramáticos da novela, que ressoam do lado de fora da casa por alto-falantes instalados na varanda. Na casa há uma piscina — informação importante. “A casa tem uma piscina preta”, assim começa o livro.
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Não só pelo que intuímos do bairro, da paisagem idílica de um bairro de ricos, sem muros, essa casa em particular poderia ser identificada como uma mansão. Tem pelo menos seis quartos, todos suítes, equipados como se fossem quartos de hotel. Pode haver mais, não sabemos. Sabemos que a casa tem uma área secreta, à qual não temos acesso. E que, passando a quadra de tênis (tem isso também a casa-mansão), há uma casinha, nos fundos, onde se alojam uma mulher, que trabalha como empregada doméstica, e sua sobrinha de onze anos, órfã, que dorme num colchonete no chão, sob o qual guarda recortes de jornal acerca de trágicas notícias, aos poucos entrelaçadas à vida dela. “Ela é uma menina. Às vezes parece maior. Tão esperta. Tão valente. Tão forte. Mas é uma menina.”

A tia da menina é a única funcionária da mansão. Ela é vista atendendo aos desejos dos donos da casa — inclusive prepara o churrasco sozinha, labor exigente que envolve limpar, salgar, cortar e assar as carnes, permanecendo perto do fogo sob o sol escaldante. E também prepara saladas, arroz, feijão e farofa para atender aos caprichos dos patrões, que, contaminados, excitados pelos costumes locais, aplaudem o assador, no caso a assadora, que lava a louça sozinha, guarda a louça sem ajuda. “Está exausta, dá para ver que está exausta.”
Fuma escondido em momentos roubados do dia, inquieta, cansada, desgostosa do próprio vício. Perde de vista a sobrinha, que, quando mais ninguém vê, fica na borda da piscina e ali balança as perninhas finas (como “tanquecitos de birome”, nas palavras da tia), remexe a água morna com o dedo, devaneia olhando o fundo preto (intrigada, não entende o porquê dessa cor), perde-se em pensamentos e memórias, sonha acordada, ouve os diálogos histriônicos da novela pelos alto-falantes e, sobretudo, observa atentamente os brasileiros pelos janelões de vidro, interagindo, à beira da piscina, com alguns deles, especialmente com o convidado e sua mulher, que entram em cena como elementos disruptivos, gerando uma trama de eventos imprevisíveis e explosivos.
A menina está quase sempre acompanhada de um cão, personagem igualmente relevante, cuja perspectiva a narrativa abraça sem cerimônia: sabemos o que vê, o que pensa e intui; entendemos seus arrebatamentos de cão, sempre sob proteção da tutora, que o resgatou da rua e a que a dada altura chama de “minha menina”. Um melancólico cão filósofo, importante guia pelas camadas invisíveis da história, como tudo que pudesse existir entre a superfície e o fundo escuro de uma piscina.
É interessante a passagem que mostra o cão fora da casa, ampliando o contorno da narrativa: a cidade é grande demais para eles — mesmo o bairro, que na verdade são vários bairros. Há casas grandes, com mangueiras automáticas que regam os jardins e mantêm o gramado verde durante todo o verão. E carros grandes, que passam em alta velocidade, levantando poeira. Há também terrenos baldios. Cavalos pastando. Barracos. Crianças andando de bicicleta. Ratos que rasgam sacos de lixo e roubam restos. O cachorro se diverte perseguindo-os.
Brasil imaginário
Corre em paralelo, e com força, a atração que a menina sente pelo Brasil. O nome designa, nesse contexto, mais do que um país, numa visão que não considera diversidades, desigualdades do território e seus habitantes, sequer contempla nome de cidades. Para ela, “Brasil” — e não raro para grande parte dos uruguaios, que podem ir para Florianópolis ou Rio de Janeiro e sempre estarão indo para o “Brasil” — é uma projeção de tudo que pode ser melhor, mais leve, colorido.
Os brasileiros não reclamam. São leves e alegres, como suas roupas. Adoram ficar deitados, relaxados, sem fazer nada. A menina se pergunta o que eles pensam. Talvez não pensem nada. Talvez seu cérebro fique completamente em branco, iluminado pelo sol. No Brasil é verão o tempo todo. O sol forte banha tudo, tornando as coisas mais coloridas. Talvez pensem nessas cores, formando um arco-íris dentro do cérebro.
A menina sonha ser adotada por um casal de brasileiros e deseja aprender português. A tia fala num portunhol esforçado: “No entendo o que pudo ter acontecido”, diz mais de uma vez. Gosta de ler as revistas que os donos deixam pela casa — o próprio livro se contamina por outra tessitura de linguagem, criando um incômodo eloquente, que a menina absorve.
Ela explora a fronteira da linguagem, da geografia, do que muda quando se põe o pé em um ou outro lado
Quando ela vê o carro tão grande do Padrinho estacionar à porta, deseja morar dentro desse carro e ir nele até o lugar onde, em definitivo, poderia se sentir menos sozinha, ser feliz. “Cuando me vaya a Brasil — diz a menina ao cachorro, sem terminar a frase, e ele entende.”
Lá tem muitas outras coisas. Tem as praias mais bonitas do mundo. As mulheres mais bonitas do mundo. Bronzeadas, com coxas firmes, corpos fortes, porque fazem ginástica todos os dias. Tem babás que também se vestem de branco. Tem as roupas mais bonitas do mundo. O melhor algodão, muito macio, muito elástico. As sandálias mais bonitas. As sandálias brasileiras brilham. As melhores manicures, que pintam as unhas dos pés com muito capricho, com uma linha fina de esmalte na ponta, num tom um pouquinho mais escuro que o resto.
Nas páginas finais, a autora revela que o livro começou a ser escrito, em 2013, em espanhol, “essa língua-irmã”. Ele foi publicado pela primeira vez, em 2021, na Argentina e na Espanha; depois, em 2023, no Chile, sempre com o título Banda Oriental — que, vamos nos lembrar, é o epíteto do país uruguaio, em que “oriental” cumpre função relacional, pois se refere às terras situadas à margem leste do Rio Uruguai. Ou seja, do lado de lá ou de cá, a depender do lugar de onde se olha.
Nascida na Argentina, criada no Brasil, Paloma Vidal transita entre os dois idiomas com muita naturalidade e, mais do que isso, explora a fronteira da linguagem, da geografia, de tudo que muda quando se põe o pé em um ou outro lado da fronteira, esse solo ambíguo e movediço. Como espectadores do que ela põe em cena, estamos do lado de cá — mas rapidamente sabemos que lado tomar, e tomamos. A própria transposição ao português parece cumprir um desejo oculto da menina: ver-se narrada no idioma com o qual sonha. Um propósito bonito de ver realizado.
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