Literatura,

O gótico latino-americano

Lançamentos de autoras do México e da Bolívia exploram problemas sociais e raciais por meio da literatura de horror

01jul2021 - 00h51 | Edição #47

Combinando uma aura sombria, romances perturbados, figuras vilanescas e paisagens lúgubres repletas de castelos (assombrados ou não), histórias góticas são carregadas de tragédias e infelicidades — e nem sempre terminam bem. Surgidos na segunda metade do século 18, os romances góticos, segundo estudiosos, se iniciaram a partir dos livros O castelo de Otranto (1764), de Horace Walpole, Os mistérios de Udolpho (1794), de Ann Radcliffe, e O monge (1796), de Matthew Gregory Lewis. 

Ressurgindo com força entre as décadas de 1940 e 1950, o gótico moderno geralmente anda de mãos dadas com o terror e continua transmitindo a sensação de estranheza de seus primeiros anos. Aliado ao poder do terror de trabalhar ansiedades e medos das épocas em que as histórias são escritas, há a possibilidade de criar narrativas poderosas e impactantes. Racismo, relações turbulentas, problemas sociais, mentes conturbadas e pressões diárias caminham lado a lado. Surge também uma abertura maior à possibilidade de autoras e autores LGBTQIA+ e que não estão inseridos no mercado anglófono escreverem histórias com elementos de suas próprias vivências, aumentando o leque de temas e subtextos do gênero. 

Na América Latina, a argentina Mariana Enriquez é um dos nomes que mais se destacam, com livros publicados em diversos países e que fizeram grande sucesso. As coisas que perdemos no fogo, seu livro de contos mais renomado, aparece em diversas listas de recomendações. Samanta Schweblin, Ariana Harwicz e Selva Almada também são autoras conhecidas do público brasileiro e, ao lado de nomes como Fernanda García Lao, Michelle Roche Rodríguez e Mónica Ojeda, que ainda não têm traduções para o português, vêm construindo novos rumos para a literatura gótica e de terror latino-americana moderna.

Um dos lançamentos recentes que chama a atenção e se insere nessa ideia de gótico moderno é Gótico mexicano, de Silvia Moreno-Garcia, com tradução de Maria Heloisa e Nilsen Silva, publicado pela DarkSide. Nascida no México e residente no Canadá, Moreno-Garcia nos conta a história da jovem Noemí Taboada, que, durante a década de 1950, viaja para resgatar sua prima Catalina, uma jovem órfã que se casou com um homem inglês da família Doyle e que, tempos depois, se sentindo acuada e em perigo, enviou uma carta estranha pedindo ajuda a seus parentes.

Os Doyle são uma família inglesa rica e poderosa que se mudou para o México no final do século 19. Sob seu poder está uma mina de prata, de onde sustentam seu estilo de vida luxuoso. Quando uma série de tragédias cai sobre eles, os Doyle vivenciam a perda de dinheiro e prestígio, mas tentam seguir com altivez e uma nobreza que já não lhes pertence. Noemí chega à casa dos Doyle e percebe que o local, chamado High Place (lugar alto), com uma arquitetura fortemente inspirada nas antigas construções inglesas, tem algo de errado — situado no interior do México, cercado de árvores, parece meio deslocado. 

‘Gótico mexicano’ traz uma jovialidade que o torna mais leve; ‘Terra fresca’ é sóbrio em todas as linhas

Moreno-Garcia se utiliza de temas caros a uma literatura gótica e de terror que se tornou ainda mais forte nas últimas décadas: a vontade de explorar a opressão e subverter protagonismos. Os preconceitos raciais e questões ligadas à colonização, como superioridade de raças e conceitos de antropologia criminal ultrapassados (que, no livro, são levantados a partir da figura do patriarca da família Doyle, o antagonista da história), perpassam toda a narrativa — mesmo que de forma rápida e não muito aprofundada. A intenção do livro, claro, é outra. Mas na subjetividade podemos ver essas questões nas entrelinhas. 

Pertencimento

Entre racismo e relações familiares conturbadas, xenofobia e incesto, Gótico mexicano nos apresenta uma história rápida, fluida e que levanta pequenos debates por meio dos temas inseridos em suas tramas.

Conversando diretamente com esse gótico e esse terror produzidos na América Latina, outro lançamento que merece ser mencionado é Terra fresca da sua tumba, da boliviana Giovanna Rivero, que conta com tradução de Laura Del Rey. A edição é um esforço conjunto entre as editoras Incompleta e Jandaíra. Rivero, nascida na Bolívia e que agora mora nos Estados Unidos, nos entrega um livro de contos em que os temas-chave são a família e todas as dores que acompanham as relações familiares, a morte e o local do mundo ao qual seus personagens pertencem.

Todos os contos do livro da autora boliviana têm seus pontos altos e são marcados por uma escrita forte e, de certa forma, cruel; merecem destaque “Peixe, tartaruga, urubu”, sobre um homem que precisa contar a uma mãe que o filho está morto; e “Pele de asno”, que narra com destreza o sentimento de desconforto e medo ao emigrar para um país desconhecido. Em alguns contos, a tristeza e a melancolia são quase tangíveis, marcadas por perdas de membros da família, como um filho ou um esposo; em outros, a dificuldade de adaptação em terras desconhecidas e a nostalgia pelo lugar de origem e pelo passado são mais fortes.

O que une Terra fresca da sua tumba e Gótico mexicano: além de ambas as autoras serem latinas e escreverem sobre esse local de pertencimento — a Bolívia e o México, respectivamente —, tratam do confronto entre culturas e tradições distantes, da disputa entre a cultura original e a cultura colonizadora.

A grande diferença entre essas duas obras está no tom: a protagonista de Gótico mexicano, Noemí Taboada, garante uma jovialidade ao romance de Moreno-Garcia que o torna mais leve, e o foco da narrativa está na ficção de terror, no “causar o medo”. Já nos contos que fazem parte de Terra fresca na sua tumba, Rivero é sóbria em todas as suas linhas — nem o tom de absurdo de algumas das histórias consegue dar leveza aos sentimentos, tudo ali é muito rígido. A narrativa de Rivero, com sua crueza e contemporaneidade, tem algo de lúgubre e aterrorizante conforme passamos pelas páginas da obra. Há algo de fantástico e assombroso que as duas autoras utilizaram para construir suas narrativas. Cada um com suas particularidades, ambos os livros merecem uma chance de ser apreciados e inseridos no atual cenário do gótico e do terror contemporâneos.

Quem escreveu esse texto

Jéssica Reinaldo

Matéria publicada na edição impressa #47 em maio de 2021.