Literatura,

Espectros no rio da Prata

Mariana Enriquez politiza a literatura de terror ao povoar seus contos com feminicidas e desaparecidos da ditadura

09nov2018 - 17h49 | Edição #4 ago.2017

A argentina Mariana Enriquez faz um percurso curioso: parte da crônica social para chegar à beira do sobrenatural. Traduz a miséria nas franjas da sociedade ou as tragédias políticas da história recente por uma irrealidade não menos angustiante e muito próxima de algo palpável. Uma irrealidade nua e crua, se é que isso é possível.

A habilidade com que Enriquez coloca as situações na penumbra alimenta o suspense e a complexidade da narrativa

Em As coisas que perdemos no fogo, o sétimo livro da escritora, meninos de rua, grávidas viciadas em crack, crianças mutantes e desaparecidos políticos ocupam um espaço comum de fantasmagoria. São espectros a rondar a consciência daqueles que têm uma sensibilidade paranormal. Ou uma empatia de sofrimento que chega a provocar visões. 

O horror ético e terreno que nos inspiram esses personagens marginais, frutos de violência extrema ou da desigualdade, escapa da razão imediata. Há algo de muito podre no reino da Argentina. Mortos parecem retornar do fundo dos rios, macumbeiros degolam pessoas, meninos devoram gatos vivos e homens ciumentos tocam fogo em suas esposas.

Tais terrores ocupam as páginas sem alarde. Surgem de repente, atravessam os contos com tal velocidade que quase duvidamos daquilo que acabamos de ler. Enriquez não usa efeitos especiais, sua prosa é direta. Por isso, talvez, o resultado é ainda mais perturbador. Suas influências confessas vão de Edgar Allan Poe a Stephen King, mas também incluem Julio Cortázar e Juan José Saer.

A Buenos Aires cosmopolita, elegante, orgulhosa da herança europeia, é apresentada pelo avesso. Enriquez volta o espelho para as periferias, localidades fétidas, perigosas. Em seu mapa literário, bairros afastados, ruas escuras e casas abandonadas correm debaixo do tapete dos guias turísticos, esquecidos para o mundo.

Um dos dez locais mais poluídos do planeta, quem diria, é o rio Riachuelo, que margeia a capital pranteada por Borges. É ele, de certa forma, o protagonista do conto “Sob a água negra”, dos mais impressionantes dentre as doze narrativas curtas. Uma promotora investiga o assassinato de dois jovens da favela da ponte Moreno, no sul da cidade. Tudo indica que foram espancados por policiais e lançados às águas venenosas do Tietê portenho. Ela conhecia bem a favela, que visitara várias vezes por causa de um processo penal contra um curtume que atirava dejetos no Riachuelo. 

O resultado de tanta poluição se via nas crianças deformadas, com “braços a mais (às vezes quatro), os narizes largos como os de felinos, os olhos cegos e próximos às têmporas”. Decide voltar ao local, armada. O que se segue é quase uma fábula de terror surreal, não fosse tão semelhante aos fatos (também explorados na ótima série da Netflix Cromo, dirigida por Lucía Puenzo). Tambores ensurdecedores, procissão macabra, assassinato. O Haiti profundo é ali.

Meninos de rua

O bairro Constitución, dos mais violentos de Buenos Aires, é o cenário do conto inicial, talvez o destaque do livro. Em “Menino sujo” uma mulher tenta ajudar um garoto de rua e acaba se envolvendo, indiretamente, com uma trama sinistra, ligada ao dia do Gauchito Gil, mártir religioso cujo culto pode envolver atos extremos como degolação e outras sevícias.

Também um relato assustador (Enriquez escreve muitas vezes em primeira pessoa, então os contos parecem de fato relatos), “O quintal do vizinho” traz situações parecidas. Uma assistente social, acostumada a trabalhar nas piores condições, em patrulhas na Villa 21 — outra favela violenta da capital argentina —, descobre que o vizinho acorrenta um menino nu em sua garagem. O leitor, no entanto, é confrontado com a possibilidade de que tudo não passe de alucinação, já que ela sofre com a culpa de ter sido negligente com duas crianças num abrigo. 

A depressão é tão aguda que o namorado, um dos vários personagens masculinos insensíveis do livro, a trata como louca. A habilidade com que Enriquez coloca as situações na penumbra alimenta o suspense e a complexidade da narrativa. O final, chocante e aberto como nas demais histórias, deixa a perplexidade no ar.

Tom autobiográfico

Alguns dos contos têm um tom autobiográfico e aliviam um pouco o clima claustrofóbico (mas de excelência literária) dos demais. É o caso de “Hospedaria”, em que duas adolescentes ouvem os ruídos de fantasmas de um antigo local de tortura da ditadura argentina; de “Os anos intoxicados”, em que um grupo de amigas entediadas toma remédios controlados e enche a cara: “Queríamos ser leves e pálidas como garotas mortas. Não queríamos deixar pegadas na neve”; e de “Teia de aranha”, um dos melhores, no qual a narradora parte com o marido e a prima para Assunção, no Paraguai oprimido pela ditadura de Alfredo Stroessner, onde ouvem histórias de fantasmas de desaparecidos que foram enterrados vivos nos alicerces de uma ponte.

Ela conta casos de mulheres que foram mortas ou desfiguradas pelo fogo, em ações enciumadas de seus maridos e namorados

Também nesse conto o egoísmo do marido e as consequentes dificuldades do casal são um tema à parte, que culmina, de forma espetacular e horrível, no relato final, que intitula o livro. Na sua narrativa mais abertamente política e feminista, a escritora conta casos de mulheres mortas ou desfiguradas pelo fogo, em ações enciumadas de seus maridos e namorados. O machismo e a indiferença das autoridades ante os feminicídios são expostos em todo seu vertiginoso absurdo. Nesse ponto, sem que o leitor perceba, o livro está queimando em suas mãos.

Quem escreveu esse texto

Daniel de Mesquita Benevides

É jornalista e tradutor.

Matéria publicada na edição impressa #4 ago.2017 em junho de 2018.