Literatura,

O duplo invisível

Reunião do conto “O Horla” em suas três versões permite a leitura comparada de obra clássica

14nov2018 - 17h10 | Edição #8 dez.17-fev.18

Guy de Maupassant (1850-1893) pertence ao grupo de escritores cuja obra é constantemente explicada por meio da vida. Assim como a atuação na guerra franco-prussiana teria lhe rendido a experiência por trás do conto “Bola de sebo” (popularizado no Brasil pela canção de Chico Buarque “Geni e o Zepelin”), entre os estudiosos não faltam os que atribuem a gênese da literatura fantástica de Maupassant às alucinações decorrentes da sífilis, da qual o escritor morreria aos 43 anos.

Segundo essa leitura biográfica, a dolorosa desintegração mental de Maupassant seria fruto de uma vida desregrada, motivo de preocupação e reprimendas de seu padrinho intelectual, Gustave Flaubert. Uma explosiva combinação de excessos sexuais e entorpecentes, somada a uma propensão psicotizante inata, teria oferecido o substrato de sua literatura fantástica, cuja expressão mais famosa é o conto O Horla, que ganha nova e competente tradução de Sérgio Flaksman.

Escrito em 1885 com o título Carta de um louco, o conto ganharia uma nova versão em 1886, já intitulada O Horla, e receberia sua forma final em 1887. Em todas elas temos um homem de sociedade, afeito à moral e à racionalidade de seu tempo, que vive só em uma bela casa no interior da França. A vida pacata desse narrador é abalada por um fenômeno de difícil explicação: de um momento para outro, um ser invisível passa a visitá-lo de noite, bebe a água de seu criado-mudo, lê seus livros e chega a sugar o ar que ele respira. Embora ele não possa ser visto, o narrador comprova sua existência em uma cena que se repete nas três versões do conto e já rendeu mais de uma leitura psicanalítica nos quase 150 anos durante os quais ela vem sendo insistentemente lida e estudada: o momento no qual o protagonista vê o seu reflexo apagado pela presença do ser entre ele e o espelho. Na falta de um nome melhor, a criatura — espécie de duplo invisível que consome a razão do protagonista até seu aniquilamento — é por ele nomeada de Horla — ou Horlá, na curiosa escolha do tradutor para reproduzir a sonoridade do nome francês.

A edição tem o mérito de apresentar as três versões do conto, de modo que o leitor pode acompanhar a maturação do texto, evidente sobretudo na mudança do foco narrativo. Na primeira, o protagonista escreve uma carta a um médico. Na segunda, descreve seu caso a uma junta de alienistas, e na terceira conhecemos a história pelo seu diário. É na última versão que a loucura melhor se deixa retratar, pois nela assistimos ao lento declínio da razão do narrador pelo ponto de vista deste, sem qualquer instância verificadora da realidade.

Por mais tentadora que seja, a ideia de que por trás do conto estaria a loucura do próprio autor revela menos sobre a obra do que sobre uma herança positivista francesa que ainda se deixa entrever aqui e ali. Considerar Maupassant um escritor realista que, devorado pela insanidade, teria se dedicado a contos fantásticos ao final da vida implica tratar a loucura como uma exterioridade, e relegar o fantástico de sua obra à mera condição de resultado de uma patologia. Tendo frequentado as conferências de Jean- -Martin Charcot concomitantemente ao jovem Freud, Maupassant acompanha os avanços da psiquiatria e mais de uma vez cita o eminente médico francês em sua ficção. Leitor de Darwin, Spencer e Schopenhauer, o escritor vive uma ambiguidade própria de seu tempo: se por um lado celebra as conquistas científicas e partilha da fantasia de um progresso sem limites, não deixa de lamentar a perda do mistério, o “último reduto dos poetas”.

Diante desse impasse entre o racional e o maravilhoso, o advento da hipnose e do magnetismo, técnicas revestidas de verniz científico, mas ainda encobertas por uma aura de mistério, permitiu por um lado o avanço da psiquiatria e da psicanálise, e por outro forneceu a toda uma geração de escritores o material para uma literatura que mais tarde ganharia o epíteto de fantástico clínico. Quando a fronteira entre razão e alienação deixa de ser estanque, abre-se a possibilidade de uma infinidade de estados intermediários e desconhecidos, que serão de especial interesse para Maupassant.

A voga de tais ideias lhe permitiu tratar em seus contos de personagens marginalizados, o louco, o pervertido, o criminoso, elevando-os por vezes à categoria de herói. Quando a moral perde espaço para a terapêutica, é então que o tema da loucura, objeto da ciência, mas ainda profundamente desconhecido por esta, oferece a Maupassant a possibilidade de restaurar alguma parcela de mistério ao mundo desencantado.

Quem escreveu esse texto

Rita Mattar

É editora na Companhia das Letras.

Matéria publicada na edição impressa #8 dez.17-fev.18 em junho de 2018.