Literatura,

Nem culpado nem inocente

A prosa ácida de Paul Beatty, que bagunça o coreto do debate racial nos Estados Unidos com um romance premiado e inquietante

09nov2018

Em Washington, nos bastidores da Suprema Corte, doidão de maconha, Eu relembra que, quando era criança, imaginava todos os problemas dos negros resolvidos graças à criação de um lema. De preferência em latim. Eu os submetia ao ursinho de pelúcia. O primeiro fez o bicho tapar os ouvidos e fechar os olhos de plástico: América negra: veni, vidi, vici — frango frito! O segundo não soou tão mal: Unum corpus, una mens, una cor, unum amor. Depois de outros protótipos, Eu acreditou ter chegado a um lema melhor que E pluribus unum, o dos Estados Unidos: Tu dormis, tu perdis.

Paul Beatty também segue um  adágio latino: Ridendo castigat mores — rindo, castiga os costumes. Soberbo satirista, embora rejeite o adjetivo, foi o primeiro americano a ganhar, com O vendido, o Man Booker Prize (2016). No dia 29, participa de uma Festa Literária Internacional de Paraty em homenagem a um satirista negro, Lima Barreto, com inéditos 30% de convidados negros. Beatty esculhamba tanto o racismo quanto o discurso politicamente correto. Aos dois aplica o mesmo humor furioso, que, sobretudo no prólogo, faz pensar numa stand-up comedy incômoda à vera. É difícil parar de rir. E de doer.

Um livro que começa com a frase “Pode ser difícil de acreditar vindo de um negro, mas nunca roubei nada” cria grandes expectativas. Eu enumera os delitos que a mente racista automaticamente relaciona aos negros, de assaltos a lojas de bebidas até a masturbação, em público, de um pênis gigantesco. Nas coxias da Suprema Corte, faz uma reflexão ainda mais contundente: “Agora vejo que a única situação em que um negro não sente culpa é quando ele realmente fez alguma coisa de errado, porque assim a gente se livra da dissonância cognitiva de ser negro e inocente, e de certo modo a perspectiva de ir para a cadeia se torna um alívio”.

Sim, o narrador e o que ele fez de errado… Ele se chama Eu. “Me”, no original. Não é (ao menos não apenas) o modo como Beatty nos diz que fala em seu próprio nome. Existe um erro comum, talvez derivado da incompreensão de Flaubert (“Madame Bovary c’est moi”), talvez amplificado pelos abusos da autoficção, de se confundir o autor com o personagem que usa a primeira pessoa do singular. O protagonista de fato se chama Eu porque, explica, o pai abandonou o H do sobrenome original dos Heu, família de negros que migrou das fazendas do Kentucky para Los Angeles.

Bem, Eu não vive exatamente em Los Angeles. Ao menos não na sua própria concepção de mundo. O que leva às acusações na Suprema Corte. Eu vive em Dickens, antiga área de fazendas, gueto rural engolfado pela grande cidade vizinha, sem direito a ter suas próprias placas com nomes de ruas nem senso de identidade e autoestima. Eu anda a cavalo, planta melancias dulcíssimas e maconha da boa. Baseado na experiência (“Fazendeiros são segregacionistas por natureza. Separamos o joio do trigo”), Eu tem um insight contrarrevolucionário: pinta no asfalto os antigos limites de Dickens e reinstaura a segregação racial. Só que no sentido contrário à segregação constitucionalmente revogada nos anos 60: os brancos é que são proibidos de entrar no comércio e de ocupar assentos no ônibus, dirigido pela ex-namorada de Eu, Marpessa. “Somente negros, asiáticos e latinos” anuncia uma das opções de adesivo para colar nas vitrines. 

Em O vendido — apelido que a velha guarda do movimento negro dá ao narrador, tido como alienado —, a unidade está na visão dos EUA, em geral, e de Los Angeles, em particular, como vórtices de racismo. “Los Angeles é uma cidade com uma segregação racial espantosa”, reflete Eu. “Mas o epicentro do apartheid social é a cena do stand-up.” A cena do pai, cientista social, contando piadas sem graça, divididas em rígidas seções como papers acadêmicos, é de rolar de rir.

O pai de Eu está morto e paira freudianamente sobre o livro. Desconfiado do ensino que o filho receberia na sistema público, ele o educou na Escola Doméstica do Ensino Fundamental ao Superior do Meu Pai, usando-o como cobaia de dolorosos experimentos psicossociais. Tudo em nome do despertar da consciência negra no filho bocó. (Ponto contra a autoficção: Beatty jamais conheceu o próprio pai.) Quando o pai é morto pela polícia num incidente racial tão brutal quanto banal, Eu se questiona se é para existir uma consciência negra ou se é melhor não estar nem aí.

Desconfiado do ensino que Eu receberia, seu pai o usa como cobaia em dolorosos experimentos psicossociais

Beatty coletou referências pop-eruditas como um garoto americano, de qualquer tom de pele, nascido nos anos 60. Miscigenadas, vão da “melancolia negra” de James Dean à “esfericidade lasciva e venérea da bunda grande de Marilyn Monroe”. Da coelhinha da Playboy dos anos 70 Barbi Benton ao Giovanni de James Baldwin (piscadelas de quem sabe das coisas).

Beatty brilha, também, no ritmo da prosa, que se mantém na ótima tradução de Rogério Galindo. Ele o exercitou em slams, competições de poesia falada. Primeiro a ganhar o campeonato do Nuyorican Poets Café, em Manhattan, quando era aluno de Allen Ginsberg no curso de escrita criativa do Brooklyn College, estreou com Big bank take little bank (1991). Seguiram-se um livro de poesia e quatro de prosa, além de uma antologia de humor afro-americano. Paralelamente, fez-se mestre em psicologia na Universidade de Boston.

Tensão ideológica

Além de Eu e do subserviente Hominy, seu escravo voluntário, a tensão ideológica tem um terceiro personagem importante. É Foy Cheshire, cabeça da velha guarda do movimento negro. Apresentador de programas de tv voltados para a comunidade, ele assumiu o think tank antes liderado pelo pai de Eu, os Intelectuais da Dum Dum Donuts, assim chamados por se reunirem numa loja de doces. Chesire reescreve clássicos pela perspectiva politicamente correta. Surgem, então, títulos como As aventuras de Tião Sawyer, Expectativas bem meia-boca e O condomínio do Pai Tomás.

Seja qual for a agenda de Beatty/Eu, o que a torna tão poderosa é a percepção de que nela nada é incompatível com o humor. Humor negro, em mais de um sentido. A certo ponto, Eu cita a guerra entre gangues mexicanas em torno da pronúncia de “bairro” em espanhol. Barrio ou varrio? A abordagem sarcástica e barroca das questões raciais faz o livro cumprir as promessas da primeira frase.

Embora O vendido seja coalhado de referências bem americanas, o leitor brasileiro reconhecerá a gravidade do problema do racismo e detectará o desafio adicional de tratá-lo de modo menos acadêmico num país que se recusa a confrontá-lo. Mesmo enfraquecido, o mito da “democracia racial” sobrevive até entre pessoas que não podem ser consideradas racistas. Mas enclausurar o livro na prateleira dos “romances de raça” seria responder a uma questão que Beatty prefere deixar em aberto. Decisão bem menos confortável que fixar regras.

O vendido é o grande livro que é porque nem todos os achados se dão em torno do racismo, mas todos nascem no hábil uso da linguagem. O leitor é seduzido por imagens como esta, que descreve a sensação de sair de um prédio e só então perceber que anoiteceu: “É sempre um choque quando o dia escurece sem você”. Beatty busca a beleza pela beleza, também.

O vendido é bastante pessoal para funcionar literariamente e bastante realista para funcionar como crítica social. Faz companhia a obras do inglês Will Self, que em O livro de Dave imagina uma religião surgida das diatribes de um taxista londrino, e a Submissão, do francês Michel Houellebecq, que tantos leram como anti-islâmico, mas critica a predisposição da intelectualidade francesa em se converter a qualquer coisa para manter o seu statu quo. Aí está, por sinal, a eterna importância da sátira: bagunçar o coreto de todo statu quo.

Tal qual Chacrinha (e também Self e Houllebecq), Beatty talvez não esteja aqui para explicar e sim para confundir. Ao se declarar “culpado” ou “inocente” na primeira instância, o narrador cogita estar numa situação intermediária. “Por que só duas alternativas?, eu pensei. ‘Por que não podia ser ‘nenhum’ ou ‘ambos’?”

A avacalhação gera o efeito que pilhas e pilhas de tratados sérios e bem-intencionados talvez não alcancem. Rir das piadas multirracistas tem, no romance, um efeito didático, moralizante. Afinal, o adágio latino fala no riso, não em carrancas, castigando os costumes. Há uma sabedoria nisso.

Quem escreveu esse texto

Arthur Dapieve

É jornalista e crítico musical.