Literatura,
Na trilha de Che Guevara
Em guia de viagem às avessas, premiado autor francês inédito no Brasil narra, com poesia e humor, aventuras e apuros
19dez2025Por que escrever a viagem? Há toda uma tradição de literatura de exploração do mundo, para evitar que as lembranças dispersas se apaguem e para compartilhar a experiência de cada lugar. François-Henri Désérable acha importante destacar os cenários, os rostos e as sensações por que passa.
É difícil imaginar esse jovem intelectual francês, que cita de memória trechos de Flaubert e de Blaise Cendrars, sentado numa motocicleta em direção aos cantos mais longínquos — e até perigosos — da América do Sul. Pois é o que fez, conforme relata no recente Chagrin d’un chant inachevé: sur la route de Che Guevara (Tristeza de um canto inacabado: na trilha de Che Guevara), ainda inédito no Brasil.
Em 2017, quando completou trinta anos, Désérable se viu diante de um dilema: comprar um imóvel para se estabelecer ou seguir o que escreveu Emil Cioran:
Como eu gostaria que todas as pessoas atarefadas ou investidas de missões — homens e mulheres, jovens e velhos, sérios ou superficiais, alegres ou tristes — abandonassem, num belo dia, suas ocupações, renunciando a todo dever ou obrigação, para sair à rua e cessar toda atividade.
Naquele ano, Désérable, em companhia de seu amigo Quentin, optou por retomar a trilha sul-americana feita em 1952 por Ernesto Guevara , quando era apenas um estudante de medicina em busca de emoções. O escritor se deixou guiar pelos diários de Guevara e de seu amigo Alberto Granado e pelo premiado filme de Walter Salles, Diários de motocicleta (2004), com Gael García Bernal no papel do protagonista.
Não faltaram contratempos nessa travessia: problemas com a alfândega ao entrar na Venezuela; assalto perto da Bombonera, em Buenos Aires; necessidade de correr de uma turba enfurecida; ser enganado por um taxista e por um capitão que protelava indefinidamente a partida do barco na Bolívia; um corte desastroso de cabelo; e até uma mordida de cachorro em Lima.
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As inconveniências da viagem são desagradáveis para o viajante, mas benéficas para o escritor. Quem narra uma viagem, diz o autor, deve se inspirar no modo como o mercador veneziano se transforma em etnólogo: observar, descrever e evitar qualquer julgamento — tarefa nem sempre fácil. É assim que Désérable narra seu percurso, que durou cinco meses. De moto, ônibus, carona e barco, ele atravessou Argentina, Paraguai, Chile, Bolívia, Peru, Colômbia e Venezuela.
Désérable acha importante destacar cenários, rostos e sensações por que passa na viagem
Longe de ser uma narrativa política, o livro é um guia de viagem às avessas, descrevendo com humor e poesia o que o autor vê e vive: belezas naturais, pessoas e modos de vida, ao lado dos episódios tragicômicos que teve de enfrentar.
Désérable introduz, em meio à narrativa, suas reflexões:
[…] mais embriagante que a viagem: a ideia da viagem. Concebê-la, prepará-la, sonhá-la — volúpias que bastariam para nos fazer ficar em casa e nunca mais partir.
Nem sempre, entretanto, vê a partida pelo mesmo ângulo:
[…] partir para longe é ainda o melhor meio de tomar distância de si mesmo. Aos que viajam na esperança de se encontrar, sempre preferi aqueles que o fazem com o intuito de se perder: ao levantar os olhos para o mundo, olha-se um pouco menos para o próprio umbigo.
Travessia arriscada
Mais recentemente, em 2022, Désérable realizou outra viagem arriscada, desta vez ao Irã. Desprezando todas as advertências, inclusive do governo francês, partiu para aquele país, em ebulição por causa da terrível repressão e dos protestos que se seguiram à morte de Mahsa Amini — presa e torturada porque seu hijab deixava parte do cabelo escapar, contrariando os padrões impostos pelos aiatolás.
A viagem terminou quando, depois de quarenta dias, o escritor foi interrogado pela polícia iraniana, que sinalizou estar na hora de ele deixar o país. L’usure d’un monde: une traversée de l’Iran (O desgaste do mundo: uma travessia do Irã, sem tradução no Brasil) descreve o Irã atual, as belezas da Pérsia antiga, a vida dos habitantes e o medo espalhado pelo regime autoritário.
Além de viajante e escritor, Désérable é fotógrafo e ex-jogador profissional de hóquei no gelo. As imagens que ilustram seus livros apareceram há poucos meses na Nouvelle Revue Française, a principal revista literária da França.
Antes de se concentrar na literatura de viagem, publicou alguns livros, quase todos premiados. Mon maître et mon vainqueur (Meu mestre e meu conquistador, sem tradução no Brasil), de 2021, é uma história de amor, crime e justiça que ganhou o Grande Prêmio do Romance da Academia Francesa. Tu montreras ma tête au peuple (Você mostrará a minha cabeça ao povo, também sem tradução no Brasil), de 2013, foi três vezes premiado como romance histórico. É a narração dos últimos instantes, antes da guilhotina, de figuras importantes da época da Revolução Francesa.
Os livros de Désérable já viajaram bastante — em traduções para o inglês, espanhol, italiano, árabe, japonês e russo —, mas ainda não aportaram nos países de língua portuguesa. Como diz o autor, a mais bela viagem será sempre a que resta fazer.
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