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O julgamento de Olga Tokarczuk
Vencedora do Nobel de Literatura, a escritora polonesa confessou usar inteligência artificial — e o mundo literário a pôs no banco dos réus
27maio2026De pé, acusada. O tribunal está reunido. O julgamento será inclemente, como o é toda sentença proferida pelo TMI, o Tribunal Midiático Internacional, que não conhece fronteiras, não tem bons intérpretes, usa um sistema pouco claro de parâmetros e é inelutável: depois de entrar em ação, nunca chega a um consenso e, de modo cabal, mancha para sempre a reputação da pessoa envolvida. No caso mais recente, a escritora polonesa Olga Tokarczuk, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 2018.
Em um importante evento de tecnologia, o Impact, realizado este mês na cidade de Poznań, na Polônia Tokarczuk declarou que usa inteligência artificial em seu trabalho. Teria cometido uma heresia? Um post da Todavia, editora de seus livros no Brasil, trouxe uma boa tradução das palavras ditas em polonês, no meio de um raciocínio bastante elaborado, em conversa com o jornalista Sławomir Sierakowski:
Talvez um futuro simbiótico e a cooperação com a inteligência artificial os ajudem [os autores]. Apesar dos receios, acredito que nós, escritores, devido à natureza específica de nossa arte, somos os mais sintonizados com ferramentas como a IA.
Ela acrescentou:
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Comprei a versão mais avançada de um modelo de linguagem e frequentemente me surpreendo com a forma fantástica com que ele amplia meus horizontes e aprofunda meu pensamento criativo. Por outro lado, é preciso ter muito cuidado com isso.
Pronto, o palco estava armado para a celeuma — alimento das almas vorazes das redes, melhor dizendo, das teias, quais as das aranhas, a servir de armadilha para pegar incautos insetos. Páginas e páginas de internet chegaram a proclamar, em chamadas, que a escritora usa IA para “embelezar” seus textos. Após ter sido atacada nas redes sociais, a própria Tokarczuk acabou tentando se explicar, o que só aumentou a confusão: disse ou não disse que usa IA? Está se retratando ou mudando de ideia? O que pensa, afinal? O mundo literário, porém, continuaria sem respostas, resumiu o site Firstpost, lembrando outros casos recentes envolvendo IA e literatura:
No intervalo de apenas uma semana, declarações de uma vencedora do Nobel sobre o uso da inteligência artificial, um conto premiado sob suspeita de ter sido gerado por máquina e a decisão de uma grande editora de cancelar uma publicação por receios ligados à IA revelaram o quanto o universo literário ainda está despreparado para enfrentar um problema que tardou a encarar seriamente.
Incompatibilidade
O primeiro a soltar o rojão que atingiu Tokarczuk foi Maks Sipowicz, na rede Bluesky, em post acessível somente a pessoas cadastradas. Ele se apresenta como escritor, pesquisador e músico que vive e trabalha em Melbourne. Seu day job, anuncia, consiste em ajudar autores a navegar no mundo complexo do financiamento de pesquisas.
Uma crítica mais consistente foi publicada na respeitada ArtReview, um ensaio da escritora e acadêmica britânica Helen Charman intitulado “Por que Olga Tokarczuk está errada a respeito da IA”. Lendo a fala inteira, diz Charman, fica claro que Tokarczuk, apesar do amor declarado, no fundo acaba dando razão aos que acham a IA incompatível com a criação literária. Para Charman, há evidentemente muitas razões para se horrorizar com o fato de uma escritora de tal importância confessar que se serve da IA:
Mesmo deixando de lado o imenso impacto ambiental do consumo de energia da IA — suportado de forma desigual pela Maioria Global —, bem como o enriquecimento adicional da classe dos bilionários, que já exerce tamanha influência sobre a vida política, a violação de direitos autorais e a supressão de direitos de escritores cujas obras vêm alimentando em LLMs sem seu consentimento é uma questão candente […].
Ao contrário do imaginado por alguns, a opinião da autora é relativamente conservadora
O esclarecimento de Tokarczuk não tardou. Em nota enviada ao portal Literary Hub, ela declarou:
Como em qualquer outra conversa, comentários feitos frente a uma audiência, ao vivo, num evento público, podem ser interpretados erroneamente. Eu não escrevi meu próximo livro — que será publicado no outono de 2026, na Polônia — usando IA ou com ajuda de alguém. Há muitas décadas eu escrevo sozinha.
Então digo, breve e firmemente: eu uso inteligência artificial da mesma forma que a maioria das pessoas no mundo. Eu a trato como uma ferramenta que me permite documentar e checar fatos rapidamente. Sempre que uso essa ferramenta eu verifico novamente a informação. Como venho fazendo há décadas por meio da leitura de livros e da exploração de bibliotecas e arquivos.
Nenhum dos meus textos, incluindo o romance que está saindo, foi escrito com ajuda de inteligência artificial. Exceto como uma ferramenta mais ágil para a pesquisa preliminar.
Muitas vezes eu me inspiro em sonhos, mas antes que essa frase também seja dissecada pelos especialistas, eu me apresso em esclarecer que os sonhos são os meus próprios.
Ao invés de aplacar a tormenta, a explicação da autora provocou outras ondas avassaladoras. Mas talvez tenha sido uma boa coisa provocar, mesmo involuntariamente, essa discussão no mundo literário. A premiada escritora parece ter pretendido deixar claras duas coisas:
1. Que é adepta da mais pura ética editorial: escreve as próprias obras sem ajuda de ninguém, seja pessoa, seja máquina, na solidão de seu ofício.
2. Que a IA é uma realidade: tem muita utilidade como auxiliar e todo mundo pode usar.
Ouso dizer que, ao contrário do que foi imaginado por alguns, a opinião de Olga Tokarczuk é relativamente conservadora. A ciência e a polêmica estão mais à frente. A IA é como a luz ou a eletricidade. Todo mundo usa, mas não sabe bem o que ela é. Todos falamos dela, mas não sabemos bem do que estamos falando. Essa postura, aliás, é cada vez mais comum no mundo em que vivemos, em que as pessoas aderem a correntes de verdade — científica, política ou religiosa, tanto faz — e defendem até à morte pontos de vista que absorveram, sem ter parado para pensar a respeito.
Os pintores rejeitaram a fotografia quando de sua invenção. Escritores acostumados a usar a tinta e o papel se recusaram a usar a máquina de escrever. Os que datilografavam não quiseram aderir ao computador. Meu pai, engenheiro que fazia cálculos complexos de estrutura, manuseava com confiança sua régua de cálculo e a pequena calculadora científica, mas não consegui convencê-lo a experimentar o computador.
Arte e máquina
A questão da relação da IA com a criatividade já foi estudada e nem é tão nova. Ela vai bem além da simples reação à novidade. Mais do que na literatura, são conhecidas as experiências com a máquina e a inteligência artificial em outras modalidades de arte. Na música em primeiro lugar, mas também na dança, na arquitetura e nas imagens — o reino das falsas imagens, que não para de crescer.
No campo da literatura, entretanto, há estudos e experiências que merecem ser mais conhecidos. L’Art au temps de l’IA: générer, critiquer, créer (A arte no tempo da IA: gerar, criticar, criar) é obra recente do Centro Pompidou, que, trazendo vários pontos de vista, faz um balanço conceitual das noções de base, com glossário e tudo. A hipótese que a obra põe à prova é a de que “a arte, mais do que o artifício, possa ajudar na inteligência da inteligência”. Segundo Mathieu Potte-Bonneville, diretor de criação do Pompidou:
Com efeito, se a própria noção de “criação” carrega sua cota de pressupostos discutíveis — o artista não cria de modo algum ex nihilo, fora de todo contexto material, social ou técnico —, as práticas de criação deixam entrever uma gama de relações com as IA que é complexa, matizada, instrutiva: as ilusões do domínio cedem lugar à realidade de um diálogo em que o companheirismo convive com a reflexão crítica, em que a exploração, a experimentação e a improvisação têm a sua parte, em que se revelam, mais do que a arrogante superioridade do criador em face de sua criatura, as mil modalidades possíveis de um “fazer com” no qual temos tudo a aprender.
Já a curadora-chefe do centro, Marcella Lista, destaca que se pode considerar a IA “como um meio artístico entre outros — que importa dominar tecnicamente para dele fazer a crítica e reinventar os usos”. Frank Madlener, o diretor do Instituto de Pesquisa e Coordenação Acústica/Música (IRCAM), laboratório de invenção sonora criado pelo compositor Pierre Boulez a pedido do presidente Georges Pompidou nos anos 1960, reconhece que a IA ocupa o papel principal na fantasmagoria desta época: “atribuem-lhe todas as virtudes e todos os males, por um efeito simétrico entre adeptos e detratores, messiânicos e catastrofistas”. Mas Madlener sustenta também que “a emergência de uma cocriatividade, partilhada entre a máquina que aprende e o humano que joga, encontra-se por vezes na improvisação, onde memória e bifurcação, junção e disjunção se entrelaçam.”
Alan Turing, o gênio que desenvolveu sistemas cibernéticos que permitiram aos aliados desvendar os sofisticados códigos dos nazistas na Segunda Guerra e cuja história é contada no filme O jogo da imitação (2014), já imaginava teoricamente o desenvolvimento do que viria a ser a IA e permitia, no início dos anos 1950, que o computador Ferranti Mark I fosse usado para pesquisa musical.
A IA desafia o conceito de criação e de literatura, remetendo a questões sobre a natureza humana
O livro publicado pelo Centro Pompidou desenvolve a ideia de que a cocriatividade pode ser vista como uma divisão do trabalho criativo, o que teria o mérito de evitar a atribuição de uma autonomia criativa às máquinas, sem negar que a IA possa desempenhar papel decisivo num processo de criação. Em relação à literatura, anuncia-se na introdução:
A literatura, enfim, é um domínio em que a escrita automática foi objeto de investimento ficcional antes mesmo da chegada dos grandes modelos de linguagem (LLM). Estes permitem confrontar esse imaginário com realizações concretas.
Há também espaço para a crítica, destacando a ubiquidade da IA. Os organizadores lembram que os conteúdos gerados por IA não param de crescer e são cada vez mais indiscerníveis dos feitos por humanos: “Uma fração muito grande do texto que lemos na web é fruto de tradutores automáticos, com frequência de qualidade medíocre”.
Quem aprofunda a questão é o pesquisador Alexandre Gefen, que, no artigo “Littérature et intelligence artificielle” (Literatura e inteligência artificial), destaca que o horizonte de uma possível produção de obras literárias por inteligências artificiais generativas coloca uma série de questões tecnológicas, críticas e filosóficas, inclusive em matéria de tradução. Ele preconiza que a IA “nos permite renovar a reflexão sobre a noção de narratividade, a de texto, a de originalidade, interrogando a própria noção de obra e impondo métodos hermenêuticos radicalmente novos”.
Gefen foi também o coordenador da coletânea Créativités artificielles: la littérature et l’art à l’heure de l’intelligence artificielle (Criatividades artificiais: a literatura e a arte na era da inteligência artificial), que saiu em 2023 pelas Les Presses du Réel. Em resenha publicada no site francês Nonfiction, sob título “O que a IA faz à literatura”, a pesquisadora Nikol Dziub menciona o rico levantamento de experiências precursoras (as máquinas literárias antes da IA) e defende que a inteligência artificial abre caminho para uma poética própria, que desafia o nosso conceito de criação e de literatura, o que remete a questões sobre a própria natureza humana.
Ternura narrativa
Ninguém melhor do que Olga Tokarczuk para extrair uma lição disso tudo. Basta voltar ao seu discurso de recepção do Nobel, cujo título “Czuły narrator” pode ser traduzido em português como “O narrador terno”, o que talvez reflita a mais profunda natureza da escritora, em contraste com um mundo em convulsão. Suas palavras foram, na época, recebidas com entusiasmo no mundo literário:
A ficção é sempre uma espécie de verdade.
Vivemos num mundo de fatos em excesso, contraditórios e mutuamente excludentes, todos em guerra uns com os outros com unhas e dentes.
A categoria das fake news levanta novas questões sobre o que é a ficção.
A ficção perdeu a confiança dos leitores desde que a mentira se tornou uma perigosa arma de destruição em massa, ainda que continue a ser um instrumento primitivo.
Em vez de ouvir a harmonia do mundo, ouvimos uma cacofonia de sons, um insuportável ruído estático em que tentamos, desesperados, captar alguma melodia mais silenciosa, mesmo a batida mais fraca.
O homem é o ator principal, e seu juízo — embora seja um entre muitos — é sempre levado a sério.
Deixemos as críticas à terna narradora para quem não tem a noção de que, conscientemente ou não, todos nos servimos da inteligência artificial — como nos servimos de relógios, câmeras, celulares, cafeteiras e computadores.
Quanto à integridade editorial, não há reparo a fazer à autora. E, quanto ao uso da IA na criação, vamos mergulhar nesse campo de pesquisa ainda embrionário, que nos permitirá entender cada vez melhor a natureza da arte, da criação e o papel sempre central do ser humano.
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