A escritora zimbabuense Lucy Mushita (Divulgação)

Literatura,

Memórias da exclusão

Em Expatriada blues, Lucy Mushita usa a ironia como estratégia de sobrevivência contra a repetição do racismo cotidiano

01nov2025 • Atualizado em: 31out2025 | Edição #99

“Você gostaria de limpar nossa casa?”, “De onde você vem?”, “Bom, mas para mim você não é negra”. Essas frases intitulam seções de Memórias da plantação [Cobogó, 2019, trad. de Jess Oliveira], da artista e escritora portuguesa Grada Kilomba, publicado originalmente há quase vinte anos em Berlim. Mas bem que poderiam ser de Expatriada blues, primeiro romance da escritora zimbabuense Lucy Mushita traduzido no Brasil.

A narradora encarna os relatos de afro-alemãs e afro-estadunidenses descritos e analisados por Kilomba, ainda que, no contexto de Mushita, trate-se de uma expatriada, não imigrante, na França. Em solo americano, a narradora também poderia ser a voz que ocupa os poemas de Cidadã [Jabuticaba, 2020, trad. de Stephanie Borges], da jamaicana Claudia Rankine, em que estereótipos, microagressões e racismo recreativo se entrelaçam.

A partir dessas conexões, a leitura de Expatriada blues pode soar como uma repetição, uma vez que o romance ecoa o que vivem africanas e afrodescendentes seja na Europa, na América do Norte ou em outras partes do mundo. A sensação apenas confirma a trágica constatação de que o mundo, ou grande parte dele, continua servindo o racismo na sala de jantar, confortavelmente, à revelia das jurisprudências mais recentes que o tipificam como crime. E, se o cenário é esse, escritoras, teóricas e artistas seguem investindo no tema, tensionando a permanência do racismo na vida cotidiana.

A familiaridade com a narrativa, portanto, não é um demérito do romance. Ele sugere que escritora e narradora acompanham a corrente antirracista e decolonial que tem ocupado o debate público, os estudos acadêmicos e também a diversidade do mercado editorial, do qual a publicação é expressão. Se pensarmos no campo da literatura, ou na produção de conhecimento não branca e ocidentalizada, Expatriada blues é estratégico em sua manobra de reavivar violências da vida ordinária.

A narradora ensina aos filhos, com comicidade, como não sucumbir ao serem alvo de preconceitos

A primeira provocação (ou seria estratégia de resistência?) está no título, forjado a partir da experiência da autora. Mushita tem declarado em entrevistas que, mesmo acumulando mudanças de residência e país, demorou para perceber o quão atravessado por raça e classe é o termo “expatriado”.

Outros adjetivos parecem ter sequestrado a palavra. Os não ocidentais que vivem no Ocidente podem no máximo ser imigrantes, e os com menos sorte, refugiados, em razão de guerras, desastres ambientais e perseguições de toda ordem. Embora os dicionários definam expatriado como aquele que vive em outro país por motivos profissionais ou acadêmicos, o termo não é utilizado para se referir a um não branco, invariavelmente confundindo com um prestador de serviços, visto como um cidadão de segunda classe.

É partindo disso que Mushita ironiza a expressão, afinal todo o romance mostra uma mulher expatriada tratada como imigrante, indesejada nos mais diversos espaços e desumanizada junto aos filhos. Quando se dá conta de que a herança deixada aos filhos nascidos na França — a cor da sua pele — lhes causa problemas, revela­-se mais uma crueldade disparada pelo racismo. A narradora tenta antecipar aos filhos situações em que podem ser alvo de preconceitos, ensinando­-lhes com humor e comicidade como não sucumbir à exclusão.

Constrangimentos

O romance, ou reunião de narrativas curtas, como também pode ser lido, cataloga episódios de racismo cotidiano, mais uma vez ecoando o livro de Kilomba. Nascida na Rodésia do Sul (atual Zimbábue), Mushita cresceu durante o apartheid e, acompanhando as missões de trabalho do marido cientista desde 1986, viveu na França, nos Estados Unidos e na Austrália. A edição em português não traz, além da orelha, paratextos que contextualizam sua escrita, mas as histórias ajudam a localizar uma voz narrativa baseada na experiência de trânsito e expatriação de sua autora.

Uma sucessão de constrangimentos cerca a narradora nas mais diferentes situações e espaços, quase todos públicos, transformados em lugares de humilhação: hospital, trem, mercado, estacionamento, escola, imobiliária, consultório médico, rua e casa da família de amigos brancos.

Em um dos episódios, uma vizinha vai ao shopping com a filha da narradora e é confundida como mãe da menina, mesmo sendo branca — como se quisesse esconder a maternidade ou que o pai da criança fosse negro. Incrédula, a vizinha conta o ocorrido à amiga, que não reage. Ao comentário de que nada parece irritá-la, a narradora diz:

Claro que sim. Quase sempre. Mas eu mantenho o sangue frio. Nasci preta, num país oprimido pelo apartheid. Isso endurece a gente. Você aprende a separar as coisas, a escolher as suas batalhas.

A questão da língua aparece como denúncia do quão difícil é ser expatriado na França, ainda mais com origem em um país do continente africano. Mushita intercala, desde o primeiro capítulo, o francês (na tradução brasileira, o português) e o inglês (mantido na edição). O jogo de mesclar os idiomas, além do tom dos diálogos, realça o desconforto da narradora com a língua francesa somada à pouca paciência dos franceses para estrangeiros falando sua língua. São inúmeras as passagens em que a disputa idiomática é tematizada como um problema a ser resolvido.

Se a língua é um fator de distinção, o silêncio e o fingir não entender são estratégias usadas reiteradas vezes para não perder a razão com quem não merece. É assim que, no trabalho ou entre amigos, Mushita engole episódios de racismo travestidos de elogio ou simula pouco caso em situações em que é invisibilizada ou vista como subalterna. A ironia e o sarcasmo acompanham a narrativa dos mais absurdos casos, como quando, em Lorraine, no nordeste da França, a secretária do curso de inglês para negócios onde a narradora lecionava a confundiu com a faxineira. Ou na vez em que, em plena rua em Paris, uma mulher bateu nela com a bolsa, alegando estar cansada de “todos esses negros”. Talvez aí esteja um dos trunfos do romance e da dicção da autora, capaz de fazer o leitor se chocar, emocionar e rir junto com sua narradora.

Especial Atlântico Negro Francófono

Especial sobre livros de autores do Atlântico Negro Francófono lançados no Brasil em 2025 realizado com o apoio da Embaixada da França.

Quem escreveu esse texto

Edma de Góis

É jornalista, doutora em Literatura pela UnB e professora visitante da Universidade Estadual de Feira
de Santana.

Matéria publicada na edição impressa #99 em novembro de 2025. Com o título “Memórias da exclusão”