O escritor tanzaniano Euphrase Kezilahabi (1944-2020) (Noemi Adrigeri/Divulgação)

Literatura, Literatura Negra,

Uma menina no meio da violência

Romance tanzaniano censurado nos anos 70 expõe a opressão às mulheres em uma sociedade que se transforma

26out2026 | Edição #111

A publicação no Brasil de Rosa Mistika, do escritor tanzaniano Euphrase Kezilahabi, é um acontecimento importante por várias razões que merecem celebração. Para começar, é o primeiro romance originalmente escrito em língua suaíli a ser publicado em tradução no país. O livro estreou em 1971 e só agora aparece aqui, mas antes tarde do que nunca. Além disso, a literatura em suaíli, tanto escrita quanto oral, se destaca entre as tradições literárias mais consolidadas e significativas do continente africano.

Outro aspecto a ser celebrado é o fato de Kezilahabi ser considerado um dos mais importantes escritores da Tanzânia e um dos mais relevantes autores de língua suaíli. Acadêmico e ensaísta de renome, foi professor na Universidade de Dar es Salaam e na Universidade de Botswana, e é poeta, filósofo e romancista. É uma referência incontornável no campo dos estudos de literaturas africanas, ao lado de escritores tanzanianos também canônicos, como Shaaban Robert — grande referência literária do período colonial —, Ebrahim Hussein e Said Ahmed Mohamed — estes do período pós-independência —, entre muitos outros, cujas obras literárias são ainda inéditas no Brasil e praticamente desconhecidas fora dos círculos de especialistas.

Essa falha de nosso sistema editorial ficou evidente quando outro importante autor tanzaniano, Abdulrazak Gurnah, foi premiado com o Nobel de literatura em 2021 e sua obra era até então completamente inédita no Brasil. O caso de Kezilahabi é, de certa forma, parecido com o de Gurnah. Ambos são importantes autores tanzanianos, dois clássicos das literaturas africanas. Seus nomes e livros entram no contexto editorial brasileiro graças a uma consagração literária internacional — um prêmio literário, uma seleção editorial ou uma tradução numa língua hegemônica, como o inglês.

Logo após sua publicação, o livro foi banido na Tanzânia, sob o pretexto de ser pornográfico

Gurnah ganhou o Nobel, e a honraria o fez chegar aqui; o fato de Rosa Mistika estar disponível aos leitores brasileiros se deve, em grande medida, à publicação em inglês pela Yale University Press em 2025, na primorosa tradução de Jay Boss Rubin, com prefácio de Annmarie Drury, poeta, tradutora do suaíli e pesquisadora da obra de Kezilahabi, além de ter sido sua amiga pessoal. O romance também foi selecionado pela New Yorker como um dos melhores livros do ano.

Banimento

Rosa Mistika foi publicado em 1971 por meio de um concurso organizado pelo East African Literature Bureau, uma instituição que promove a leitura e a literatura. Desafiando o regulamento que exigia textos em inglês, Kezilahabi enviou seu romance em suaíli e, apesar de não levar o prêmio, o júri decidiu publicá-lo. Logo após sua publicação, porém, o livro foi banido e retirado do mercado, sob o pretexto de ser pornográfico. O argumento dos censores era de que, ao abordar violência sexual, aborto e abuso de autoridade, o romance ofendia os valores morais e religiosos, especialmente católicos. Como escreve Drury no prefácio para
a versão em inglês, reproduzida na edição brasileira:

Na Tanzânia do início dos anos 1970, era incomum que um romance em suaíli tivesse como protagonista uma menina, e era controverso que um autor retratasse as experiências sexuais de uma jovem — em especial o aborto e a violência sexual.

É na história de Rosa Mistika, “Rosa, para abreviar”, primogênita de Regina e Zakarias, “uma moça bonita, alta, humilde e não muito falante”, que as diversas críticas tecidas no romance se formam, mostrando a contundência da leitura social proposta por Kezilahabi.

Ao acompanhar a trajetória de Rosa — menina, filha, estudante, amante, mulher —, acompanhamos também uma sociedade em transformação. Testemunhamos as opressões que sofre — começando na família:

Rosa foi chamada. Ela entrou no cômodo, arrastando o lençol atrás de si. Antes mesmo que pudesse dizer uma palavra, o golpe veio e ela caiu de novo. Estava à mercê do pai.

Sair da casa paterna, onde moravam a mãe, quatro irmãs e um irmão, não ajuda. Rosa continua à mercê das freiras, de diretores escolares, dos homens. As opressões familiares, sociais, políticas e religiosas seguem por toda a sua vida, evidenciando as crises que avassalam a sociedade tanzaniana pós-independência e, mais especificamente, as muitas meninas e mulheres que, apesar de tudo, resistem.

Crítica aberta

Em 1971, quando Rosa Mistika foi lançado e, logo, banido, a Tanzânia celebrava seus primeiros dez anos de independência sob a presidência de Julius Nyerere, importante líder dos movimentos anticoloniais e figura-chave do pan-africanismo. Dez anos antes, o Tanganyka conquistara sua independência do Reino Unido e daria início a um processo de reunificação. Em 1964 aconteceu a unificação entre o Taganyka e Zanzibar e nasceu a República Unida da Tanzânia.

O fim dos anos 60 e o início dos 70 veem o triunfo do socialismo tanzaniano, a Ujamaa — palavra em suaíli que significa união, cooperação, família. Trata-se de um período político especialmente importante para a construção da nação, que ainda precisa lidar com as divisões herdadas do sistema colonial, ao mesmo tempo que enfrenta grande desafios decorrentes da implantação do estado social. Um período, portanto, em que uma crítica aberta à sociedade tanzaniana, aos seus hábitos culturais e às suas instituições formais não era vista com bons olhos.

Se dirigidas, então, às instituições de ensino — caso em que se enquadra Rosa Mistika —, pior ainda, pois é na alfabetização de massa que reside um dos grandes trunfos do projeto do presidente Nyerere que, em menos de uma década, quase zerou o analfabetismo no país.

Escrito numa prosa realista de romance de formação, o livro, hoje, após ter revertido o banimento, é uma das leituras obrigatórias no ensino médio da Tanzânia e do Quênia.

Quem escreveu esse texto

Elena Brugioni

Professora da Unicamp, é autora de Literaturas africanas comparadas (Editora Unicamp).

Matéria publicada na edição impressa #111 em outubro de 2026. Com o título “Uma menina no meio da violência”

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