Literatura Negra,

Interminável travessia

O romance mais famoso do ganhador do Nobel Abdulrazak Gurnah deve ser lido mais como um livro de viagem do que um contraponto à literatura imperialista

01nov2023 - 00h00 | Edição #75

“O menino primeiro. Seu nome era Yusuf, e ele de repente foi embora de casa em seu décimo segundo ano.” É assim que começa o romance Paraíso, de Abdulrazak Gurnah, autor laureado com o prêmio Nobel de Literatura em 2021. Originalmente publicado em 1994, o livro é, sem dúvida, um dos mais importantes romances do autor tanzaniano, sendo esta a obra que o consagrou no panorama literário e crítico internacional. Finalista do Booker Prize, um dos principais prêmios literários em língua inglesa, Paraíso despertou logo a atenção da crítica ligada às então chamadas “literaturas pós-coloniais”, suscitando, quase de imediato, uma recepção calorosa entre estudiosos e estudiosas de literaturas africanas e do Oceano Índico.


Paraíso é a obra que consagrou Abdulrazak Gurnah no panorama literário e crítico internacional

Gurnah, nascido em Zanzibar, em 1948, e residente na Inglaterra desde os anos 60, já era um nome conhecido por sua obra crítica, devido às suas atividades acadêmicas em universidades africanas e europeias e pelos estudos sobre autores contemporâneos como V. S. Naipaul, Ngũgĩ wa Thiong’o, Wole Soyinka e Salman Rushdie. Paraíso é o primeiro romance do autor em que o continente africano e o contexto da África Oriental, sua complexa história e suas múltiplas culturas alcançam um protagonismo e uma especificidade até então pouco explorados em obras anteriores. 

Ainda que o romance de estreia do autor, intitulado Memory of Departure (Memória da partida), publicado em 1987, localize-se num país africano, sua indefinição geográfica torna a África um cenário alegórico e secundário e, por isso, apenas funcional em um enredo construído em torno dos temas da memória, do deslocamento e do exílio. 

Seus romances posteriores, Pilgrims Way (Caminho do peregrino, 1988) e Dottie (1990), são ambientados na Inglaterra e abordam a migração, a discriminação e o racismo. São obras literárias que lidam principalmente com aquilo que o crítico cultural Stuart Hall define como o “problema das identidades da diáspora e a política cultural da diferença”.

Em Paraíso, algo parece mudar na ficção de Gurnah, e é a presença emblemática do menino Yusuf que torna esse romance africano bastante atento às representações que se esquivam de receitas narrativas e estéticas simples, alimentando-se de contradições, transformações e devires, que são os ingredientes da melhor literatura. É sua a presença que nos leva, desde a primeira linha, a pensar, quase de imediato, no gênero romance de formação ou no Bildungsroman, dedicado ao tema da juventude, interioridade e formação do indivíduo e, portanto, como afirma o crítico italiano Franco Moretti, “uma forma simbólica da modernidade”. 

Romance de formação

Não há dúvida de que a esse respeito a faceta de estudioso de literatura (e de teoria literária) de Gurnah tenha sido um elemento importante para manusear com originalidade e habilidade um gênero narrativo que, tal como nota Moretti, desmoronou como “um castelo de cartas juntamente com o fim da sociedade ocidental moderna”. 

No entanto, o gênero do romance de formação é resgatado em Paraíso como uma forma literária estratégica para relatar o vasto conjunto de transformações — “recursividade e durabilidades imperiais”, como diria a historiadora Ann Laura Stoler — ocorridas nas sociedades africanas durante a colonização e após as independências. Portanto, isso é fundamental para a edificação de um enredo capaz de desmontar uma ideia de tempo linear — e de causalidade histórica — que marca ainda hoje a relação entre espaço-tempo colonial e pós-independência, cujo questionamento se apresenta como uma das grandes marcas do projeto literário de Gurnah, bem como do que tem vindo a ser definido como crítica pós-colonial.

Em ‘Paraíso’, algo muda na ficção de Gurnah, e isso é a presença emblemática do menino Yusuf

Em Paraíso, estamos na região da África Oriental, entre a costa do Índico e o interior da atual Tanzânia, nas primeiras décadas do século 20, nos anos que antecedem a eclosão da Primeira Guerra Mundial, ponto de virada nos rumos do continente. O território corresponde ao que então se designava como África Oriental Alemã — Deutsch-Ostafrika — e a presença colonial já está visível e tangível: “Viu dois europeus na plataforma da estação aquela vez, os primeiros que tinha visto na vida. Não teve medo, não de início”.

A Alemanha viria a perder essas possessões em 1918, com o fim da Primeira Guerra, que determinaria profundas transformações políticas e sociais no continente africano. 

É esse também o período em que a hegemonia do sistema socioeconômico liderado por comerciantes árabes, que com suas caravanas se movimentavam da costa oriental — a região do Índico africano — até o interior do continente, está no fim dos seus dias.

E é pelos olhos de Yusuf, vendido ao comerciante árabe Aziz — que ele acreditava ser seu tio mas que, na verdade, é seu senhor — que esse mundo em transformação se torna visível, com uma viagem que se inicia com um engano e um abandono, obrigando-o a enfrentar inúmeras dificuldades e equívocos que serão decifrados e ultrapassados por meio de sonhos recorrentes e sua imaginação. 

Coração das trevas

Impossível não pensar no Yusuf da tradição corânica, no José do Antigo Testamento e também no Joseph Conrad, autor de Coração das trevas, publicado entre 1899 e 1902, que virá a se tornar, para o bem e para o mal, um dos mais importantes textos literários da modernidade. 

As primeiras leituras que marcam a recepção de Paraíso encaram essa obra como um exemplo clássico de “literatura pós-colonial”, uma categoria algo esdrúxula hoje, e que aponta não tanto para o fato de o romance ter sido escrito após o fim da colonização e do imperialismo europeu em África, e sim pela sua dimensão de resposta — “the empire writes back”, para utilizar a célebre frase de Salman Rushdie — e pela intrínseca oposição e resistência às narrativas imperialistas que retratam o continente africano.

Em seu belíssimo estudo sobre Coração das trevas, o estudioso palestino Edward W. Said mostra como o imperialismo é muito mais do que uma forma de domínio político e exploração econômica, tratando-se de um complexo e arraigado sistema de referências e valores capaz de aprisionar, por completo, a estética, a ética, a política e também a literatura; de acordo com Said, seria esta a limitação trágica de Joseph Conrad. Embora o autor de origem polonesa, talvez em razão de sua experiência como colonizado, tenha conseguido enxergar o horror que está por detrás do imperialismo, era-lhe impossível imaginar uma África e um mundo liberto do Império.

É o primeiro romance do autor em que o continente africano alcança um protagonismo

À semelhança da justificativa divulgada pela Academia Sueca no momento do anúncio do Nobel a Gurnah — que reduz a obra do autor a uma leitura dos efeitos do colonialismo e do destino dos refugiados — entender Paraíso apenas como uma resposta a um clássico do imperialismo seria profundamente injusto e redutor. Se Coração das Trevas — e mais especificamente a viagem no coração de África — é certamente um dos textos que perpassam essa obra, são diversos e múltiplos os repertórios e as tradições que Gurnah, com grande habilidade, tensiona e mobiliza nesse seu romance em que universos — e universalismos — distintos coexistem, sendo postos em contínuo contraponto, ou melhor, em uma interminável travessia.

E é exatamente a viagem o dispositivo estético e narrativo mais acertado para ler e entender Paraíso, tratando-se de um poderoso recurso literário, e também de um claro posicionamento político, a partir do qual é possível narrar histórias, memórias, experiências e lugares de uma África que ainda hoje permanece aprisionada em limitações trágicas e sistemas de referências e valores que precisam ser enfrentados e desfeitos. Para isso, a travessia a ser empreendida está em Paraíso.

Quem escreveu esse texto

Elena Brugioni

É professora da Unicamp, escreveu Literaturas Africanas Comparadas (Editora Unicamp, 2019)

Matéria publicada na edição impressa #75 em outubro de 2023.