A escritora estadunidense Jesmyn Ward (Beowulf Sheehan/Divulgação)

Literatura, Literatura Negra,

Os mortos de Jesmyn Ward

Em livro sobre memória, família e racismo, a autora discute quem tem o direito de contar uma vida depois que ela termina

30out2026 • Atualizado em: 29out2026 | Edição #111

O problema dos mortos de Jesmyn Ward não é estarem mortos — é não terem terminado de dizer o que sabem. E eles sabem muita coisa. Sabem, sobretudo, que morrer e desaparecer não são exatamente a mesma coisa. Em O canto dos insepultos, Ward põe os mortos para conversar com os vivos. Nas mãos erradas, isso poderia render um belo desastre. Nas dela, rende um romance sobre memória, família e racismo no Mississippi — e, principalmente, sobre aquilo que uma geração deixa para a seguinte.

Talvez por isso eu tenha me apaixonado por Jojo. Ele tem treze anos e quer desesperadamente ser digno de Pop, seu avô. Não apenas parecido com ele — digno dele. Há uma diferença imensa entre as duas coisas. Logo no início do romance, Jojo acompanha Pop no abate de um bode. Quer demonstrar que aguenta o sangue, a faca, a morte. Aguenta quase tudo, depois vomita. E a delicadeza está na reação: Pop percebe a fragilidade e o sentimento de humilhação do neto. Diz a Jojo que escutou um choro e o manda cuidar da irmã pequena. Não há sermão sobre virar homem; o avô não precisa diminuir
o menino para ensiná-lo a crescer.

A cena importa porque Jojo está cercado por diferentes possibilidades de masculinidade. Há Michael, seu pai, branco, ausente porque está preso. Há Big Joseph, o avô branco que mal reconhece os netos negros; há Given, o tio assassinado; há Richie, que conheceu cedo demais a violência; e há Pop. Jojo escolhe o homem que construiu a própria casa, cozinha, cuida da mulher doente, conta histórias, ensina, protege e sabe ser forte sem transformar força em brutalidade. O menino quer crescer porque ama aquele homem, quer chegar à altura dele. Talvez uma das formas mais bonitas de ancestralidade seja esta: encontrar alguém antes de nós cuja existência faça nascer a vontade de merecer a herança recebida.

Ward não escreve apenas sobre aquilo que herdamos de bonito. Poucas coisas neste romance me causaram tanta indignação quanto descobrir por que Given morreu. O tio de Jojo era um jovem negro excelente com arco e flecha. Pop já o havia advertido sobre os colegas brancos: não importava que Given os enxergasse como iguais; importava como eles o enxergavam. Ainda assim, o filho foi caçar com eles e apostou que conseguiria matar um cervo com flecha antes que um dos rapazes o fizesse com um rifle. Given ganhou, e o prêmio dele foi a morte.

A literatura não ressuscita ninguém, mas pode impedir que, pelo silêncio, alguém seja morto uma segunda vez

Eu poderia contar o que acontece depois, mas há indignações que o leitor merece experimentar sem intermediários. Basta dizer que Given cometeu uma infração mais antiga do que qualquer código penal: foi um homem negro melhor do que um homem branco diante do próprio homem branco. Sua morte, porém, não encerra a violência.

Ward está interessada também no que acontece quando um homem negro já não está vivo para disputar a narrativa sobre aquilo que fizeram com ele. Talvez por isso Given continue aparecendo para Leonie, que me fez sentir raiva, muita raiva. Ela é mãe de Jojo e Kayla, mas frequentemente é Jojo quem exerce a maternidade da irmã. Leonie usa drogas, negligencia os filhos, ressente-se do vínculo entre eles e vive uma relação visceral com Michael. A autora não parece minimamente interessada em torná-la uma mulher negra exemplar para facilitar nossa simpatia — ainda bem.

Mas admito: em determinados momentos eu gostaria de ter Frantz Fanon sentado ao meu lado para perguntar como uma mulher negra, assombrada pelo irmão assassinado por um branco, consegue amar desesperadamente um homem da família do assassino. Michael não matou Given — isso precisa ser dito. A culpa não é hereditária, e transformar qualquer homem branco em extensão automática de outro seria uma leitura preguiçosa. Mas Ward construiu uma ironia cruel demais para ser ignorada: Leonie ama um homem branco do sangue de quem matou seu irmão e vê o fantasma do irmão negro morto. O morto e o amante habitam a mesma mulher.

Talvez Fanon ajude justamente aí. O racismo não organiza apenas leis, prisões e relações econômicas. Ele invade a subjetividade, embaralha reconhecimento, afeto e desejo. Leonie não ama Michael simplesmente porque ele é branco — o romance seria muito menos interessante se fosse tão fácil. O amor dela tampouco acontece fora da raça. Nenhum deles tem esse privilégio, nem mesmo os filhos. Jojo e Kayla são a materialização desse amor e herdam também suas contradições. É Pop, contudo, quem oferece a narrativa capaz de ajudar Jojo a compreender o mundo em que nasceu.

Cantores

Pop era adolescente quando foi preso e levado a Parchman, onde conheceu Richie, condenado por roubar comida. Parchman era uma fazenda­-prisão: homens trabalhavam nos campos de algodão, vigiados por presos armados e cachorros. Ward não precisa colocar uma nota de rodapé dizendo que a escravidão deixou descendentes. Ela confia ao leitor a identificação dos parentes. Richie, porém, transforma a história contada por Pop em outra coisa, até porque os mortos não aparecem para assombrar — eles querem saber, lembrar, necessitam ser lembrados.

É aqui que O canto dos insepultos se torna muito mais do que um romance de fantasmas. Trata-se de uma história sobre quem tem o direito de contar uma vida depois que ela termina. Pop conta, Jojo escuta, Given aparece, Richie procura respostas e Leonie tenta esquecer, sem conseguir. O título original, Sing, Unburied, Sing (Cante, insepulto, cante), contém um imperativo: cante. A tradução de Camila Von Holdefer transforma o verbo em substantivo: canto. Essa pequena mudança faz com que, em português, pareça que chegamos quando eles já começaram a cantar.

A literatura não ressuscita ninguém, ainda bem, não é mesmo? Também não devolve a Given a vida nem a Richie a infância. Mas pode cometer uma pequena indisciplina contra o esquecimento: impedir que, pelo silêncio, alguém seja morto uma segunda vez. Há mortos que precisam de uma cova; os de Jesmyn Ward precisam de uma testemunha. E talvez seja por isso que cantem.

Quem escreveu esse texto

Etiene Martins

Jornalista, é pesquisadora das relações étnico-raciais e doutoranda em comunicação e cultura.

Matéria publicada na edição impressa #111 em novembro de 2026.

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