Ciências Sociais,
Olhar subsaariano
Em dois novos ensaios, Léonora Miano critica com sarcasmo as relações raciais na Europa e expõe o relativismo moral da branquitude
01nov2025 | Edição #99Ler Afropea: utopia pós-ocidental e pós-racista e O oposto da branquitude: reflexões sobre o problema branco, de Léonora Miano, é encarar que a história oficial não passa de uma versão parcial e tendenciosa dos fatos. Observar as relações raciais na Europa da perspectiva crítica de uma mulher camaronesa, que vive na França desde 1991, descortina uma realidade que não é nova para quem percebeu o mito da democracia racial brasileira — e surpreenderá quem romantiza o país europeu.
A leitura de Afropea é fluida e vertiginosa. O ensaio analisa a complexa vivência de uma pessoa afropea — termo que a autora define no prefácio como “pessoa de ascendência subsaariana que nasceu ou cresceu na Europa”. Foram indivíduos com esse perfil que promoveram e reivindicaram essa etnicidade. Na Europa, viveram seus anos de infância e formação. No entanto, Miano enfatiza que não é uma afropea: “Tive sorte de nascer e crescer na África Subsaariana, onde minhas aspirações nunca foram obstáculos por causa da minha cor de pele”.
Se não é afropea, por que o tema tanto a interessa? Logo a autora — um dos principais nomes da literatura francófona — revela suas razões: Miano se tornou mãe na França. “Minha filha é hoje uma jovem tão francesa que a subsaariana que vive em mim não pode se impedir de, por vezes, considerá-la exótica.” A escritora vem de uma época e de um meio em que viver na França não significava ter alcançado êxito na vida. Ainda assim, quando passou a viver da venda de seus livros, decidiu requerer a nacionalidade francesa, atormentada pelo medo de ser submetida a tratamentos degradantes em frente à filha ou até de ser expulsa do país.
Pelo fato de a França abrigar uma população significativa de descendentes de africanos — maior que a da maioria dos países europeus — e ter sido a nação que mais se estabeleceu no continente africano, a autora utiliza a experiência afropea para propor uma renovação do imaginário e das formas de relacionamento. Com linguagem sarcástica e mordaz, critica o racismo com que o francês de ascendência europeia se dirige aos franceses de origem subsaariana, assim como o ódio aos magrebinos.
Aos olhos dos compatriotas de ascendência europeia, o afropeu continua sendo um estrangeiro
Miano mostra como afropea dá origem ao termo afropeu, uma contração de afro-europeu. Aqueles que se autodefinem afropeus — e que falam línguas tão diversas quanto francês, norueguês, alemão e inglês — propõem uma visão não atrelada a um espaço nacional. Dizer-se afropeu não significa ser afro-francês; é almejar algo maior. Mas, mesmo afirmando essa identidade, muitos permanecem invisíveis, privados de representação em um país que, por mais que seja o seu, não os apresenta ao mundo. Aos olhos dos compatriotas de ascendência exclusivamente europeia, o afropeu continua sendo um estrangeiro.
Revelando talento narrativo e domínio da linguagem, a escrita clara de Miano é um alento dada a complexidade do assunto, sobretudo ao revisitar a história da África e mostrar que nunca houve, no continente, nações que se autodenominassem “negras”. A categoria foi imposta pela Europa como estratégia de racialização, reduzindo e desumanizando povos.
Mais Lidas
A autora defende que chegou o momento de nos despedirmos da categoria “raça negra”, de questionarmos essa classificação e de recusar sermos aquilo que outros desejam fazer de nós. Não ser negro, portanto. Afinal, subsaarianos que vivem em sociedades não marcadas pelo racismo não pensam em si mesmos como negros.
É nesse ponto que nasce a ousada utopia afropea acerca do fim da ocidentalidade. Uma ocidentalidade que não desaparecerá sem resistência, mas diante da qual os afropeus podem ter estratégias de enfrentamento. O essencial é não perder de vista o objetivo: a criação de sociedades mais inclusivas e pós-ocidentais.
Questão branca
Em O oposto da branquitude, o outro ensaio de Miano lançado por aqui, o olhar está direcionado àqueles que gozam de uma vantagem racial secular, mesmo que tais sujeitos frequentemente se oponham a análises sobre o tema, recorrendo à falacia do “racismo reverso”.
Em uma abordagem empírica, deparamos com a conceituação de “brancura” e “branquitude” e, em seguida, com análises de produções audiovisuais dos séculos 20 e 21. A partir do entendimento de que ficções são campo fértil para a coleta de informações que indivíduos não forneceriam de forma voluntária, Miano se vale de produções estadunidenses e francesas para o cinema e a televisão de modo a elucidar o problema branco.
Ao investigar as relações raciais nas produções norte-americanas, conclui que o país tem a capacidade de encarar a própria depravação e revelá-la ao mundo. Vêm de dentro as críticas mais contundentes aos erros e até aos crimes dos Estados Unidos. Já a França, marcada por uma história escravagista, se acostumou a não abordar a questão racial. Para grande parte dos franceses, o assunto ainda parece distante. Quando o tema é escravidão, a narrativa dominante se resume a: “africanos vendiam africanos”. Quando é abolição, a versão contada é: “a França pôs fim a esse horror”.
A branquitude francesa pratica um relativismo moral baseado em apontar erros alheios para justificar os próprios crimes. Isso resulta em um imaginário no qual o colonialismo é sempre a história dos outros, nunca da França. Dessa forma, o debate racial é restrito, tanto quanto possível, ao domínio acadêmico.
Longe do academicismo, Miano demonstra, com suas análises, que a invenção das raças humanas não foi uma simples forma de descrever diferenças físicas, mas de criar condições políticas. O ato do europeu de definir-se como branco não significava (nem significa) descrever uma constituição natural. Para a autora, significava impor uma forma de viver no mundo e, assim, negar a humanidade de outros, saquear recursos, redefinir territórios e condenar povos inteiros à morte caso não se submetessem. Sua escrita faz ver tudo isso.
Especial Atlântico Negro Francófono
Especial sobre livros de autores do Atlântico Negro Francófono lançados no Brasil em 2025 realizado com o apoio da Embaixada da França.
Matéria publicada na edição impressa #99 em novembro de 2025. Com o título “Olhar subsaariano”