Literatura Negra,

A paixão do possível

Ganhador do Goncourt, escritor senegalês analisa as complexas relações entre política e literatura e as ligações entre África e América Latina

01nov2023 - 00h00 | Edição #75

Ao encerrar em Lisboa, em junho, sua longa turnê de 65 shows em nove meses, Chico Buarque voou a Paris para merecidos dias de descanso antes de retornar ao Brasil. Da estante de sua morada na capital francesa, retirou um livro que havia ganhado de presente de aniversário no ano passado: La Plus Secrète Mémoire des hommes, do escritor senegalês Mohamed Mbougar Sarr. Aberta a primeira página, não conseguiu mais parar de ler. “É simplesmente maravilhoso! Ele escreve maravilhosamente bem, e além do mais é engraçado, tem humor. Após ler esse livro, não sei como poderei voltar a escrever novamente”, exagerou o escritor laureado com o prêmio Camões.

Sarr não seduziu apenas o autor brasileiro. Lançado no Brasil pela editora Fósforo, A mais recôndita memória dos homens conquistou em 2021 o Goncourt — principal prêmio literário francês — por unanimidade e, desde então, tem acumulado elogios da crítica e dos leitores em todo o mundo.


A mais recôndita memória dos homens é o quarto romance do escritor senegalês Mohamed Mbougar Sarr

Após três romances com temas da atualidade como pano de fundo — o terrorismo islâmico em Terra silenciosa (Malê, no prelo), a migração em Silence du chœur (Silêncio do coração, sem tradução) e a homofobia em Homens de verdade (Malê, 2022) —, o autor, hoje com 33 anos, produziu um texto de maior fôlego e complexidade. A mais recôndita memória dos homens é uma meditação profunda sobre a literatura, a identidade, o exílio e as conflituosas relações entre a Europa e a África e seu passado colonial, em uma narrativa existencial, política e detetivesca carregada de imaginação, humor e sensualidade.

A trama se desenvolve em torno da busca pelo escritor senegalês T.C. Elimane, desaparecido em 1940 após uma campanha de acusações de plágio por seu único romance, O labirinto do inumano, publicado em 1938 e tornado um livro cult. Nessa odisseia, o jovem escritor Diégane Latyr Faye se aventura pelo mundo em 2018 à procura de traços do “Rimbaud negro”, passando por Dakar, Paris, Amsterdã e Buenos Aires, cruzando com personagens fictícios ou invocando figuras literárias como Witold Gombrowicz, Ernesto Sabato e Jorge Luis Borges.

Para criar o personagem de Elimane, Sarr se inspirou na história do escritor malinês Yambo Ouologuem, primeiro negro a ganhar o prêmio francês Renaudot, em 1968, com 28 anos, pelo então incensado romance Le Devoir de violence (O dever da violência, ainda sem tradução). Em 1972, no auge de sua popularidade, foi acusado de ter plagiado escritores como Guy de Maupassant, Graham Greene e André Schwarz-Bart. Apesar de seus argumentos de defesa, foi abandonado por seu editor francês (que retirou o livro de circulação), refugiou-se em seu país natal e viveu como eremita até morrer no esquecimento, em 2017.

Segundo Sarr, Ouologuem foi atacado, tanto na França como na África, por ter escrito ‘um grande livro’

Segundo Sarr, Ouologuem foi atacado, tanto na França como na África, por ter escrito “um grande livro”. Seu fascínio foi incrementado por interrogações sobre o destino maldito do autor: em que estado de espírito ele estava? O que fez depois? Por que ficou em silêncio?

Sarr é um esteta da linguagem, pela qual defende seu engajamento político como escritor. Seu romance é labiríntico, alternando a voz do narrador com cartas, trechos de diários e sobressaltos cronológicos. Ele não esconde a influência da leitura de 2666, do chileno Roberto Bolaño, que lhe permitiu brincar com os gêneros literários.

Na reta final de sua “turnê Miss França”, como apelidou com humor o circuito internacional de promoção do livro, Sarr, que mora em Beauvais, no norte francês, terá ainda uma maratona pela frente, literalmente: ele treina para correr 42 quilômetros em outubro de 2024, após as Olimpíadas de Paris, fruto de uma aposta perdida com seu editor, que afirmava que seu livro estaria nas listas dos principais prêmios franceses.

Em A mais recôndita memória dos homens, você aborda a literatura e a escrita, e por meio disso complexas ligações entre a Europa e a África. Como analisa essa relação?
É muito complicada. O que quis mostrar nesse livro é que a literatura não escapa à relação de forças políticas. Ela é assimétrica na medida em que há a ideia de que aqueles que são dominados não merecem ser lidos ou conhecidos. Caso contrário, que sejam lidos sob um regime da exotização ou de uma forma de pesquisa, de uma particularidade. Tudo isso se funda no racismo, sob uma forma de hierarquização. Também temos uma cultura desenvolvida sobre os cânones dominantes. Isso acaba dando problema, pois quando se é um escritor africano — como Elimane ou Ouologuem — jogando com cânones que não são os nossos, nos expomos a uma grande violência simbólica.

Tudo isso vem do fato de que essa hierarquização foi estabelecida por critérios pseudocientíficos. No plano literário, essa situação faz com que, hoje, os escritores africanos de expressão francesa sejam muito pouco conhecidos, embora escrevam em francês há mais de um século. A questão que me parece central é de como essa dominação política influencia e orienta o diálogo entre os cânones.

Você sugere olhar mais para a América Latina e identificar o que pode ser construído em conjunto?
Há, esteticamente, uma circulação possível entre a América Latina e a África. O senegalês Léopold Sédar Senghor conhecia muito bem a poesia de Octavio Paz. Sony Labou Tansi, escritor congolês, admirava Gabriel García Márquez, que era um grande admirador de autores haitianos, particularmente Jacques Stephen Alexis, a quem ele atribui a paternidade do realismo mágico. E, para falar do Brasil, Senghor era grande amigo de Jorge Amado. Temos uma história que atravessa dois continentes e que retorna, fechando um ciclo. Em termos literários, a circulação ainda não é muito forte. Por isso que aprecio Roberto Bolaño, que não deixava de falar do continente africano, como fez em Os detetives selvagens.

Parte de seu romance se passa na América Latina não só por suas influências literárias, mas também porque é nessa região do mundo onde o legado das questões colocadas pelos poetas da negritude está mais vívido. Por quê? 
A negritude sempre falou do mundo negro, não diz respeito somente à África. E, quando vejo a maneira como no Brasil, na Colômbia e em Cuba as comunidades negras se organizam e como tentam preservar o saber e os rituais, dos quais se encontram traços no Haiti ou no Benin, me parece ser uma herança de tudo o que a negritude tentou dizer. Há uma certa unidade que foi rompida no mundo pela escravidão. E esse rompimento não pode nos fazer esquecer que há laços possíveis. Os mais fortes e vivos, e também os mais políticos, encontramos na América do Sul. A preocupação em preservar essa riqueza cultural está bem mais presente na região, principalmente no Brasil.

Você reivindica a influência da literatura caribenha e sul-americana. Há algum escritor brasileiro em sua estante? 
Conheço a literatura brasileira um pouco menos do que a literatura sul-americana em espanhol. Do Brasil, além de Guimarães Rosa, leio bastante Clarice Lispector. Mais recentemente conheci a obra de Jorge Amado. Fora esses, conheço Machado de Assis. Mas Guimarães Rosa é aquele que me toca mais. É a minha grande referência do Brasil. Grande sertão: veredas foi um grande choque para mim. Eu me perguntava como poderia continuar a escrever após ter lido um livro assim.

De que modo faz sentido para você falar de uma literatura senegalesa, brasileira, francesa? 
Para mim, a ideia de nação na literatura não é contraditória à noção de uma república mundial das letras. As literaturas vêm sempre de um lugar. Não é a nação no sentido de uma reivindicação nacional, mas em relação à cultura. É a maneira com que, num dado espaço, os problemas de nossa condição se exprimem. Isso é que dá sentido a uma literatura dita nacional. O interessante no fato de Gombrowicz e Sabato terem sido amigos na Argentina é que Gombrowicz era polonês, e permaneceu profundamente polonês mesmo tendo deixado seu país e ficado em Buenos Aires. Ele estava lá como imigrante, e o diálogo que iniciou com todos os escritores argentinos se tornou também interessante.

Por outro lado, você defende uma “literatura aberta” e critica os que o definem como um “escritor senegalês” e como “escritor africano”. Dentro desses rótulos, você poderia abordar certos temas e outros, não. 
Isso se torna problemático quando a pessoa já tem um preconceito sobre o que deveria ser a literatura senegalesa ou africana. Cada um de nós tem preconceitos, mas quando eles são justificados por uma relação colonial ou por um tipo de hierarquização, temos um problema. Porque não se tem a curiosidade de descobrir o significado do que é ser um “escritor senegalês”. Isso já foi preconcebido em espírito, o que acaba por encerrar o escritor em uma determinada identidade. A literatura não escapa às grandes forças políticas que estruturaram o mundo durante séculos. O racismo que podemos perceber nas artes, na linguagem ou na política é influenciado pelas relações de dominação simbólica e de hierarquização tácita que vêm dessas forças.

Em 2000, o escritor francês Robert Sabatier, então membro do júri do Goncourt, disse que o prêmio não havia sido dado ao costa-marfinense Ahmadou Kourouma por causa de seus “maneirismos excessivamente africanos”. 
Kourouma estava na lista final do Goncourt, e um membro do júri disse que alguém que usava o francês daquela maneira não merecia concorrer ao prêmio. Já havia uma exotização muito forte do que deveria ser o uso do francês. Não se leva em conta tudo o que Kourouma poderia acrescentar como escritor africano de expressão francesa. Não porque isso não nos agrada por razões estéticas ou subjetivas, mas porque já se define o que é o francês padrão.

‘Se Ouologuem fosse um francês, teria sido acusado de plágio? Se fosse branco, teria tido o mesmo destino?’

Yambo Ouologuem foi uma inspiração para a escrita de A mais recôndita memória dos homens. Você se interessou por sua literatura, mas ficou fascinado por sua história? 
Sim. Seu destino e seu percurso, além de sua literatura, são fascinantes, e têm a ver com todas as questões políticas entre África e Europa e a relação colonial. Pode-se fazer uma leitura literária do plágio, e isso não terá fim, porque é difícil definir o que é um plágio. Uma vez que se politiza a acusação de plágio, ela se torna interessante, pois entra em jogo a relação entre os diferentes cânones literários e a dominação. Se Ouologuem fosse um autor branco, teria tido o mesmo destino? Se ele fosse francês, teria sido acusado de plágio?

Ouologuem é simbólico das complicadas relações políticas entre a França e suas ex-colônias. Ele foi um vanguardista extraordinário, tanto para a literatura africana como para questões relacionadas à intertextualidade, à mistura de gêneros e de códigos, e ao diálogo entre os cânones. Estava muito à frente de seu tempo.

Por isso que você diz que quando somos tocados por um texto ele nunca nos abandona, podendo ser vislumbrado em nossa escrita? 
Borges tem o conto “A aproximação a Almotásim”, no qual há essa frase que diz que todo livro tem a honra de ser resultado de um livro precedente. Borges radicaliza, praticamente diz que o fato de ser influenciado é uma honra. Ele tem razão. Mas, por vezes, essa influência é totalmente inconsciente. Ser um escritor e um leitor é se expor, quando escrevemos, a ter toda uma biblioteca, consciente e inconsciente, em nossa memória. Não legitimo de nenhuma forma o plágio, mas percebo como o que lemos permanece em nós e nos influencia na nossa escrita.

A influência é uma honra, mas também é, como dizia Harold Bloom, uma angústia. A angústia da influência é dizer que podemos ser influenciados por algo que esquecemos. É aterrador, mas também é a realidade da literatura e da leitura. A questão é ver como podemos assumir uma influência sem que seja necessariamente um plágio. Essa é a grande dificuldade à qual todos os escritores são expostos. Cada um tenta reivindicar uma influência sem que ela seja uma prisão.

Em A mais recôndita memória dos homens, o personagem Tokô Ngor diz que a colonização é um espinho na carne do colonizado, e a questão é como continuar a viver com esse espinho.
É um pouco isso mesmo. O que faz com que a colonização seja trágica e perigosa é que certas heranças deixadas por ela não desaparecem e permanecerão para sempre. O grande desafio é fazer com que essas heranças não continuem a exercer a mesma violência. É o exemplo da língua francesa no Senegal, algo muito concreto da era colonial. Não penso que possamos suprimi-la no país, mas podemos explicar por que o francês é presente e torná-lo uma língua entre outras, um instrumento, e não necessariamente o que nos domina e humilha. Foi um espinho plantado na nossa carne. É preciso aprender a viver com ele, e dizer que não nos mata mais, porque conseguimos dominá-lo, domesticá-lo, colocá-lo no mesmo plano que as outras línguas, e não mais sobre o pedestal da dominação.

‘Roberto Bolaño mudou minhas expectativas em relação à literatura e ao romance’

Você afirma que se tornou um “novo leitor” e um “escritor mudado” após ler Roberto Bolaño. Por quê?
2666 foi o primeiro livro de Bolaño que li. Mudou minhas expectativas em relação à literatura e ao romance. Fui muito marcado pela tradição francesa da língua, que se volta mais para aquela definição de estilo que vem do século 19. Bolaño não só se distanciou disso mas conseguiu me mostrar que o estilo pode vir de um antiestilo. Pode vir de um tipo de insolência, de jogo, de desordem e de imperfeição erigidos sobre um estilo extremamente forte. E me mostrou que o objeto do romance pode ser a busca pelo fazer da literatura. Não foi ele que inventou isso, mas foi quem fez de uma forma mais lúdica, sem deixar de interrogar o status e o poder da literatura no mundo.

Ele também me fez retornar à literatura latino-americana. Minhas primeiras experiências não foram tão poderosas. Não havia entendido Jorge Luis Borges quando o li , e isso me desesperou. Depois de ler Bolaño, reli Borges, e me pareceu extraordinário. Foi uma porta de entrada para uma volta à literatura latino-americana, para Borges, Sabato, Cortázar e todos os outros.

No livro, Diégane se interessa pela “paixão do possível”, uma fórmula de Kierkegaard. O que é esse conceito? Você o segue? 
Sim, tenho a paixão do possível. Ou ao menos procuro tê-la. É o que me permite escrever romances. O romance é sempre a paixão do possível, uma curiosidade sobre o que poderia ser. Há uma exaltação particular ligada ao fato de ver o outro lado das coisas. A paixão do possível é a imaginação. A fórmula vem de Kierkegaard, mas foi expressa de modo mais forte por Robert Musil, que se inspirou muito no filósofo. Em O homem sem qualidades, ele diz que se existe um sentido do real, deve também existir algo como um sentido do possível. O romance não é nada mais do que um tentativa de encontrar o sentido do possível. Como romancista, procuro fazer com que as coisas não sejam somente tal como me aparecem, mas também como poderiam ser no futuro e como podem ter sido no passado.

Diégane se pergunta: “Qual o peso da questão da escrita comparada à do sofrimento social?”. Eu faço essa mesma indagação para você. 
Penso que, ao mesmo tempo, ela é muito e nada importante. É esse equilíbrio que permeia todo o romance. Há uma fé muito forte e absoluta nessa paixão do possível, de uma literatura que possa mudar as coisas, assumir sua parte nos movimentos sociais e na realidade, servir àqueles que sofrem e que ficam presos às relações de poder e de dominação. Ao mesmo tempo, me dou conta de que a literatura frequentemente fica desamparada quando a realidade social chega com urgência e força. A literatura tem sempre uma relação ambígua com isso. Para melhor explicar essa realidade, é preciso tempo. E a literatura não existe para dar respostas. A mais recôndita memória dos homens está nesse equilíbrio, no fato de dizer que a literatura pode tudo e não pode muita coisa.

‘Os escritores que escolheram o tempo como objeto operaram uma grande revolução na escrita’

A figura do labirinto está no centro da escrita. Ela é para você como uma metáfora para sua ideia da arte do romance? 
A arte do romance é aquela que vem quebrar a linearidade do tempo. Para mim, a grande revolução romanesca ocorreu no final do século 19 e começo do século 20, quando se confundiu a questão do tempo. Todos os escritores que escolheram o tempo como objeto da escrita ou elemento central da narração, como Proust, Joyce, Faulkner ou Virginia Woolf, operaram uma das principais revoluções, que consistiu em dizer que nossa percepção do mundo não é ordenada.

Por que os romances deveriam ser sempre ordenados cronologicamente? Nossa percepção do tempo não é linear, é caótica, pois está sempre entre o passado, o futuro e o que chamamos de presente. Nosso corpo, sim, avança para a morte, mas interiormente não vivemos assim. O romance é isso também, o fato de representar na linguagem o que a nossa percepção psicológica do tempo pode ter de caótica. O labirinto é uma metáfora existencial, da busca de algo que pode ser perigoso, ou um tesouro, um segredo, algo como um sentido último.

Em seu romance sobram farpas para editoras francesas e uma literatura mais comercial.
Todos sabemos que a literatura é também um produto que possui mercados e que há uma economia do livro. A partir do momento em que a economia está em jogo, a questão do valor literário nem sempre é prioritária. E, se o valor comercial é a bússola, há padronização, uniformização e mercados que são visados, por vezes determinando os gostos, que nem sempre são literários. E funciona. Mas é esse o cinismo do neoliberalismo: se funciona, não há outro critério. As pessoas gostam, ficam felizes, dá dinheiro. Como responder a isso? Não sei. Ao mesmo tempo, podemos ler László Krasznahorkai, Ben Okri ou Olga Tokarczuk, autores de obras poderosas, ambiciosas e complexas, que conseguem se inserir no mercado internacional. Esse é o paradoxo desse circuito.

Você se reivindica como um escritor engajado esteticamente. Na sua opinião, a linguagem e o estilo definem uma posição no mundo? 
Para mim o engajamento é uma questão de prioridade da ordem do discurso. Primeiro, será sempre de ordem literária, de ficção. Mas essa ordem poética produz sempre uma política. Não escapamos à questão política, mesmo quando pretendemos tomar uma posição mais esteticamente pura. Isso não existe. Todo engajamento estético, toda escolha de palavras, de estilo, de linguagem, de metáforas, de verbos e adjetivos têm também um efeito político.

A linguagem descreve uma certa situação em um determinado contexto, e também um posicionamento político em relação ao que falamos. O simples fato de se escrever um romance sobre a homossexualidade no Senegal produz uma política [Sarr publicou o livro Homens de verdade, que mostra pessoas desenterrando o corpo de um homem morto, por alegar que ele era homossexual e que, por isso, não poderia ser enterrado num cemitério muçulmano].

Um dos personagens de Homens de verdade dá o seguinte conselho: “Jamais tente dizer do que fala um grande livro. Ou, se você o fizer, eis a única resposta possível: não fala de nada. Um grande livro sempre fala de nada e, no entanto, tudo está lá”. É também a sua opinião? 
O absoluto é aquilo que foi definitivamente perdido. É preciso aceitar essa ideia, mesmo que seja desesperadora. Acredito que os livros nos marquem também por isso, porque temos a impressão de que conseguiram dizer que algo foi perdido. A sensibilidade humana está também relacionada ao fato de que temos uma intuição profunda de algo em nós que não está presente — que há uma ausência. E a literatura não está aí para preencher essa ausência, mas para que tomemos consciência de forma ainda mais forte dessa ausência. A literatura é extremamente corajosa ou perigosa ao nos mostrar a ausência e a perda, ao designar um buraco negro que existe no centro de nossa condição. Em todo caso, ela arrisca.

‘Todo engajamento estético, toda escolha de palavras, de estilo, de verbos têm também um efeito político’

A literatura nunca chega a dizer exatamente o que foi perdido — desenha os contornos dessa perda, e já é muito. Evidentemente, não aparece nunca em termos tão metafísicos: toma sempre corpo em intrigas, situações romanescas, personagens. Mas tudo isso é uma ilusão para esconder o verdadeiro tema do romance, algo misterioso que foi perdido. Para mim esse é o objeto de todos os grandes livros. Por isso que é difícil nomeá-los.

Seu primeiro contato com a literatura se deu por meio de sua avó, que lia para você contos em sererê, um dos idiomas do Senegal. Você ainda tem contato com essa língua?
É a minha língua materna. É com ela que me comunico com meu pais, meus irmãos e outras pessoas no Senegal. Não escrevo ainda em sererê, mas tenho um projeto de fazê-lo. É a língua pela qual não só descobri o mundo, mas também a ficção, por meio desses contos. É uma língua extremamente concreta e imagética, muito metafórica e espiritual, porque é ligada a um certo uso da religião. Há todo um arsenal linguístico, um vocabulário, para o que é invisível.

É uma língua bastante física, por ser muito ligada à terra e à agricultura. É muito concreta para nomear a natureza, que é um sinal quase religioso. No sererê, a religião tradicional é ligada aos cuidados com a natureza e os elementos naturais são vistos como a manifestação de um poder superior.

Embora more na França há catorze anos e tenha uma mulher francesa, você não cogita solicitar a nacionalidade. Por quê? 
Gosto da ideia de ser um estrangeiro na França. É algo que me deixa com muita liberdade e que me permite ter um olhar muito independente sobre o país. Não é por nacionalismo ou patriotismo que me apego à nacionalidade senegalesa. É algo bastante misterioso, porque não tenho uma razão forte e objetiva. Talvez porque tenha sido graças a essa condição que comecei a escrever quando cheguei no país, no meu blog, para mostrar o que significava ser estrangeiro na França.

Você estava em um hotel quando recebeu a notícia da premiação do Goncourt, e ganhou um abraço de uma camareira malinesa, que disse: “Estou muito feliz”. Já em seu livro, você ironiza os prêmios literários. 
Não se pode ter uma posição apenas divertida e irônica desse prêmio. Há também um valor simbólico e político importante. Posso estar feliz e também ser irônico em relação a mim mesmo. Mas não podemos esquecer que o prêmio foi entregue em 2021, e vivemos em um mundo em que há dominação, humilhação e racismo, e isso vai além de considerações literárias. Pertenço a um tipo de minoria e, para essa minoria, o prêmio pode representar algo importante. Não posso ignorar isso.

Quem escreveu esse texto

Fernando Eichenberg

É escritor e correspondente internacional na França, é autor de Entre aspas, v. 1 e 2 (L&PM).

Matéria publicada na edição impressa #75 em outubro de 2023.