Literatura Negra,

O cultivo da beleza

Romance de Simone Schwarz-Bart passado em Guadalupe traz história de amor entre avó e neta

14nov2023 - 11h01 | Edição #75

Para contar a própria história, Télumée Lougandor remonta à vida de sua bisavó, Minerve, com o intuito de apresentar a linhagem de mulheres das quais descende, especialmente sua avó Toussine, conhecida como A Rainha Sem Nome. A narradora, já idosa, observa como sua família era conhecida por demonstrar dignidade mesmo diante de infortúnios terríveis — como a morte de maridos e filhos —, uma vez que as meninas eram educadas com provérbios como: “A mulher que riu é a mesma que vai chorar, e por isso já se sabe, pela maneira como uma mulher é feliz, qual será sua postura diante da adversidade”.


Se há um grande amor no romance Chuva e vento sobre Télumée Milagre, de Simone Schwarz-Bart, é a relação entre a narradora e sua avó

Toussine era reconhecida por sua beleza, a pele escura e a maneira como mantinha sua casa bem arrumada e cultivava seu jardim. Sua elegância despertava comentários maldosos, uma vez que vários moradores das comunidades negras rurais de Guadalupe ainda carregavam inúmeros traumas da escravidão e confundiam sua pobreza material com um sinal de inferioridade ou um castigo. Diversos diálogos entre os moradores de Fond-Zombi questionam se os negros seriam mesmo filhos de Deus, pois mesmo libertos tinham uma existência marcada pela pobreza, pelo luto e pela dor.

Essa vida simples, em choupanas de madeira construídas nas terras dos brancos que exigiam parte da produção dos quintais, com uma alimentação complementada pela pesca e pela coleta de frutas na floresta, não era um problema para as mulheres da família Lougandor. Seu desejo de viver em liberdade, longe do racismo dos brancos de Belle-Feuille e do assédio dos capatazes do canavial, se traduzia num modo de viver no qual a simplicidade convivia com a beleza. Suas cabanas eram limpas e enfeitadas com plantas e flores, seus cabelos trançados com óleo de rícino, suas roupas não eram caras, mas seu orgulho sempre fazia com que elas se destacassem na comunidade.

A narrativa recorre a uma tradição oral de provérbios e canções homenageando a cultura negra de Guadalupe

Para Toussine, o desgosto chegou com um acidente que lhe tirou uma filha. Para Victoire, a caçula entre as filhas da Rainha Sem Nome, o infortúnio foi a morte de seu companheiro Angebert, o pai de Télumée. Quando Victoire saiu do luto e se apaixonou por Haut-Colbi, um sujeito com fama de mulherengo, deixou sua primogênita Regina com a família do pai e mandou Télumée para a casa da avó em Fond-Zombi.

A mudança não só deu um rumo inesperado à vida da menina, então com dez anos, como trouxe uma nova vitalidade para a Rainha Sem Nome. Quando pensava que só lhe cabia a repetição dos dias até reencontrar seu marido Jerémie no mundo dos mortos, Toussine se viu diante de uma menina para lhe fazer companhia, ajudar no serviço doméstico e a quem transmitir o que aprendeu ao longo da vida. Por sua vez, Telumée se encanta com as histórias e cantigas de sua avó e é surpreendida por receber tanto carinho e atenção daquela senhora com porte de rainha, mesmo um pouco curvada pelo tempo.

Afetos

Embora Chuva e vento sobre Télumée Milagre apresente várias histórias de paixões, casamentos, separações e novos relacionamentos, se há um grande amor no romance é a relação entre a narradora e sua avó. Toussine tenta preparar a menina para a vida com provérbios como “atrás de uma dor há outra dor, a miséria é uma onda sem fim, mas o cavalo não deve te conduzir, é você quem deve conduzir o cavalo”. No entanto, a sabedoria da avó não é capaz de proteger a jovem de cometer os próprios erros.

Aos dezesseis anos, depois de uma temporada trabalhando como empregada doméstica para uma família branca com o intuito de pagar o tratamento médico da avó e juntar algum dinheiro para começar sua vida com Élie, um jovem ambicioso que trabalha como serrador, Teluméé deixa a choupana da Rainha. Ele logo se torna amargurado devido à falta de oportunidades de ascensão social e desconta sua frustração bebendo rum e agredindo a moça física e verbalmente.

Embora a avó faça visitas, trance os cabelos da neta, massageie sua pele manchada por hematomas, é Telumée quem precisa encontrar um limite e a força para desistir do relacionamento. Quando volta para casa, a convivência com a avó e com a feiticeira man Cia aos poucos revigoram seu espírito. Ela então se dá conta da fragilidade de Toussine e percebe que avó a está preparando para viver sozinha.

Acompanhamos o processo de amadurecimento e autodefinição de uma mulher negra

Depois da morte da Rainha Sem Nome, Télumée se muda para La Folie. Suas visitas frequentes a man Cia — a querida amiga de sua avó com quem compartilha a saudade de Toussine — se transformam num aprendizado do uso de ervas, rezas e artes de cura. Desgarrada no mundo, Télumée se torna cortadora de cana e rezadeira, e encontra o amor novamente com Amboise, mas se vê só outra vez, pois o infortúnio vem em ondas.

A narrativa recorre a toda uma tradição oral de provérbios e canções homenageando a cultura negra de Guadalupe, onde Simone Schwarz-Bart nasceu. A edição da editora Carambaia apresenta ainda um ensaio de Itamar Vieira Junior e um posfácio de Vanessa Massoni da Rocha, professora da Universidade Federal Fluminense.

Chuva e vento sobre Télumée Milagre, assim como Seus olhos viam Deus, de Zora Neale Hurston, é um romance em que acompanhamos um processo de amadurecimento e autodefinição de uma mulher negra, em que a raça influencia fatores socioeconômicos e experiências, mas são os princípios, os erros e os desejos da protagonista que definem o percurso de sua vida. Na velhice, quando faz seu relato e está à espera da morte no jardim, em meio aos sonhos, Télumée fala de seu passado com a alegria e a serenidade de quem viveu de acordo com seus valores, sem desejar ser outra coisa além de uma mulher negra que conheceu a felicidade em meio aos sofrimentos e soube conduzir seu cavalo, sem se deixar ser conduzida.

Quem escreveu esse texto

Stephanie Borges

Jornalista, ganhou o prêmio Cepe de poesia com Talvez precisemos de um nome pra isso (no prelo).

Matéria publicada na edição impressa #75 em outubro de 2023.